MANUEL VICENTE ensino e prática . 1ªparte

 É com enorme prazer, que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor Manuel Vicente. Seja bem-vindo!

 

Muito obrigado, o prazer é meu também.

 

Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico como aluno, se teve professores marcantes e como era o curso de arquitetura na sua altura.

 

Já lá vão mais de 50 anos. Devo ter entrado para Belas Artes em 53 ou 54, não me lembro bem.

Eu sempre andei em colégios, morávamos na Parede, portanto andei sempre na Parede. Tinha problemas de mobilidade e os meus pais tinham medo que eu me metesse no comboio. Havia colégios melhores no Estoril, mas como aquele era ali ao pé de casa, fiquei lá. É um colégio que não tem história e eu acho que a primeira vez que senti prazer de estar como estudante foi, de facto, nas Belas Artes.

Nas Belas Artes gostava de lá estar, gostava do que fazia. Gostava não só do ambiente, mas também dos trabalhos que nos eram propostos. Era uma escola onde não tínhamos respeito nenhum pelos professores que lá havia. Naquela geração do pós-guerra, o conflito com os professores era uma espécie de cultura da escola. Havia professores de que não se podia gostar de maneira nenhuma…

Havia o Luís Alexandre Cunha, acho que com ele aprendi coisas de que ainda hoje me lembro, não eram coisas concretas, nem coisas necessariamente disciplinares, eram maneiras de olhar o mundo, e preocupações divertidas. A primeira coisa que fazíamos era forrar os estiradores com papel, ele (Cunha) queria muito que tivéssemos a medida, que a medida fosse uma sensibilidade, não necessariamente a fita métrica, e dizia: “Dobra o papel, agora vira o papel, já tem a medida nos dedos! Faça outra dobra e não precisa de ir ver quanto é que tem a dobra…se tem 2 centímetros ou não.”. Depois tínhamos que fazer a cola, lá púnhamos a cola e lá esticávamos o papel, e depois molhávamos aquilo numa grande esponja, ficava tudo encharcado, e esticávamos, esticávamos e depois quando aquilo secava ficava uma prancheta impecável, tudo forrado com papel de cenário! E isso era na aula dele, digamos que se aprendia, essa prática que tínhamos, era na aula dele: forrar os estiradores. Há anos que eu não uso estiradores forrados, mas acho que ainda era capaz de forrar um. Depois ao longo do tempo do curso, geralmente os trabalhos eram apresentados em painéis, portanto tínhamos que repetir essa cerimónia de colar os papéis numas grades, mas era sempre essa técnica que tínhamos aprendido no primeiro ano.

Também havia o Cristino da Silva que era um homem por quem na altura também tínhamos muito pouca estima e consideração. Ele tinha feito o Capitólio, mas naquela altura não sabíamos, tinha feito o Cinearte, ali em Santos. Era um homem que tinha começado com uma aproximação, digamos, modernista, ao desenho e ao projeto de arquitetura. O programa dos exercícios dele era sempre numa grande zona livre, nos arrabaldes de uma grande cidade. Era um homem que queria que as pessoas começassem de novo, com liberdade, sem constrangimentos. Quando fiz a minha tese, estava a fazer uma moradia para uns cunhados, e falei das necessidades, do dinheiro que eles tinham, que era uma família jovem, tinham dois filhos pequenos…e ele disse “Meus senhores, vêm para aqui, esta é a vossa última oportunidade de sonhar, e porque é que você vem com esse constrangimento todo? Ó homem! Faça uma coisa como gosta, não se preocupe!”. Ele tinha uma certa aversão aos constrangimentos e dizia: “Então mas como é que você imagina? Você agora vai sair daqui com o seu diploma, mas nunca mais vai ter liberdade para imaginar, aproveite!”.

Ele era este tipo de professor, mas que tinha de facto uma relação formal, eu penso que ele gostaria que não fosse tão formal, mas a sociedade lisboeta dessa altura não era muito de facilitar um diálogo intergeracional. O professor era um professor, não dava confiança ao aluno. Depois dizia umas graças, mas o aluno não tinha que responder, era sempre uma relação distante.

