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João Miranda

joaomhmiranda@outlook.com

Arquiteto e Doutorando no Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa (Da/UAL), Portugal. CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal.

 

Para citação:MIRANDA, João – Construir a nova E(vo)ra — Cidade, Processo e Desenho de Álvaro Siza [Caderno 3/77]. Estudo Prévio 28. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, maio 2026, p. 12-23. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/28.EV2

Recebido a 11 de março de 2026 e aceite para publicação a 17 de junho de 2026.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Resumo

Em projetos como a Malagueira — um processo de grande escala e complexidade — Álvaro Siza, a partir do desenho, num caderno [de capa vermelha] que o acompanhou para uma viagem a Évora, iniciou uma exploração sobre a cidade, sobre a estrutura da paisagem e da lógica das pré-existências, desenvolvendo uma delineação de organização, capaz de se transformar e de crescer ao longo do tempo — fazendo, inclusive, algumas referências e anotações sobre a natureza nos seus cadernos —, em vez de impor diretrizes ou matrizes rígidas e inquebráveis. Este tipo de abordagem indicia uma possibilidade de ilustração uma questão mais ampla: de que modo pode a arquitetura envolver-se com a complexidade da cidade através de intervenções atentas e orientadas pelo contexto, em vez de recorrer a teorias urbanas? Outras questões tornam-se igualmente relevantes, integrando-se numa discussão mais abrangente, que conduz a problemas mais específicos: como desenhar a cidade e qual a relação entre o ser humano e a natureza? Que relações se estabelecem entre o ambiente construído, a habitação e o direito à cidade? Qual é o papel do espaço público na vida coletiva? Poderão estas interrogações constituir ferramentas para um princípio estrutural no desenho da cidade?

Assente em sucessivas análises in situ dos cadernos de Álvaro Siza — integrados na coleção da Drawing Matter —, no contacto direto com o Caderno 3/77, na análise de documentação não publicada e entrevista com o arquiteto, este caderno é examinado enquanto exercício explícito de destilação de pensamento sobre a cidade e a paisagem. Mais do que um simples repositório de desenhos, constitui um instrumento de trabalho através do qual observação (aproximação), experiência e projeto se articulam. Assim, este caderno pode ser entendido como o registo de um processo que emerge do encontro com o lugar.

Através do desenho, da escrita e da observação que promove interrogações, Siza procura compreender as condições específicas do território, transformando a experiência direta numa estrutura conceptual capaz de orientar o desenvolvimento do projeto. O caderno revela, assim, não apenas a génese formal de uma proposta arquitetónica, mas também um modo de pensar e construir relações entre paisagem, cidade e habitação. Ao observar com cuidado certos momentos — ainda que em sequência —, para além da análise dos elementos desenhados, torna-se igualmente importante considerar os textos escritos nas primeiras páginas. Procura-se, deste modo, depurar estes vestígios, ver em conjunto a considerações organizadas e refletir sobre o seu valor enquanto possibilidades de transformação e de construção. Concebido em 1977, [o Caderno 3/77] encontra-se hoje fragmentado, não estando preservado no seu formato original, mas antes organizado como um conjunto de páginas soltas, com a devida aprovação do autor.

Nesse sentido, este ensaio visual procura recuperar as representações documentadas há cerca de cinquenta anos, restituindo o caderno enquanto conjunto coeso. Para tal, apresentam-se a capa e as primeiras oito páginas, de modo a observá-lo como um corpo único — isto é, na sua configuração original. Vistas em conjunto, estas páginas oferecem um relato particularmente significativo sobre o modo como a arquitetura é concebida — ou seja, sobre o processo através do qual uma nova cidade (e quiçá uma nova era) é desenhada.

 

Palavras-chave: Álvaro Siza, Caderno, Desenho, Processo, Cidade, Arquitetura, Évora.

