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Nuno Castro Caldas

nunocastrocaldas@gmail.com

Doutorando em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto | Atelier 17

 

Para citação: CALDAS, Nuno Castro – Torres de Habitação dos Olivais Norte – do debate do moderno às exigências da habitação. Estudo Prévio 17. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da UniversidadeAutónoma de Lisboa, 2020. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: http://hdl.handle.net/11144/4589

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Recebido a 26 de fevereiro de 2020 e aceite para publicação a 8 de junho de 2020.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

O projeto para as torres dos Olivais Norte (1957-1968) é um exemplo raro de crítica programática e social, aliado a um exercício de reflexão sobre algumas das propostas do movimento moderno. É um conjunto de edifícios particularmente revelador do cruzamento das investigações de Nuno Portas, com alguns dos ensaios já feitos pelo seu “mestre” Nuno Teotónio Pereira (Portas, 2004), feito ainda em coautoria com António Pinto de Freitas.

Trata-se de um projeto integrado no plano para a edificação das unidades urbanas dos Olivais Norte e Olivais Sul, coordenado pelo Gabinete Técnico de Habitação (GTH) na dependência direta da Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, em que se construíram cerca de 8000 fogos numa área com mais de 220 hectares. Tirando partindo de uma política de expropriação implementada por Duarte Pacheco que fez da Câmara Municipal proprietária da quase totalidade dos terrenos, este conjunto representou

“um projecto urbano socialmente construído numa teia de relações sociais mediadas por princípios políticos, modelos urbanísticos, regras de alocação de meios financeiros e finalidades sociais” (Nunes, 2007: 20) que se apresentou em“oposição às iniciativas de expansão da cidade edificada de forma oportunista, especulativa, desarticulada e não estudada” (Nunes, 2007: 60).

Inseridas num conjunto habitacional de referências “modernas”, caracterizado pela implantação dispersa de blocos habitacionais, estas torres apresentam uma abordagem mais “organicista”, que convoca para o plano nacional a reflexão que se fazia num contexto internacional.

Depois de propostas mais corbusianas, como aquela feita para o concurso dos blocos de habitação junto à Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa (1951, da autoria de Teotónio Pereira apenas), em que dois blocos se elevavam sobre pilotis, libertando todo o quarteirão para um espaço verde, ou projetos de cariz wrightiano, como a casa Brás de Oliveira (1959-1964, este já com Portas) em que a referência à Hanna House é assumida pelos próprios autores (Portas e Pereira, 1966), as torres dos Olivais Norte evocam algumas leituras de raiz anglófona que vinham já sendo feitas por Nuno Portas durante a década de 1950 e finalmente sintetizadas no seu Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquiteto na Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1959. Dos vários exemplos que recolhe neste trabalho, destaca-se a Keeling House, um conjunto habitacional de 16 pisos que Denys Lasdun desenhou para a zona oriental de Londres, onde um corpo de circulação vertical funciona como rótula de distribuição para quatro corpos autónomos, que se torcem de modo a encontrar uma melhor exposição solar. O facto de ser composto por tipologias em duplex, permite que o núcleo central sirva, ora de espaço de distribuição nos pisos em que o elevador para, ora de espaço comum, lavadouro, estendal, ou espaço para as crianças brincarem nos pisos em que o elevador não para (Portas, 1960).

Figura 1 – Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida, planta da casa Dr. Brás de Oliveira (1959-1964). Fonte: GRANDE, Nuno (ed.). (2012). O Ser Urbano: Nos Caminhos de Nuno Portas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. p.136. ISBN: 978-972-27-2067-0.

Dando continuidade ao pensamento crítico desenvolvido no plano europeu, que dava por terminados os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (último em 1959) e via surgir o Team X, o projeto para as torres dos Olivais Norte representa, acima de tudo, uma exploração de caminhos alternativos às questões levantadas pelo movimento moderno. Referindo-se a estes anos, Nuno Portas (2004: 54) afirma:

“São (…) as obras mais carregadas de intenções (…); que mais interrogam os programas, quer domésticos, quer litúrgicos, quer de vizinhança; que mais procuram referências linguísticas então consideradas heterodoxas, (…) juntando memórias tão díspares como as de F. L. Wright, Raul Lino, ou Cassiano, dos autores do Team X ou dos mestres emergentes que eram Aalto, Louis Kahn ou Scarpa, mas também de mestres obscuros do vernacular alentejano ou saloio, (…) sem esquecer os pioneiros do betão de que nos servíamos de forma cada vez mais explícita.”