Mas ele tinha um assistente de que gostávamos imenso, o Alberto José Pessoa. O Alberto Pessoa é o homem que fez aqueles blocos da Avenida Infante Santo. Ele tinha uma sociedade com o João Abel Manta e com o Gandra, fizeram aquele projeto em conjunto. Eu acho que o grande mentor daquele projeto era ele. Nós gostávamos imenso do Alberto Pessoa, que vinha do grupo do Keil do Amaral, todos com um sentido de humor muito próprio. Ele fazia as coisas com ar muito sério, lembro-me de um projeto que tinha uma escada de caracol, e ele foi assim com o lápis e disse: “ Depois há um fogo e vêm os bombeiros, começam a descer a escada com a mangueira, tropeçam e … morrem!” São pequenas histórias…uma colega nossa que não primava pelo brilho nem pela inteligência, coitadinha, a certa altura tinha umas casas de banho muito extravagantes, e ele disse: “Eu não estou a ver onde é que a senhora vai arrumar as louças na casa de banho?” e ela disse: “Ó mestre, as louças na casa de banho?” e ele voltou a responder: “Não são essas, são outras!”

Ele era um homem assim, era divertido. Depois, desafiou-me para eu trabalhar no ateliê dele, e no ateliê não era a mesma pessoa que era na escola, de maneira que, passado algum tempo, eu arranjei um pretexto, e ele também compreendeu, e vim-me embora.

 

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Como foi o seu percurso depois da universidade? Esteve na Índia, em Macau, depois foi estudar para os Estados Unidos.

 

Entre a escola de Belas Artes, que eu acabei em 1960/61, e a minha ida para os Estados Unidos em 1968, passou muito tempo. Estive em Goa primeiro, estive um ano em Macau, voltei um ano a Lisboa, onde trabalhei com a Conceição Silva, depois fui para o Funchal, onde trabalhei com o Góis Ferreira. Depois veio-me essa vontade de ir para a América, e fui através de uma bolsa Fullbright… Pus em primeiro lugar Berkley, que era onde se estava a passar tudo naquela altura, em 1968. Depois tinha posto Columbia, porque era Nova Iorque, e eu achava que em Nova Iorque se passavam coisas muito interessantes, e, no fim, tinha posto Filadélfia, por causa do Kahn. Mas digamos que ia por razões sociais, sociológicas, interessava-me perceber o que se passava e digamos que as escolhas académicas eram importantes, mas eram as menos importantes. E fui aceite em Pensilvânia, na Filadélfia. E quando fui para lá, tinha 33 anos e já tinha construído muito….

 

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Em Macau, fez muitos projetos em muito pouco tempo.

 

Fiz muitos, em cinco anos fiz e construí oito ou nove edifícios, era praticamente tudo encomenda pública, só tive dois clientes privados. Para um fiz umas moradias numa rua difícil, foi o meu primeiro trabalho – quer dizer, tinha feito a alteração da casa dos meus pais – mas o primeiro trabalho inteiramente novo foram essas quatro moradias em banda. Fiz também uma igreja que depois não se construiu, para uma irmandade missionária. Fiz uma habitação para realojamento de noventa apartamentos com um programa mínimo, numa grande zona de Macau, que estava cheia de população deslocada – depois das grandes convulsões que houve na China, houve muita gente que ficou deslocada e emigrou para Macau. Como Macau tinha muitos terrenos vazios, foram construindo bairros de barracas. Era um mundo muito diverso de camponeses, no meio de uma cidade, que iam criando hábitos urbanos. Os miúdos eram muito engraçados, de manhã iam todos para a escola, elas de saia e meia preta, e os miúdos de calça cinzenta e blazer, e saíam todos dos bairros das barracas.

A certa altura houve um projeto feito aqui, em Lisboa, quando Adriano Moreira era ministro do ultramar. Encomendou a uns colegas meus o projeto do bairro para essa zona de fronteira com a China e, tudo aquilo era totalmente irrealista e ainda por cima era suspeito, porque era pago por Americanos, e os Americanos naquela altura não podiam penetrar na China. As pessoas que se queriam candidatar às casas nesse bairro tinham que preencher umas fichas, e ficavam todos registados. O governador da altura não achou grande graça a isso, e o próprio Adriano Moreira também não, o projeto foi descontinuado e nós, no gabinete de urbanização, que era um órgão de staff do governador, fomos encarregados de fazer um plano para ali. Delineámos um plano com uma distribuição de tipologias de fogos por dimensões do agregado familiar. Mas depois a lógica de distribuição dos fogos era outra, começava pelas famílias maiores, fogos que tínhamos destinado a famílias de 2/3 pessoas, passavam a ter famílias de 16 pessoas. Mas Macau sempre foi uma cidade que tem uma história de grande densidade, densidades perfeitamente inacreditáveis e impossíveis de sustentar na Europa.

