Inês Lobo
ineslobo@ilobo.pt
Arquiteta, docente no Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa (DA/UAL). CIEBA – Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes. CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal.
Rita Aguiar Rodrigues
rrodrigues@autonoma.pt
Arquiteta, docente e doutoranda no Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa (DA/UAL), Portugal. CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal.
Para citação: LOBO, Inês; RODRIGUES, Rita Aguiar – Em continuum: cinco entrevistas e dois ensaios visuais sobre o pensamento e a prática da arquitetura contemporânea. Introdução ao dossier. Estudo Prévio 28. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, junho 2026, p. 88-90. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/28.4
Recebido a 1 de junho de 2026 e aceite para publicação a 2 de junho de 2026.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
Em continuum: cinco entrevistas e um ensaio visual sobre o pensamento e a prática da arquitetura contemporânea. Introdução ao dossier
A arquitetura mantém uma relação ambígua com a mudança. Surgindo do desejo de transformação – da construção da paisagem, da acomodação de formas de ocupação – opera, inevitavelmente, sobre o que permanece: o património cultural. Cada projeto encontra uma geografia, um território, sistema ecológico, legado construído, correntes de pensamento, práticas de construção – um conjunto de relações que o antecedem. Cada projeto representa uma possibilidade de articulação com o edificado existente, e com todos os recursos – materiais, ecológicos, imateriais – investidos na sua construção, bem como com a história da própria disciplina. Esta tensão entre transformação e permanência, entre o anseio pelo novo e a pertença a um contexto que pré-existe, é uma questão ancestral e central da disciplina.
As cidades existem porque tiveram a capacidade de mudar. Os edifícios sobrevivem porque foram transformados. Os territórios adquirem novos significados sem deixarem de transportar consigo as marcas das sucessivas ocupações que os produziram. E a disciplina da arquitetura constrói-se através deste diálogo permanente entre aquilo que herdamos e aquilo que recusamos e acrescentamos em determinado tempo. É simultaneamente uma prática de continuidade e uma prática de invenção. Contudo, nem sempre, ao longo da história, atribuímos o mesmo peso a ambas as forças desta tensão.
A identidade, seja individual, coletiva, ou disciplinar, resulta de um processo contínuo de construção e reconstrução. E reconhecemos, atualmente, a necessidade imperativa de reconsiderar os pressupostos sobre os quais entendemos o papel da arquitetura e da sua prática. Não necessariamente porque os problemas que enfrentamos sejam inteiramente novos, mas porque reconhecemos os limites dos critérios que usamos para os abordar. A dicotomia entre a natureza e a urbanidade está esgotada, a cidade contemporânea não pode ser entendida e planeada a partir de modelos totalizantes, e o campo prioritário de operação da arquitetura – entendida progressivamente como um processo em continuum – é o existente.
A nossa compreensão do território, da cidade, e da missão da disciplina continua profundamente moldada pelos pressupostos do Movimento Moderno. Somos herdeiros de uma tradição que depositou toda a confiança na capacidade transformadora da tecnologia e das novas estruturas, na especialização dos programas e na separação entre funções, na ideia de progresso contínuo, e na possibilidade de formular respostas universais para problemas universais. Essa herança produziu realizações extraordinárias. Produziu também uma forma particular de olhar para a realidade, que devemos questionar.
Com exceção das questões decorrentes da emergência climática, profundamente ligadas às circunstâncias do tempo presente, reconhecemos uma surpreendente familiaridade em muitos dos temas que hoje ocupam a centralidade do debate. A valorização da reparação e da adaptação, em detrimento da substituição; a necessidade de projetarmos edifícios mais duráveis e mas flexíveis, que possam acomodar diferentes ocupações ao longo de um extenso período de tempo; a procura de equilíbrios ecológicos entre sistemas naturais e urbanos; ou a necessidade de resgate, e de compatibilização com a indústria, de materiais e modos de fazer ancestrais, surgem frequentemente como respostas contemporâneas para problemas contemporâneos. Mas são, na verdade, preocupações e soluções que acompanham a disciplina da arquitetura, desde que esta se propôs conciliar a produção de pensamento com o engenho da construção.