Contextualizando as suas investigações no panorama internacional, Nuno Portas (2004: 53) acrescenta ainda:

“Pode dizer-se que também outros autores estrangeiros (…) atravessaram os anos 60 e 70 buscando novos caminhos nem sempre convergentes, enquanto a herança formal modernista, vitoriosa no pós-guerra europeu, se banalizava, perdendo em significação e qualidade ambiental o que ganhava em extensão e visibilidade.”

Figura 2 – Nuno Portas, Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto (1959), mostrando o levantamento da Keeling House de Denys Lasdun.Fonte: GRANDE, Nuno (ed.). (2012). O Ser Urbano: Nos Caminhos de Nuno Portas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. p.174. ISBN: 978-972-27-2067-0.

Como também no projeto de Denys Lasdun para a Keeling House, nas torres dos Olivais Norte o núcleo de acessos verticais assume uma posição central de distribuição para as diferentes tipologias que compõem cada piso e afirma-se como rótula de ligação que articula, não quatro, mas dois corpos independentes. O átrio de acessos assume uma planta trapezoidal, que o torna mais generoso e força a “torção” de um dos corpos de modo a orientar a sua exposição aos quadrantes mais favoráveis. Este movimento permite ainda ganhar o ângulo necessário para garantir que todos os apartamentos têm uma sala com uma varanda a sul. De resto, a importância dos espaços de circulação era, por esta altura, um importante tema de estudo para Nuno Portas:

“Quer se trate de uma escada, destinada ao esforço natural mas sempre significativo (sentimental ou socialmente) dos componentes da família, quer domine o meio mecânico que, por não exigir esse esforço, não deve continuar a ser um ambiente desprezado pelo projectista, a coluna de distribuição é hoje objecto de uma caracterização espacial e até simbólica – psicológica e social – que não deve passar despercebida se se passarem em revistas as melhores soluções” (Portas, 1960: 48).

Referindo-se às obras de Franco Albini em Colognola e Vialba em Milão, Nuno Portas (1960: 48) comenta que “a coluna de acesso adquire o valor simbólico de elo comum às várias famílias, assegurando simultaneamente às entradas dos fogos uma forte independência”, tema que foi particularmente trabalhado no projeto das torres dos Olivais Norte.

A generosidade do espaço de circulação vertical, aliado à colocação de mobiliário fixo, ao tratamento plástico da parede de betão fronteira aos elevadores e à colocação de uma floreira sob o janelão norte, revela que este espaço foi estudado para além da sua função distributiva. Dir-se-ia que foi antes entendido como antecâmara dos apartamentos e foi-lhe dado o conforto de um espaço de estadia e não de passagem. Tratou-se de trazer para um programa de habitação social, a dignidade dos espaços coletivos que, por norma, pautava o desenho de edifícios mais qualificados e que Nuno Teotónio Pereira trazia da sua experiência recente do Bloco das Águas Livres (1953-1956), tentando “estabelecer um horizonte de cidadania a partir do qual a vida pudesse ter lugar. Um horizonte que, no estrito campo disciplinar da arquitectura, ensaiava também alternativas à crispação racionalista do moderno, sacudindo a pressão ideológica, contrapondo-lhe uma ética mais orgânica, mais plural” (Lopes, 2004: 81).

Figura 3 – Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e António Pinto de Freitas, planta tipo das torres dos Olivais Norte (1957-1968). Fonte: TOSTÕES, Ana (ed.) – Arquitectura e Cidadania Atelier Nuno Teotónio Pereira. 1ª ed. Lisboa: Quimera. p. 169. ISBN: 972-589-127-9.

A importância do sentimento de coletividade é também expressa no último piso, em que um espaço comum parcialmente coberto dá acesso a estendais e arrecadações privativas, fomentando relações de vizinhança num lugar com amplas vistas sobre o rio.

