MANUEL VICENTE . ensino e prática . 2ªparte

Esse capital cultural profundo de que fala. Acha que é ainda hoje um verdadeiro capital? Uma mais-valia para os nossos arquitetos recém-formados? Muitos deles vão trabalhar noutros países.

 

Eu acho que o cosmopolitismo é uma coisa muito importante, e acho a minha maneira de ser bastante cosmopolita.

Eu acho os brasileiros profundamente cultos, eles chegam aqui e ninguém lhes tira o samba, e a feijoada. O brasileiro está seguro de si em muitos aspetos: pode não ter dinheiro, mas não é um pobre diabo. Tem essas grandes raízes culturais, da comida, da música, do ritmo, do modo de estar, do fascínio, do ser capaz de olhar à volta, de se fascinar com os ruídos, com os sons, com os sabores… Mas acho que quem vai vazio, não só tem pouco para dar, como também se coloca numa posição de grande fragilidade face ao outro, saem sem riqueza nenhuma, estão destinados a ser servos. Quem não diz o que quer, faz o que não quer, faz o que os outros querem. É nesse sentido que eu acho que não se pode mandar as pessoas para a vida tão pouco guarnecidas, com tão pouco capital. Mas, por outro lado, tenho ideia, de colegas vossos que foram para o estrangeiro, e coisas que aparentemente aqui pareciam esquecidas são relembradas, e que têm lá dentro deles uma acumulação maior do que se possa supor.

 

E qual é o papel do professor?

 

Eu, como professor, interessa-me muito mais que os alunos descubram aquilo que não sabiam que sabiam. Os exemplos que normalmente damos são para os levar a buscar memórias que eles não sabiam que tinham, intuições, razões pelas quais se sentem bem e não sabem explicar porquê, porque é que chegam a um café e escolhem ir para aquele canto em vez de ir para o outro. Porque é que é um dado adquirido? E valorizar esse adquirido, trazê-lo ao de cima, como na psicanálise, trazer o não dito para a área do dito, ter nomes para aquilo que se sabe, estabelecer conexões que se intuíam mas que se tinha medo de dizer.

Eu acho que era importante que as pessoas saíssem da universidade seguras, não tanto seguras da sua competência técnica, mas seguras da sua humanidade, da sua capacidade, para fazer janelas, sejam eles os caixilhos como forem. Qualquer dos alunos, quando apresenta o projeto final, apresenta a partir de dentro, conta a história de dentro: “…eu subo a escada, e tenho esta janela em frente…” - e percebe-se a invenção de um habitar, que não é invenção de um objeto, não é um exemplo de design, é um exemplo de invenção de espaços com formas, convidativos a um estar confortável, mas com o conforto do corpo e da mente. Uma pessoa tem prazer, às vezes até pode estar numa cadeira um bocadinho dura, mas está tão quentinho, o sol entra de uma maneira tão boa e começamos a conversar… O Kahn dizia isso… É mais importante saber o que “é”, do que o “como”, porque o “como” vai-se encontrando no “fazendo”.

Pode não dar muito jeito à indústria que uma pessoa não saiba exatamente como se fazem as coisas, mas é muito mais importante para a vida saber o que é que se quer fazer, porque o “como” está em todo o lado! Abre-se o computador, vai-se à internet, vai-se ao Google e está lá como é que se prega isto, e como se faz aquilo. Eu acho que as coisas são para as pessoas e não as pessoas para as coisas, e que por muito complexo que possa parecer uma coisa, construir uma arquitetura qualquer não tem nem metade da complexidade que tem construir um foguetão para ir à Lua, ou um submarino atómico.

Sabemos perfeitamente como é que a vida aparece, a pouco e pouco, depois há umas moléculas que se multiplicam, há umas que se atraem por ter carga negativa e outras positiva, e depois começam a criar coisas mais complexas, e acabam por chegar ao pensamento e à inteligência humana…. E a gente tem que perceber que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma e que não dá para cruzar os braços e desistir.