 

Construir a nova E(vo)ra

Nota prévia

De forma mais ampla, decorre atualmente, no campo da arquitetura, um debate em torno da habitação em Portugal e, de modo mais abrangente, no contexto europeu. Numerosas reflexões — quer publicadas no meio académico, quer desenvolvidas fora dele — parecem organizar-se em torno de uma preocupação comum: compreender de que modo os arquitetos entendem e podem intervir, nas condições contemporâneas e no contexto atual, sobre a cidade enquanto ambiente complexo e em permanente transformação, onde forças sociais, ecológicas e espaciais se intersectam. Para além de várias reflexões devidamente enunciadas, diversas questões podem incidir repetidamente em quatro temas centrais: a natureza da cidade, a relação entre o ser humano e a natureza, a habitação e o direito à cidade, e o papel do espaço público na vida coletiva. Em vez de procurar modelos [universais], estas reflexões interrogam sobretudo a forma como os arquitetos enfrentam contextos específicos e onde se inicia o processo de projeto quando se trabalha à escala urbana.

Neste sentido, surgem algumas ideias recorrentes: a arquitetura como prática contextual e ética; o espaço urbano como construção social coletiva; a inseparabilidade entre cidade, natureza e sociedade; e a habitação e o espaço público como questões centrais. Uma ideia forte atravessa muitas das reflexões: a arquitetura deve (ou deveria) operar através de intervenções cuidadosas e contextuais, capazes de responder a realidades sociais, ecológicas e políticas concretas, em vez de partir de modelos abstratos. Um exemplo particularmente elucidativo é o trabalho do arquiteto Álvaro Siza e, num projeto específico — a Malagueira, iniciado na década de 1970, num período pós-Revolução de 25 de Abril de 1974 —, nesta investigação e reflexão visual a partir dos seus registos no caderno de capa vermelha (1977). A sua abordagem a projetos de grande escala urbana não parte de diagramas abstratos de planeamento, mas antes de uma observação direta e atenta do lugar existente — do tecido social, da topografia, dos padrões da vida quotidiana, e a relação entre natureza e construção como decisivo na arquitetura. Évora – Malagueira: a elaboração do plano (Plano de Expansão de Évora — Quinta da Malagueira) foi confiada ao arquiteto Álvaro Siza pela Câmara Municipal. Paralelamente, o projeto (ou Estudo para a articulação) das habitações foi igualmente solicitado pela Associação de Moradores, iniciando-se, segundo as palavras de Siza depois de mais de vinte anos após o início do projeto deste modo, um processo simultaneamente “sobre a cidade e sobre a arquitectura” (Siza, 2000: 105)

Construir a nova E(vo)ra

Este é o mote registado não na primeira página do caderno (Évora Bouça, 3/77), mas sim na parte interior da capa vermelha do caderno de Álvaro Siza. Este caderno contém registos de três dias consecutivos — 18, 19 e 20 — do terceiro mês do ano, março de 1977. Os números patentes 3/77 presentes na capa constituem um elemento de identificação cronológica que permite situar este objeto; revelado nesta investigação de forma sequencial e na sua configuração original. Curiosamente, esta viagem de Siza termina no início da Primavera desse mesmo ano, uma coincidência metafórica que parece assinalar um (novo) início — um começo, um princípio. O Caderno 3/77 contém sessenta páginas, preenchidas com elementos ora escritos, ora desenhados, executados integralmente a caneta preta. O conteúdo distribui-se maioritariamente pela página direita do caderno e, devido à reduzida gramagem do papel, é possível, através de uma observação atenta, vislumbrar os traços da página anterior, estabelecendo-se assim uma relação de continuidade.

Na primeira página, Siza desenha planimetricamente diversas possibilidades de estruturação de uma nova existência — ou, como o próprio escreve, de uma “nova E(vo)ra” — para a cidade de Évora. Os desenhos registados apresentam diferentes possibilidades de agrupamento habitacional, ocupando maioritariamente cerca de metade da área representada, e evidenciam o pátio como um elemento fundamental do projeto desde o seu início — de forma literal, logo na primeira página. Através da linha, o arquiteto desenha simultaneamente o limite e o preenchimento de determinados fragmentos, num exercício de observação, análise e construção de relações. O desenho surge, assim, como um instrumento de investigação de projeto, através do qual são ensaiadas formas de organização espacial e exploradas as condições específicas de uma realidade concreta. No caderno, pode observar-se Siza em busca de referências e motivos que o orientem no processo de projeto — um projeto de uma escala consideravelmente maior e de maior complexidade do que a maior parte daqueles que até então lhe tinham sido solicitados. No entanto, o arquiteto não explicita referências diretas à arquitetura ou a projetos arquitetónicos. Quais seriam, então, essas referências ou modelos? Terá Siza a arquitetura romana como ponto de partida? Ou a arquitetura árabe? Esta ausência de referências explícitas poderá indicar uma forma de observação da realidade que se constrói através da experiência in loco e da atenção ao lugar, mais do que através da citação disciplinar ou tipológica. Estas referências e motivos surgem representados de diferentes formas, embora Siza também escreva notas em paralelo com os desenhos: alguns textos são bastante extensos, enquanto outros se limitam a poucas frases — motivos escritos. Ainda assim, alguns desenhos parecem repetir-se em vários cadernos de desenhos, sugerindo uma continuidade de investigação e de experimentação através do desenho.