Durante grande parte da sua história, a arquitetura foi uma prática de adaptação. Os edifícios transformavam-se, sucessivamente, com o reaproveitamento dos seus materiais, possibilitando novas ocupações. As cidades cresciam por acumulação, sobreposição, e as estruturas construídas atravessavam gerações sem que isso implicasse a sua substituição sistemática. A permanência não significava imobilidade e a transformação não pressupunha, necessariamente, a demolição. Neste sentido, muitas das questões que hoje consideramos urgentes não constituem uma rutura com a tradição disciplinar. Pelo contrário, poderão representar uma reaproximação a práticas que acompanharam a arquitetura durante séculos e que apenas num período relativamente breve da sua história se tornaram menos visíveis.
Não se trata de defender um regresso ao passado. A escala da urbanização global, a crise climática, a pressão sobre os recursos, a transformação dos modos de vida e a crescente complexidade dos sistemas urbanos colocam desafios inéditos. De igual modo, dispomos hoje de recursos e tecnologias que nos permitem revisitar, teorizar e reinventar estas práticas.
Foi a partir destas inquietações que surgiu a produção do conjunto de entrevistas reunidas neste dossier. Entre dezembro de 2022 e junho de 2023, os arquitetos Inês Lobo e Miguel Judas desenvolveram, com um grupo de estudantes do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Lisboa (DAU-ISCTE), um exercício de reflexão em torno das questões que identificaram como sendo mais estruturantes e relevantes para o pensamento e prática da arquitetura contemporânea. O trabalho consistiu, antes do mais, na construção de um conjunto de perguntas: a cidade, a relação entre os sistemas ecológicos e urbanos, a habitação, o chão comum, as formas de vida coletiva, a durabilidade e reversibilidade da construção, o binómio tradição e indústria, e a relação entre a disciplina e a sociedade, constituíram os temas escolhidos para estruturar as conversas.
A partir desse guião foram realizadas cinco entrevistas a arquitetos que acumulam, simultaneamente, prática profissional, atividade docente e reflexão crítica sobre a disciplina. Provenientes de diferentes geografias, contextos culturais e percursos geracionais – Tom Emerson, Ricardo Carvalho, Fernando Viegas, João Nunes, Jeremy Till – os entrevistados foram confrontados com o mesmo conjunto de questões, permitindo observar não apenas divergências de opinião, mas também convergências em torno de alguns dos desafios centrais da arquitetura contemporânea.
Através da imagem, e de uma viagem pelo seu arquivo fotográfico, Duarte Belo percorre diferentes geografias e tempos históricos, construindo uma narrativa que atravessa a história e as várias formas da ocupação humana. O seu ensaio lembra-nos que a continuidade temporal, sobre a qual a arquitetura inevitavelmente opera, nunca se manifesta de forma linear. A paisagem revela-se feita de ruturas, sobreposições, acelerações e permanências O continuum da história constrói-se, paradoxalmente, através de múltiplas descontinuidades.
As entrevistas e ensaio que se seguem não procuram construir uma posição comum nem oferecer respostas definitivas. Revelam, pelo contrário, diferentes formas de compreender uma mesma condição histórica. Uma condição marcada pela necessidade de repensar criticamente os instrumentos através dos quais observamos a realidade e pela consciência crescente de que a arquitetura continua a encontrar uma parte importante do seu campo de ação na relação delicada entre aquilo que muda e aquilo que permanece.
Se a arquitetura pode ser entendida como uma disciplina que opera sobre o tempo, talvez o desafio contemporâneo não consista em escolher entre transformação e continuidade, mas em voltar a compreendê-las como partes inseparáveis do mesmo processo.