Quer dizer, embora neste momento as prioridades de investimento da inteligência e dos recursos sejam muito desviadas para uma visão de lucro do capital, do rendimento – as finanças tomaram prioridade sobre a economia, não há o pensamento económico, há o pensamento financeiro – e portanto uma grande parte dos recursos da humanidade estão investidos em coisas que não têm a ver com a vida, que não servem para o progresso da vida. Quer dizer, há remédios que não são fabricados para África porque não vale a pena, não há mercado que compense a produção dos remédios, e portanto vivemos num mundo com as prioridades muito pervertidas, pela implacável lógica do rendimento do capital…

Eu lembro-me muito bem, no meu tempo, das pessoas dizerem assim: “Como é que o Alfredo da Silva enriqueceu?, Olha, foi a emprestar a viúvas juros elevadíssimos…!”, portanto, no meu tempo, no tempo dos meus pais, o usurário, o tipo da casa de penhores, era socialmente muito desqualificado e ninguém respeitava a pessoa que tinha enriquecido através desse tipo de manobras e negócios, e de emprestar dinheiro a juros, e tirar rendimentos e receber rendas. Eram sempre coisas que não eram bem vistas…” Então mas ele comprava aquilo por cinco tostões e vendia por 25 contos? Então mas isso não é esquisito?” Portanto, esta legitimidade, esta arrogância, esta prepotência dos direitos do capital é uma coisa relativamente nova, recente … Sei que tenho 76 anos, mas lembro-me perfeitamente que o capital não era considerado como é hoje, uma pessoa desconfiava dos ricos socialmente, mas não era só a fidalguia que vivia da exploração dos camponeses, desconfiava do dinheiro fresco, e mesmo as pessoas que viviam do seu trabalho ou da sua indústria também tinham grandes desconfianças do dinheiro fresco, também havia muita corrupção no anterior regime, agora “democratizou-se” a corrupção, dantes era mais seletiva…

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Pensando nessa globalidade problemática atual – com o capital a ser posto à frente de tudo – que perspetiva é que tem sobre a potencialidade da arquitetura, ou seja, que mais-valias pode a arquitetura que se faz hoje, ou que se poderá vir a fazer, contribuir para continuarmos a evoluir, para o mundo não estagnar e ficar a olhar para o passado?

 

Eu sou otimista por feitio e sou otimista por princípio, por ideologia.

O Almada Negreiros, o pintor, uma vez perguntaram-lhe se ele era pessimista ou otimista, e ele disse que não era uma coisa nem outra, porque entre ele e a vida não havia qualquer mal-entendido. Acho uma resposta bastante bonita, nunca me esqueci. Tenho esperança, acho que tudo acaba sempre por se resolver. A curto prazo, se calhar vai ser muito difícil, toda a situação pode vir a ser muito trágica, mas isso tem muito mais importância para vocês do que para uma pessoa que já está de saída…

Mas, em termos da arquitetura, isso que referes da boa vontade, das arquiteturas de terra, de voltar ao passado, eu penso que, apesar de tudo, ainda existe um modo de produção e um aparelho industrial suficientemente importante e poderoso na sua dimensão, nas capacidades e competências, e não é plausível que se volte ao adobe e à palha. Penso que seria verdade no caso de um Hecatombe, com os sistemas podem falhar todos, basta falhar a eletricidade para ficarmos às escuras, amplamente às escuras, da informação, da luz, para comer… Teríamos de voltar a descobrir uma quantidade de coisas que nem sequer temos memória. Mas em cenários menos catastróficos, eu penso que a arquitetura faz falta às pessoas e que precisamos de um sítio para estar bem, confortáveis, para estar com os outros e connosco.

Os jazigos de família são casas para o estar, não são casas para o ser. E eu penso que a felicidade, o bem-ser mais do que o bem-estar – que é difícil ser bem-ser sem bem-estar – que essa harmonia entre o ser e o estar, são realmente o epítome de felicidade. Seja dentro ou fora de casa, no alto da montanha, na praia, seja onde for, até os Alemães, quando chega o verão vão todos para o mediterrâneo, é muito difícil viver sem ter esses momentos de prazer, de calma, de esplendor, e a casa do Homem não é só uma casa de conveniência, é a Casa do Homem, é um lato senso…