A “torção” acima referida, reflete-se também no interior dos apartamentos, onde um espaço de chegada e distribuição, também de planta trapezoidal, organiza e separa os espaços públicos e privados da casa. Tirando partido de um desenho de mobiliário cuidado, como é exemplo o passa-pratos entre sala e cozinha, os espaços, ainda que de dimensões mínimas, são muito bem aproveitados e gozam, à exceção das casas de banho, de vistas desafogadas. Neste caso, foram particularmente relevantes os estudos sobre as “Funções e Exigências de Áreas de Habitação” que Nuno Portas desenvolvia em paralelo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil e que viriam a ser publicados em 1969.

É também de referir o cuidado empregue ao nível do isolamento térmico e acústico, pouco característico neste tipo de habitações, tanto nas paredes exteriores de modo a minimizar perdas térmicas, como no pavimento dos quartos e salas feito com soalho pregado em barrotes de modo a reduzir o impacto acústico entre pisos.

Figura 4 – Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e António Pinto de Freitas, planta tipo das torres dos Olivais Norte (1957-1968). Fonte: TOSTÕES, Ana (ed.) – Arquitectura e Cidadania Atelier Nuno Teotónio Pereira. 1ª ed. Lisboa: Quimera. p. 171. ISBN: 972-589-127-9.

A qualidade desta obra levou a que lhe fosse atribuído o prémio Valmor em 1967, tornando-se no primeiro edifício de carácter social a receber esta distinção, reconhecimento que os arquitetos explicaram com a sua tentativa de “dar certa dignidade ao ambiente das construções económicas, quer pela largueza dos espaços de acesso quer pelo tratamento artístico” (Tostões, 2004: 29) e foi recebida com satisfação pelos moradores que o expressaram nos inquéritos Fogo-Família Olivais Norte conduzidos pelo GTH em 1964 (Nunes, 2007: 146).

 

Bibliografia

GRANDE, Nuno – (2012). Um ser Urbano no Labirinto dos Espelhos. GRANDE, Nuno (ed.) – O Ser Urbano: Nos Caminhos de Nuno Portas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012, p. 87-107. ISBN: 978-972-27-2067-0

LOPES, Diogo Seixas – Verdes Anos, anos de chumbo. TOSTÕES, Ana (ed.) – Arquitectura e Cidadania Atelier Nuno Teotónio Pereira. 1ª ed. Lisboa: Quimera, 2004. ISBN: 972-589-127-9. p. 81-85.

NUNES, João Pedro Silva – À Escala Humana. Planeamento Urbano e Arquitectura de Habitação em Olivais Sul (Lisboa, 1959-1969). Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2007. ISBN: 978-972-8543-08-2.

PORTAS, Nuno – Considerações sobre o Organismo Distributivo das Habitações. Arquitectura. nº 69, 1960, p. 48-52.

PORTAS, Nuno – Funções e Exigências de Áreas de Habitação. Lisboa: Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 1969.

PORTAS, Nuno – Atelier Nuno Teotónio Pereira. Um testemunho, também pessoal. Anos de 1957 a 1974. TOSTÕES, Ana (ed.) – Arquitectura e Cidadania Atelier Nuno Teotónio Pereira. 1ª ed. Lisboa: Quimera, 2004, p. 51-57. ISBN: 972-589-127-9

PORTAS, Nuno; PEREIRA, Nuno Teotónio – Habitação em Sesimbra. Arquitectura. nº 93, 1966, p. 114-119.

TOSTÕES, Ana – Obra aberta: entre experimentalismo e contexto, um sentido de escola. TOSTÕES, Ana (ed.) – Arquitectura e Cidadania Atelier Nuno Teotónio Pereira. 1ª ed. Lisboa: Quimera, 2004, p. 21-41. ISBN: 972-589-127-9

 

 

Biografia

Nuno Castro Caldas é arquiteto, com mestrado pela Universidade Autónoma de Lisboa (2010) com a dissertação “100 Possibilidades de Habitar em Lisboa: Reabitar a Baixa”. Depois de ter trabalhado com João Luís Carrilho da Graça em Lisboa (2010, 2011 e 2013), Cecília Puga em Santiago (2012) e Witherford Watson Mann em Londres (2014-2017) cofundou em 2017 o Atelier 17. É doutorando da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.