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Pedro Baía

pbaia@autonoma.pt
Membro integrado do Lab2PT, Laboratório de Paisagens, Património e Território da Universidade do Minho / Colaborador no Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/UAL), Portugal 

 

Para citação: BAÍA, Pedro – Da responsabilidade da escolha, Introdução ao Dossier. Estudo Prévio 20. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2021, p. 19-20. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/20.2

Review received on 01 October 2021 and accepted for publication on 05 November 2021
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Este dossier resulta de um convite, em jeito de desafio, para selecionar 16 textos de arquitetura para serem publicados na revista EP – Estudo Prévio, no âmbito da celebração da sua edição número 20. A ideia seria publicar, em português e em inglês, uma seleção de textos fundamentais na arquitetura portuguesa das últimas décadas.

Um dos desafios que nos pareceu mais interessante, até como critério para nos guiar na complexa escolha de possíveis textos, foi a possibilidade única de traduzir para inglês um conjunto de textos que consideramos fundamentais para uma melhor e mais ampla compreensão internacional da nossa cultura arquitetónica portuguesa da segunda metade do século XX.

Sabemos a importância que teve, por exemplo, a tradução do castelhano para o inglês do texto “No son genios lo que necesitamos ahora” (1961), da autoria de José António Coderch. Essa tradução para inglês permitiu uma ampliação de discurso e de investigação em torno de Coderch, contribuindo também para uma mais aprofundada análise da sua obra construída.

Neste exercício de seleção, imaginámos um investigador em Delft, ou um estudante em Zurique, a poderem ter acesso online e livre à revista EP e a conseguirem ler um conjunto de textos criteriosamente escolhidos. Não se trata apenas da leitura de textos isolados, é também a leitura de um conjunto de autores, com as suas referências e perspetivas particulares.

Os recursos para o trabalho de tradução são muito raros e difíceis de obter, principalmente no contexto arquitetónico português, onde não é muito comum traduzirem-se textos ou livros mais antigos para inglês. É significativo notar que a edição em inglês do livro Imaginar a evidência de Álvaro Siza foi apenas publicada em 2021 pela Monade, com o título Imagining the Evident.

É por isso um privilégio termos a possibilidade de traduzir estes 16 textos para inglês, num conjunto que representa um pensamento e uma cultura arquitetónica que se foi construindo num palimpsesto coletivo de várias gerações, desde os textos mais antigos de Fernando Távora, Nuno Teotónio Pereira e Pancho Guedes, até aos mais recentes de Ana Tostões, Manuel Graça Dias e Paulo Varela Gomes.

A publicação online destes textos constitui também uma oportunidade para os revisitarmos ou para os lermos pela primeira vez. Os textos lançam ainda pistas sobre a acutilância crítica dos seus autores, convidando os leitores a descobrirem outros escritos da sua autoria. Textos como o de Nuno Portas, por exemplo, numa mensagem enviada ao Encontro Nacional de Arquitectos de 1969, são assim divulgados para um público mais amplo, abrindo as mais variadas possibilidades de relação e interpretação. Optou-se por publicar os textos na sua grafia original, mantendo assim o espírito de época de cada um.

Os textos foram escritos na segunda metade do século XX, entre 1953 e 1999, por autores de diferentes gerações, desde Nuno Teotónio Pereira e Manuel Tainha, nascidos em 1922, passando por Álvaro Siza, Nuno Portas ou Alexandre Alves Costa, nascidos nos anos 1930, até Ana Tostões, nascida em 1959.

Da responsabilidade da escolha que sentimos, temos a consciência que não é uma seleção perfeita, sendo o resultado, como qualquer seleção, de um exercício subjetivo e questionável. Por isso mesmo, é uma seleção discutível e disponível para o debate. Acreditamos também que poderá ser o primeiro volume de uma série de outras seleções futuras. Haja tempo e vontade.