Nós aqui estamos a habitar este estúdio, o escritório, a fábrica, o hospital, portanto, o habitar do Homem, é suposto ele estar protegido das inclemências da Natureza, portanto esse resguardo também é preciso, é preciso ter os seus sítios recatados, onde se descansa, dorme. Ter os seus sítios de relação com exterior, ter os sítios de relação consigo mesmo, e não é a ciência da construção que resolve os problemas da habitação do Ser… Como digo, não há arquitetura sem construção, mas há muita construção sem arquitetura, mas por outro lado, quando a construção se confunde com o negócio da imobiliária, quando a imobiliária vai buscar à decoração uma espécie de enfeites para tapar a nudez e a completa inanidade daquilo que propõem para as pessoas habitarem, se calhar está-se num círculo perverso que só se pode acabar na destruição. Quer dizer, eu queria tirar à arquitetura aquela noção de que “…Ah! Se eu tiver dinheiro ainda chamo um arquiteto!”, queria tornar a arquitetura uma coisa mais vital, queria que as pessoas tivessem a consciência de que é preciso ter qualidade no habitar, como é preciso ter qualidade no comer.

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Penso que a espécie humana não se preocupa com a produção do prazer, com a produção do conforto amplo. Digo muitas vezes, feliz de quem faz o que gosta, porque não precisa de gastar dinheiro em uísque! Como dizia a mãe do João Santa- Rita, "Mas tu não vês que a praia dos arquitetos é o ateliê?" Realmente era verdade, trabalhar naquilo que se gosta é um prazer muito grande, quando a produção toma um avanço sobre o prazer de produzir, quando a necessidade (esta também é do Kahn), quando a necessidade apaga o desejo, quando uma pessoa só faz coisas para ter de receber um ordenado, e precisa do ordenado para pagar as prestações do carro, e a mulher chateia-o porque o vizinho já comprou um carro melhor que o deles, e não tem uísque escocês, tem uísque berbere…. As prioridades estão muito invertidas. Penso que a escravatura nos nossos dias, embora menos aparatosa e menos espetacular é bem mais dura e mais pesada do que alguma vez foi, somos uns consumidores forçados. Mesmo o prazer também já é produzido fora de nós e já nos é vendido e tudo vive em obsolescência. As coisas que eram porreiras há dois anos já não são agora, e eu acho tudo isso muito grave, muito mais problemático que o CO2, ou o petróleo ou o desenvolvimento não sustentável, faz muito mais impressão a vida desqualificada. Perdeu-se qualquer espécie de relação com o Humano, com a Humanidade, por isto é que eu prefiro falar do prazer, do gosto, do bem-estar e do bem-ser, de uma pessoa sentir-se cheio e contente!

Uma pessoa que tem o escritório todo desarrumado diz assim: “Olha, hoje arrumei tudo, pus tudo na gaveta, os livros nas estantes… que bem que me sinto!”, Mas é difícil que um operário ao sair da fábrica de uma cadeia de montagens se sinta muito bem, tem que beber uns copos, tem que fazer umas coisas estúpidas, tem que ir para o ginásio… A gente passa a vida a fazer coisas para se esquecer de tudo o que fez, em vez de passar a vida a fazer esforços para encontrar o prazer e a felicidade e esse bem-estar, esse bem-ser, esse estar em paz.

Não é preciso sair todas as noites, nem ir dançar, nem fazer nada, basta estar, ser bom, estar em paz, não estar completamente roído de problemas: “… Amanhã vai ser uma chatice, e a estrada está cheia, e o metro avariou, e tenho de ir meia hora antes senão perco o autocarro…”. Uma pessoa não pode viver neste stress todo. Também não tenho que morar num lado (da cidade) e trabalhar no outro. Se calhar as cidades não deviam ser tão especializadas. Um tipo devia poder trabalhar ali a dois passos de onde mora. Todo esse sonho de cidade, sem automóveis, que eu não partilho, tudo isso seria verdade se as pessoas conseguirem fazer deslocações curtas. Agora, se uma pessoa mora em Oeiras e trabalha em Setúbal, é muito difícil, não faz qualquer sentido. E depois, se vem a crise, aumentam os preços dos transportes, ainda faz menos sentido, e se perde o emprego ainda faz menos sentido…

