FILIPA RAMALHETE . NÃO-LUGARES, de Marc Augé

Não-Lugares – introdução a uma antropologia da sobremodernidade de Marc Augé
 

 
Editado pela primeira vez em 1992, Não-lugares, para uma introdução da antropologia da sobremodernidade  é provavelmente a obra mais divulgada de Marc Augé. Traduzido para diversas línguas (em Portugal foi editado pela primeira vez em 1994) e várias vezes reeditado, teve um forte impacto não só na Antropologia, mas também noutras áreas disciplinares que estudam o espaço e nele intervêm, como é o caso da arquitetura, ao ponto de o conceito se ter popularizado e ganho contornos lexicais, porventura já afastados da proposta inicial de Augé.
 

Em Não-lugares o autor parte da constatação de que, no final do século XX, os cientistas sociais se encontravam perante novas realidades espaciais que embora pudessem ser analisadas pelas tradicionais metodologias de investigação antropológica, careciam de novas ferramentas conceptuais e categorias analíticas que melhor pudessem responder à complexidade dos espaços contemporâneos.
 

A Antropologia dedicava-se essencialmente à investigação sobre lugares antropológicos, entendidos como suporte da matriz espacial das comunidades e das suas relações identitárias, espaços de representação cujos significados são partilhados pelos indivíduos que neles residem e interagem, através dos tempos. Assim, segundo Augé, um lugar antropológico congrega (embora possa concretizá-lo em graus diferentes) as seguintes características: ser identitário, relacional e histórico.
 

As alterações vividas ao longo do século XX nas áreas urbanas são fruto de uma sobremodernidade (surmodernité) que mudou substancialmente as próprias cidades e a vida social dos seus habitantes, potenciando a existência de lugares que não são passíveis de ser analisados como lugares antropológicos.
 

A utilização do termo sobremodernidade não pretende avançar na discussão sobre o fim da modernidade e o surgimento da condição pós-moderna (tal como a Jean François Lyotard e Jean Baudrillard a definiram, que teve origem na década de oitenta do século XX), mas antes, chamar a atenção para uma condição da modernidade. Segundo Augé, a sobremodernidade produz figuras de excesso: superabundância de tempo e de acontecimentos que aumentam o leque de eventos que poderão ser estudados pelos cientistas sociais; superabundância de espaço potenciada pela omnipresença de eventos trazidos pela comunicação social; individualização de referências resultantes da interpretação que cada indivíduo faz continuamente a partir das informações de que dispõe.
 

Estas figuras de excesso estão intrinsecamente ligadas à produção de não-lugares, ou de espaços que não cumprem (em graus diversos) as características do lugar antropológico e, portanto, não são identitários, relacionais ou históricos. Como exemplo de não-lugares Augé refere aeroportos ou autoestradas, espaços de trânsito, idênticos em todos os lugares. No entanto, chama a atenção para a inter-relação entre lugares e não-lugares, referindo como os segundos estão frequentemente sobrecarregados de referências aos primeiros, como, por exemplo, o apelo à visita de cidades históricas em grandes placards à beira de autoestrada.
 

Em três capítulos, prólogo e epílogo (onde Augé nos remete para experiências que todos já vivenciámos de não-lugares), o autor fornece um contributo importante para a teoria da Antropologia do Espaço contemporânea, criando um elo analítico entre esta disciplina e outras que trabalham o território através do fornecimento de um conceito operativo essencial para a leitura do espaço contemporâneo.
 


Filipa Ramalhete

AUGÉ, Marc (2006) [1992], Não-Lugares – introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Editora 90º, Lisboa