Macau não era uma cidade de grandes conflitos, o que é quase inacreditável e espantoso, dadas as condições de habitação da própria cidade serem muito duras. Os cantonenses viviam muito na rua, não recebiam em casa, recebiam no restaurante, davam as suas festas nos restaurantes, nos sítios públicos, e não era propriamente o conceito de casa que tínhamos, não era a cultura deles, vivia-se muito na rua. Macau tinha essa vitalidade enorme e extraordinária, todos os sítios públicos eram ocupadíssimos, barulhentos, tinham uma multidão, tinham tendinhas, vendiam comida, vendiam roupa, vendiam tudo e mais alguma coisa… é engraçado porque depois, pouco a pouco, houve uma penetração de consumos, que transformou também a sociedade, passaram a ter as suas casas mais decoradas, chamavam decoradores para lhes fazer as salas. Os mais ricos tinham muito essas coisas, mas não era por isso que viviam mais em casa, ou passavam a comer em casa.

Eu fiz um casarão enorme para um homem muito rico, e um dia ele chamou-me lá porque queria fazer uma extensão de uma varanda e “amarquizar”, porque era naquele recanto escondido que ele e a mulher passavam os dias, tinham um grande ecrã de televisão, e o resto da casa estava toda mobilada, mas desabitada e estavam ali os dois, já tinham uma certa idade, ali jogavam Mahjong, ali comiam…Lá lhes desenhei a varanda e a marquise e eles ficaram aparentemente muito contentes!

Lembro-me que uma vez estava em Bruxelas, em 1989 e a certa altura, estava numa rua e senti algo de estranho, algo que eu não sabia descrever, e depois percebi o que era, é que a rua estava completamente vazia! Estava sozinho naquela rua, era uma rua central, uma rua larga. Olhei, virei-me para trás, virei-me para a frente e eu era a única pessoa que havia naquela rua. E pensei: “Que engraçado, em Macau nunca se estava sozinho!”. E isto abrange as vinte e quatro horas! Macau estava sempre, perpetuamente ocupado, em movimento, nessa sociabilidade intensa. Era agradável viver num sítio daqueles, onde estava sempre tudo a funcionar.

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E quando chega aos Estados Unidos, vai já com uma vivência diferente, de viver em vários continentes e já com um percurso profissional que lhe dá outra maturidade.

 

Eu era o mais velho daquele grupo de pessoas. Concorriam duzentas pessoas, e eles escolhiam vinte…E era engraçado, porque desses vinte candidatos, catorze eram estrangeiros! Havia um tipo muito engraçado, um judeu, mas era de África do Sul, havia um Libanês, havia Chineses, havia Japoneses, havia Alemães, Suíços, havia eu que era Português. Os americanos não eram a maioria. Era engraçado, passávamos a vida em casa uns dos outros, mas havia uma diferença muito grande de experiências e de cultura.

Eles não chegavam a adquirir conhecimentos, vinham com a prática de colher informação. Não havia ainda os computadores, mas a biblioteca era um sítio onde se ia, onde se tirava fotocópias, havia uma produção grande. Nós, os europeus, sobretudo os franceses, italianos e espanhóis, tínhamos uma relação com a aprendizagem muito diferente. Nós líamos os livros que nos interessavam, não líamos os livros porque tínhamos uma reunião e eramos obrigados a ler aqueles livros todos… Nós íamos para a biblioteca ler um livro, e por acaso encontrávamos outro, e ficávamos a ler o outro que era muito mais interessante do que aquele que era suposto termos lido. Eramos mais livres, não nos espantávamos tanto, não éramos muito virados para a especialização.

Eu frequentei uma disciplina – foi o princípio de toda esta vaga ecológica ambiental – com um homem engraçado, escocês, o Ian Mac Carg. Ele dava umas aulas muito interessantes porque convidava os maiores especialistas de renome mundial para ir falar sobre a sua disciplina. Nós, os não-Americanos, tirávamos grande partido daquilo, porque ouvíamos histórias fabulosas, experiências em áreas disciplinares que não nos eram muito familiares. Ouvia aquilo e ficava fascinado e ia à biblioteca à procura dos livros. Deve ter sido a primeira vez na minha vida que fui a uma biblioteca. Na escola de Belas Artes havia lá uma coisa qualquer escondida que devia ser uma biblioteca, mas nunca íamos lá… Os livros que líamos eram os que nos aconselhávamos uns aos outros. Li o que se lia, o que era suposto um estudante de arquitetura ler, li Le Corbusier, mas líamos por formação extracurricular, mas admiro-me muito que o Cristino da Silva tenha lido algum livro de arquitetura na vida dele; o Alberto Pessoa também nunca deve ter lido nenhum livro de arquitetura nem de teoria.