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Não se pode viver desta maneira, quer dizer, é horrível, e essa é uma das minhas esperanças. É que a certa altura as pessoas digam assim: “ Não aguento mais! Assim não! Não posso!”. Não interessa nada ter programa, as pessoas, bem pensando, irritam-se muito com esses movimentos que há agora da ocupação e das arruadas, “Porque não tem programa, porque não tem projeto…”, eu acho que é muito mais vital do que isso, acho que as pessoas têm que dizer que basta, chega, como os versos do José Régio: “…Não sei por onde vou, mas sei que por aí não vou…”. E eu acho que isto é um direito de cidadania, um direito da pessoa, quando as pessoas conseguirem realmente dizer assim: -“Mas eu não quero ir por aí!”, -“Mas então morres de fome!”, -“Então morro de fome, que se lixe!”. Mais vale morrer de fome do que morrer de indignidade. E nesse sentido eu penso que a arquitetura faz muito parte das necessidades vitais das pessoas, sempre se fez arquitetura, sempre se celebrou a habitação. Até nas grutas, eles pintavam, iam registando as suas memórias… Era aquilo que lhes dava prazer na pintura rupestre, a pintura rupestre é uma manifestação da alma, da alegria do homem no trabalho! Como dizia Ruskin, uma pessoa tem que ter alegria no trabalho, muitas vezes estamos nos ateliês, estamos a resolver um projeto, e há uma altura em que um tipo faz uma coisa de que gosta tanto – pelo menos nos ateliês que eu frequentava - “Epá anda cá, venham cá todos ver isto, isto não é bestial?!”, um tipo tem que contar, tem que mostrar, tem que haver essas explosões de alegria. 

Cada pessoa é cada pessoa e tem de criar as suas próprias oportunidades, eu durante muito tempo dizia que se não tivesse tirado um curso superior, uma das coisas que não me importava de ser era chofer ou pedreiro. Acho que deve ser porreiro uma pessoa estar numa obra e vai pondo os tijolos e vê a parede a crescer. E chofer, porque eu gosto muito de automóveis, gosto de andar de carro, sou um viajante, gosto muito do espetáculo, divirto-me imenso a andar de automóvel, seja eu a guiar ou não, gosto de ver o mundo a deslizar por mim, e escolher os meus pontos de vista. Um arquiteto pode ser chofer, pode ser pedreiro, pode ser o que quiser, desde que seja feliz. Espero que possa ser arquiteto, mas a prática da profissão pode ser feita de uma forma tão alienante e tão alienada, numa grande empresa de imobiliária – que precisa dos arquitetos para ajudar a dourar a pilula daquelas porcarias que eles querem vender e que o marketing estudou e diz que tem que ser assim – eu também não sei se a certa altura, se tivesse que ser arquiteto nessas condições, se não preferia ser pedreiro.

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Embora seja otimista, penso que neste momento não há uma resposta, só se se conseguir ir trabalhar para países em desenvolvimento, penso que aí pode ser muito gratificante. Há lá prazer maior do que ver uma coisa a crescer e a construir-se, a tomar forma. Isto é a felicidade! Como quando o Miguel Ângelo acabou de esculpir uma das suas estátuas famosas e atirou com o martelo à estátua, acho que ainda está lá a marca do martelo, e disse “FALA!” Uma pessoa de repente aproxima-se muito do sublime, transforma a matéria bruta, faz significar o insignificado, põe pedra sobre pedra, constrói, faz de facto significar as coisas. Como quando o Lévi-Strauss conta nos “Tristes Trópicos”, na América do Sul, que um feiticeiro identificou 150 diferentes ervas, onde ele só via erva. Esse esforço de nomeação do não nomeado… Está tudo por nomear, ainda há muita coisa por nomear, esse prazer de ir organizando o mundo à nossa imagem e semelhança.

Uma pessoa pode ser agnóstica ou não, mas entre nós, tem sempre uma formação católica, em que, de facto, fomos criados à imagem e à semelhança de Deus, e há sempre essa vontade de continuar esse gesto da criação, de organizar as coisas de modo a que a gente se possa reconheçer nelas. Podemos voltar a encontrar o ritmo que convém, mesmo que seja à escala dos planetas, podemos ir passar o verão a Marte e o inverno à Lua, tanto faz! Ir ao Algarve ou ir a Marte, é circunstancial, um homem precisa sempre é de se sentir bem, onde quer que vá!

 

ver todas as fotografias em: http://bit.ly/Kq3LsG e em http://bit.ly/J99JOq - by João Carmo Simões