O que nos revela o modo como o conteúdo é representado neste caderno? A intensidade com que a caneta incide sobre o papel poderá indiciar uma intenção mais definitiva ou uma particular especificidade? Talvez. No entanto, um aspeto recorrente é a marcação, através de formas circulares ou arredondadas, de elementos assinalados ao longo do caderno, sejam eles escritos ou desenhados. Estes círculos parecem destacar possibilidades, observações ou ideias que o autor considerou merecedoras de atenção particular, funcionando como dispositivos de ênfase no interior do próprio processo de pensamento e registo.

Na página cinco, os três principais objetos construídos do projeto encontram-se já visivelmente desenhados (e em diálogo): os agrupamentos de casas com pátio (em diferentes fases de desenvolvimento) num tecido uniforme e contínuo, a conduta que transporta as infraestruturas (“água”, “luz”, etc.) e que estabelece um eixo estruturante da organização, e uma ordem monumental que constrói uma hierarquia dos espaços urbanos, criando momentos específicos para os edifícios coletivos públicos, os quais possuem autonomia de forma, escala e implantação.

Após seis páginas com vários desenhos — não só de diferentes espaços e larguras, de axonometrias e perspetivas exteriores, apontamentos de possíveis ligações infraestruturais e plantas, como também de possibilidades tipológicas das unidades ou conjuntos habitacionais — sempre referenciados com regras, como números (7; 4, 3; 7; 5, 2; 7, 3, 1, 3, entre outros), estruturas com divisões ou compartimentação —, Siza retoma a escrita das ambições para Évora, na página sete, acompanhando-a com o desenho de uma estrutura em planta, com os verbos “inventar” e “continuar” sobre a “cidade”. Neste conjunto sequencial, o arquiteto desenha vários fragmentos, numa ordenação que vai da escala da cidade até à escala do espaço doméstico, explorando as relações e proporções do espaço íntimo — num aparente exercício de correlação entre a construção da cidade, a construção do direito à habitação na cidade, a relação entre o ser humano e a habitação e, ainda, o direito do ser humano à cidade. Estas duas ações parecem instituir, de forma inicial, o (possível) princípio do processo. Assim, a “nova Évora” estrutura-se a partir destas ações — a partir de uma dialética entre invenção e continuidade. Poderá esta “nova Évora” resultar simultaneamente de um processo de “inventar” e de “continuar”? Ou seja, da extensão da cidade existente, criando e inovando algo novo sem romper com as condições físicas, históricas e culturais do lugar? Acompanhadas por um desenho composto por linhas e traços de um plano, assinado e com a anotação “EvoraMarço77”, Siza desenha igualmente e descreve um apontamento de um “equipamento urbano”.

Na página seguinte, remata as duas primeiras frases (acompanhadas por vários fragmentos desenhados ora em axonometria, perspetiva ora em planta), agora apenas com referência a mais ações em que refere duplamente a questão do limite, i.e., do “limitar” para consequentemente seja praticável paulatinamente “cuidar” e “ligar”.

Inventar cidade

Continuar cidade

 

Limitar p/

Cuidar

  Limitar p/

 Ligar

“A opção inicial do projecto consistia em tentar delimitar o território com intervenções disseminadas, de modo a que o tempo e a capacidade de realização pudessem depois completar o desenho, ocupando os espaços vazios”.

