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José Manuel Fernandes

jmfernandesarq@yahoo.com

Professor Catedrático Aposentado da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, Portugal

 

Para citação: FERNANDES, José Manuel – Nova Oeiras – o Plano do Bairro Residencial. Estudo Prévio 18. Lisboa: CEACT/UAL – Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2020, p. 57-59. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/18.6

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Recensão recebida a 15 de dezembro de 2021 e aceite para publicação a 22 de dezembro de 2021.
Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

O chamado “Plano de Urbanização da Unidade Residencial de Nova Oeiras”, foi desenvolvido e acompanhado pelo arquiteto Luís Cristino da Silva (1896-1976) de forma continuada por 20 anos, entre 1953 e 1974 – em conjunto com o arquiteto Pedro Falcão e Cunha, na arquitetura, e com o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles (1922-2020) na paisagística.

De modo contrário ao do plano do Areeiro, também por Cristino, Nova Oeiras tem constituído um dos planos residenciais ur­banos menos conhecidos em Portugal, sendo porém um dos mais bem sucedidos e qualificados, dentro do espírito da Carta de Atenas (1933) revista pela arquitetura moderna do pós-guerra, e com a originalidade de ter também agregados e expressos no seu desenho e tecido construído os conceitos da Cidade Jardim (1898, por Ebenezer Howard, e da Unidade de Vizinhança (por Clarence Perry, dos anos 1920).

Nova Oeiras pode ombrear plenamente com o seu contemporâneo lisboeta, o Plano de Olivais-Norte (de 1955, por Pedro Falcão e Cunha), e tem ainda muitas outras dimensões e complexidades, como as áreas extensas das moradias unifamiliares, e a definição de um centro de comunidade (o atual ”Átrio Comercial”) articulado com uma ampla envolvente estruturada – além da qualidade agregadora  de um plano paisagístico de áreas verdes muito equilibrado e integrador. O plano de Nova Oeiras contém, portanto em si os valores triplos de um paisagismo inovador, de um urbanismo moderno e de uma arquitetura que inclui dimensões tipológicas a um tempo mais tradicionais (a arquitetura do “Português Suave”, em algumas moradias) e mais contemporâneas (nos blocos e torres, mas também em outras moradias), o que é também decorrente de ter sido edificado ao longo de 3 décadas, sensivelmente entre 1955 e 1971.

Cristino comentava assim o tema do urbanismo moderno da época: “A Carta de Atenas chegou à conclusão de que se devia viver conjugando as necessidades funcionais com a vida salutar do campo. De maneira que trazendo o campo à cidade, através de amplos espaços verdes onde se vivia em blocos, grandes e espaçosos, sempre dando uma proporção de ar, de higiene, para que se pudesse viver ao sol, que Corbusier tanto amava.” (LCS, entrevista, 1971, in revista Arquitectura).

Do que se conhece (confirmado pelo testemunho de Gonçalo Ribeiro Telles, in Luís Cristino da Silva…, catálogo de exposição, FCG, 1998), Cristino “apadrinhou” o plano de Nova Oeiras, deu-lhe o prestígio do seu nome, nele terá por certo tido marcante intervenção, e acompanhou-o; mas a “conceção genética” do conjunto e sua arquitetura deve-se também ao então jovem Pedro Falcão e Cunha (ex-aluno de Cristino), chamado pelo mestre para, com o paisagista Ribeiro Telles, servir a um cliente mais esclarecido que aceitava construir um conjunto suburbano nitidamente moderno, sem concessões passadistas, quer de desenho quer de implantação, ao urbanismo tradicional ou à arquitetura regionalista. Louve-se assim a clarividência de mestre Cristino, que soube chamar os personagens certos para executar a obra.

Nova Oeiras, com a sua baixa densidade de ocupação (hoje quase “luxuosa”); com a sua conceção de amplos espaços verdes en­volventes; com a hábil e inteligente gradação entre o modelo da “cidade-jardim” feito de moradias, que a envolve em extensão, e a “grande escala” das suas por­tentosas torres centrais; finalmente, com a organicidade funcional (do tipo “unidade de vizinhança”) expressa no núcleo do “centro comercial”, articulado com blocos em banda, torres e equipamentos, – constitui sem dúvida, no todo, um “opus final”, forte e visionário, digno da carreira de Cristino da Silva.

O anteplano do conjunto residencial (“da Quinta Grande em Oeiras, propriedade da Sociedade Nova Oeiras Limitada”), assinado por Cristino da Silva e Falcão e Cunha, foi executado em 1953 (como “Plano da Unidade Residencial de Nova Oeiras”) e aprovado em 1954; terá sido edificado no seu essencial, muito provavelmente entre 1958 e 1969. De 1960 conhece-se um “Plano de Localização” do conjunto, que em pouco difere do anteplano, a não ser no desenho mais regular do “centro comercial” e no diferente sistema de caminhos pedonais (estes com desenho definitivo em 1961). O plano foi finalmente alterado/acrescentado, em 1962 (ano de que se conhece o já definitivo “Plano de Urbanização Residencial de Nova Oeiras”), com inclusão de mais 3 torres e, depois, da previsão da torre maior de 20 pisos, que nunca se concretizou (1968-74). Teve depois várias pequenas alterações, nas décadas seguintes, que mesmo assim não lhe alteraram o espírito fundamental e inicial (um clube de ténis nos anos 1980, alguns ajardinamentos fora do espírito paisagístico do projeto de Telles, nos anos 1990).

Conhecem-se em Nova Oeiras vários exemplos dentro do conjunto dos projetos de arquitetura de habitação plurifamiliar. Possivelmente já ex­ecutados apenas por Falcão e Cunha, os projetos dos blocos estão datados de 1958 a 1961; mas a conceção, tripartida em planta, das seis torres de dez pisos (cuja autoria não está identificada), erigidas ao longo da década de 1960, evoca-nos algo da planta-tipo da torre do Areeiro, também de base triangular – mais a mais se olharmos a grelhas respetivas, em longa faixa vertical, das escadas traseiras, ou a sua espaçosa e luminosa “bomba” de escada central interna (a recordar a da torre do Areeiro). E recordo ainda, na entrevista que fiz como estudante a mestre Cristino em 1972, a maqueta desta mesma torre, colocada em lugar de evidência, no seu “atelier” na Avenida Pedro Álvares Cabral em Lisboa.  Á ideia de torre, de resto, voltará Cristino em Nova Oeiras, quando faz uma série de esquissos para implantação da referida “torre de remate monumental” no topo noroeste do conjunto, com 20 pisos. Mas não seria também movido pelo desejo de se apropriar finalmente, pela via da monumentalização e da macro escala, de um projeto global que nunca sen­tiu como completamente “seu”?

O plano de Nova Oeiras foi dotado de um excelente projeto paisagístico (por Gonçalo Ribeiro Telles e Edgar Sampaio Fontes), com forte carga arborizada e arbustiva, cuidadosamente própria da flora mediterrânica e do sul da Europa, que incluía inovadores “estudos de vento” e detalhadas “mixed borders” – e cuja resultante real ainda hoje sobrevive em grande parte. Nova Oeiras aguentou para além disso alterações sucessivas de pormenor (que nunca puseram em causa o conjunto) e completamentos recentes (por vezes sem grande qualidade arquitetónica). É uma obra experimentalista, inovadora, agregadora e potente, sólida, plena de ensinamentos.

© José Manuel Fernandes – Vista aérea, 2007.