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Rogério Taveira

r.taveira@belasartes.ulisboa.pt

Professor Auxiliar da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa

 

Para citação: TAVEIRA, Rogério – Topografias da multiplicidade. Imagem como espaço relacional. Estudo Prévio 27. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, dezembro 2025, p. 96-105. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/27.5

Recebido a 1 de julho de 2025 e aceite para publicação a 7 de julho de 2025.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Topografias da multiplicidade. Imagem como espaço relacional

 

Resumo

 

“As artes só emprestam aos projectos de dominação ou de emancipação aquilo que lhes podem emprestar, ou seja, muito simplesmente, aquilo que têm em comum com eles: posições e movimentos de corpos, funções da palavra, repartições do visível e do invisível.” RANCIÈRE, J. – Estética e política: A partilha do sensível. Porto: Dafne, 2010, p. 20 (publicação original em 2000).

Ao conferir visibilidade à singularidade dos rostos e corpos que compõem o tecido heterogéneo de uma comunidade envolvida num processo de arte pública socialmente engajada[1], o trabalho fotográfico aqui apresentado assume-se como parte integrante da lógica coletiva que estrutura a criação participada, não se colocando em oposição a esta. Pelo contrário, reconhece e afirma essa lógica como matriz política e poética fundamental ao campo de enunciação onde esta série se inscreve. Este conjunto de retratos não se apresenta como documentação externa ou registo distanciado, mas como gesto profundamente imbricado no processo de individuação, que procura reinscrever criticamente o dispositivo fotográfico — historicamente associado a práticas de vigilância, normatização e apropriação — num regime de relação horizontal, eticamente partilhável e politicamente situado.

Importa sublinhar que este gesto não resulta de uma decisão metodológica apriorística nem da aplicação de modelos exteriores. Ele emerge como uma resposta situada, contingente e profundamente enraizada no próprio processo coletivo, particularmente face à desconfiança e tensão suscitadas pela presença dos dispositivos de registo — câmaras fotográficas e de vídeo — que eram legítima e compreensivelmente percecionados como extensões de regimes de controlo, extração e distanciamento. A sua presença reinstalava, mesmo que involuntariamente, dinâmicas hierárquicas que o processo aspirava suspender. Diante desta tensão, revelou-se crucial reinscrever a câmara num espaço de relação ética, concebendo práticas que contrariassem a lógica histórica de apropriação que estrutura o ato fotográfico. Nesse sentido, optou-se por um gesto aparentemente simples, mas profundamente transformador: fotografar cada participante e devolver-lhe, depois de impresso, o seu próprio retrato. Este ato de devolução desloca a prática fotográfica de um regime de apropriação unilateral para um regime de partilha, cuidado e reconhecimento mútuo. Ao afastar a fotografia da sua função instrumental, este regime relacional contribui para um exercício de descolonização do olhar, reinscrevendo o sujeito fotografado como co-agente ativo na construção de um espaço visual sustentado numa responsabilidade recíproca.

Embora esta série dialogue obliquamente com determinadas genealogias do retrato fotográfico — em particular com as práticas de frontalidade e repetição formal —, não se ancora numa tradição visual enquanto fim em si mesma. O dispositivo fotográfico é mobilizado não enquanto instrumento taxonómico nem como tecnologia de ordenação tipológica, mas como resposta a um imperativo ético e político: a necessidade de construir um espaço de relação horizontal e de suspender a suspeita intrínseca ao ato de fotografar. A imagem torna-se, deste modo, um espaço de encontro e intervalo, que abre uma relação entre sujeito e fotógrafo, entre visível e enunciável, entre abertura ao outro e opacidade irreduzível — operando, portanto, no campo político da partilha do sensível.

Delineiam-se assim topografias da multiplicidade: cartografias precárias, desenhadas pela justaposição de singularidades expostas, que recusam a homogeneização simbólica sem abdicar da partilha. O gesto proposto busca abrir um espaço deliberadamente desestabilizado, favorável ao afloramento de outras formas de presença, atenção e escuta que recusam o reconhecimento identitário. O comum, aqui proposto, constrói-se na exposição conjunta da diferença, no confronto contingente e no atrito produtivo daí emergente. O que se propõe, em última instância, é um reposicionamento das fronteiras do visível e das formas possíveis do comum.

A operação fotográfica que sustenta esta proposta não visa capturar ou fixar identidades, mas convocar presenças e sustentar, no plano da imagem, a tensão irreconciliável entre o um e o múltiplo, entre o sensível e a sua partilha. Ao recusar o encerramento do reconhecimento imediato, estas imagens insistem na abertura de um espaço relacional no qual a visibilidade deixa de ser um dado naturalizado para se constituir como construção provisória, habitável e necessariamente partilhada.

Fotografias de Manuel Taveira e Rogério Taveira

[1] O projeto de arte pública Unidos Venceremos, inscrito no âmbito de uma prática socialmente engajada, teve lugar durante o ano de 2024 na localidade alentejana de Canal Caveira, no concelho de Grândola. Desenvolvido por Sérgio Vicente com o envolvimento direto da comunidade local, este processo colaborativo procurou articular práticas de criação artística situada com dispositivos de memória coletiva e participação cidadã, tendo como horizonte simbólico e político a celebração dos cinquenta anos da Revolução de Abril de 1974.

 

Palavras-chave: Retrato fotográfico; Individuação; Multiplicidade; Espaço relacional; Política do sensível

 

LEGENDAS

Figura 1 – Rosa, 2024

Figura 2 – Tomás, 2024

Figura 3 – Fernanda, 2024

Figura 4 – António, 2024

Figura 5 – Deolinda, 2024

Figura 6 – Rita, 2024

Figura 7 – Luís, 2024

Figura 8 – Maria do Céu, 2024

Figura 9 – Manuel, 2024

Figura 10 – Maria Helena, 2024

Figura 11 – Renato, 2024

Figura 12 – Justina, 2024

Figura 13 – Eduardo, 2024

Figura 14 – Graça, 2024

Figura 15 – Maria, 2024

Figura 16 – Rita, 2024

Figura 17 – José Cândido, 2024

Figura 18 – Rúben, 2024

Figura 19 – Ana Maria, 2024

Figura 20 – Cândida, 2024

Figura 21 – Fátima, 2024

Figura 22 – Maria Isabel, 2024

Figura 23 – Graça Paulino, 2024

Figura 24 – Maria Galvão, 2024

Figura 25 – Marta, 2024

Figura 26 – Susana, 2024

Figura 27 – Idalina, 2024

Figura 28 – Filomena, 2024