 

(SIZA, 2000: 103)

Post scriptum

Na página nove, o arquiteto Álvaro Siza parece sugerir que quem desenha — ou constrói — o faz para a cidade e para os outros, guiado menos por um desejo individual do que por uma necessidade partilhada. Quem desenha sabe que o que faz não é inteiramente seu. Mesmo que o queira, nunca o foi — ou talvez nunca o será. Pertence antes aos espaços possíveis e às circunstâncias que tornam a arquitetura necessária. Se a cidade é movimento coletivo, construir não é um gesto isolado. Quando a construção é pedida — i.e., quando é encomendada, muitas vezes no momento em que tudo parece quase desfazer-se — o arquiteto aproxima-se desse intervalo frágil. Aproxima-se do que ainda não é.

Na página onze, Siza volta (como nas páginas oito e dez) a mencionar a direção da estrada para a capital, Lisboa, denotando o seu eixo importante de ligação e aproximação. Nesta página, a tipologia e o programa de várias construções são identificados como pontos de referência, ou mesmo marcos, espaços ou limites, como “igreja”, ou “colégio”, ou “cemitério” e “muralha”, respetivamente. Para além destas referências, na página surge a anotação — “edifícios a construir” — posicionada na parte superior, alinhada com o eixo referente a “Lisboa”, assim como a anotação de “livre”, sendo como uma referência espacial.

Na página seguinte, a doze, o arquiteto menciona por várias vezes os “bairros degradados” de Évora, numa descrição aparentemente visual tanto da cidade como da sua população. Siza nas páginas articula este diálogo entre a as questões formais da cidade com a vivência dos seus habitantes. Escreve sobre aparências e sobre os comportamentos, onde refere os “velhos de samarra e jovens de blue jeans” e “mulheres a pintar o recorte das janelas”, respetivamente. Estas palavras podem ter resultado de algo observado no momento ou não, reforçando a ideia de uma cidade e de um ambiente construído que carecem de renovação, e também em degradação. Em paralelo com a observação do detalhe, existe uma procura constante de uma compreensão global do território, frequentemente através do desenho, como perfis ou vistas aéreas de uma área extensa, onde linhas e anotações fazem referência às suas principais características… Serão vestígios para uma possibilidade de transformação?

Na página vinte e quatro, reaparece o mote que inaugura o caderno. A expressão “a nova E(vo)ra”, inscrita na contracapa interior, é novamente evocada, reforçando a sua função enquanto ideia orientadora de todo o processo de projeto. (…) Tendo adquirido uma compreensão clara das características do território e dos princípios orientadores do projeto, este desenho testemunha um esforço de síntese e consolidação. Nos dias registados no caderno, os aspetos fundamentais da proposta encontram-se estabelecidos. Na página trinta e cinco, assinada e datada de “20 Março 77” — no dia em que o Inverno já tinha sido ultrapassado — surgem as palavras “Évora Nova” no canto inferior esquerdo da página. A página, integralmente preenchida por uma vista aérea de uma área extensa desenhada, sintetiza os principais elementos da proposta: o pátio, a conduta (infraestrutural) e os espaços públicos. Três dias após a sua primeira chegada a Évora, o projeto começa a adquirir uma forma inteligível. O desenho, traçado a caneta sobre o papel, já não regista apenas observações ou hipóteses dispersas — traduz uma ambição de construção —, e torna-se um instrumento de síntese e de projeto. É nesse momento que emerge uma nova E(vo)ra — não ainda como realidade construída, mas como ideia arquitetónica capaz de organizar o território e de dar forma a uma (nova) condição…                   Ou uma nova Era?

Bibliografia

SIZA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000.

Entrevistas

SIZA, Álvaro – Entrevista c/ Álvaro Siza Vieira, 2025.

 

Agradecimentos

João Miranda agradece o apoio concedido pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) através da Bolsa de Doutoramento 2024.00899.BD.

 

Notas

[1] Todos os elementos apresentados são pertencentes ao Caderno 3/77 do arquiteto © Álvaro Siza Vieira. O Caderno de sessenta páginas, com as dimensões 295 × 210 mm, foi adquirido por Niall Hobhouse, e pertence, até à data, à Coleção da Drawing Matter (DMC 2503). Fonte: DMC — Drawing Matter Collection.