Mas aprendia-se muito, era uma formação que tinha muito de artesanal, aprendia-se um ofício. Aprendíamos a desenhar, a criar equivalências entre a ideia e o objeto, criávamos uma certa destreza para perceber proporções e dimensões das coisas. Conseguíamos, de alguma maneira agenciar o espaço, tínhamos essa formação, que era uma formação de ofícios, os professores eram mestres, como nos ofícios tradicionais, e depois tínhamos uma formação concorrente que era a história da arte e a arqueologia, mas verdadeiramente, o que fazíamos ali era o projeto, num ambiente de grande camaradagem, ajudávamo-nos uns aos outros - às vezes os do ano atrasado iam ajudar os do ano a seguir, porque estavam aflitos para entregar o trabalho e vinham recrutar mão de obra. Era um coletivo muito engraçado, e como as salas eram amplas, havia muito espaço e muita área, era muito uma vida! Vivíamos lá, muitas vezes saía de lá tardíssimo, às vezes acabávamos os trabalhos com a iluminação da rua porque o contínuo, para nos mandar embora, apagava as luzes, e nós levávamos as pranchetas para ao pé da janela. Era muito uma distinção que o Kahn faz entre o modo de vida e o modo de viver, aquilo era o nosso viver, dali irradiávamos para a vida na cidade…

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Estava a dizer que nos Estados Unidos percebeu que a investigação ia um pouco para além do ofício. Essa ideia de arquitetura como ofício poderia ampliar muito mais o conhecimento sobre arquitetura.

 

Sempre pensei como arquiteto, e digo uma coisa que pode ser um pouco pretensiosa: nos livros só esclareci melhor aquilo que eu já sabia, ou aquilo que eu já intuía. Nunca aprendi nada com um livro! Lembro-me de ficar muito contente e dizia: “Pois é, que bem, é exatamente isto! È isto mesmo que eu queria dizer!” Isso não só em relação à arquitetura, como à vida em geral. Os livros para mim sempre foram pontos de encontro comigo mesmo, esclarecedores, explicitadores das intuições do meu próprio funcionamento, da minha relação com o observador, da minha observação do real, da minha interpretação, que depois ficava mais esclarecida, mais aclarada, mais bem dita do que aquilo que eu era capaz de dizer sem essa iluminação que os livros me traziam.

Eu acho que na arquitetura a investigação é o projeto, a investigação é o desenho. Quando eu vou desenhar um hotel não tenho que ir comprar todos os livros que há sobre hotéis. Já fui a hotéis suficientes na minha vida, já sei o que é, sei muito mais daquilo que não gosto nos hotéis do que aquilo de que gosto. Se eu não for investigar para uma aplicação, se for investigar por investigar, acho que a certa altura perco a imaginação, fico esmagado pela avalanche de informação. Depois de um tipo receber aquela informação toda, perde a imaginação, está completamente apavorado, nunca mais tem uma naturalidade de separar o essencial do acessório, de criar condições para que as coisas aconteçam.

Quando pergunta se eu percebi as vantagens de um certo suporte, digamos, académico e técnico, eu acho que era mais uma questão de método – também é uma questão de cultura, nós não temos uma cultura de organização, o americano tem essa cultura. Mas isso não me leva a ter voltado da América com nenhuns hábitos americanos, também não voltei de Macau com hábitos chineses, eu acho que uma pessoa que já tem a sua própria estrutura. Não vim da América a comer cachorros e a comprar um churrasco para as traseiras da casa, mas comia churrasco, porque não? Mas não se pode dizer que fiquei muito americanizado, era impossível. Penso que temos uma estrutura cultural forte, feita de hábitos, de tradições, de gostos, de desgostos, de sensibilidades, de modos de olhar. Isso também é verdade, em relação ao povo rural, uma senhora rural de sessenta anos que mude para a cidade, vem com as suas certezas e as suas convicções e com as suas seguranças e ideias sobre o mundo. É interessante ver essa marca cultural em pessoas que não ficam completamente sem saber de que é que hão de gostar, sem saber do que gostam. Isso vê-se muito na nossa situação atual, e na nossa classe dirigente, há de facto muito pouco gosto, as pessoas realmente perderam essa relação profunda com a memória…

 

ver todas as fotografias em: http://bit.ly/Kq3LsG e em http://bit.ly/J99JOq - by João Carmo Simões