RUI MENDES - parte1

Entrevista ao arquiteto Rui Mendes
pdf: http://hdl.handle.net/11144/4082

 

Filipa Ramalhete

framalhete@autonoma.pt

Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/UAL), Portugal | Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa (CICS.Nova)

 

João Caria Lopes

joaocarialopes@gmail.com

Atelier BASE | Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/UAL), Portugal

 

 

Para citação: RAMALHETE, Filipa; LOPES, João Caria – Entrevista ao arquiteto Rui Mendes. Estudo Prévio 14. Lisboa: CEACT/UAL - Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2018. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/14.3   

 

Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

 

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É com enorme prazer que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor Rui Mendes. Seja bem-vindo. Queríamos começar por pedir que nos contasses um pouco do teu percurso académico como aluno, como foi o curso de arquitetura, professores ou exercícios marcantes.

 

Obrigado pelo convite. É com enorme prazer que estou aqui. O percurso académico foi feito na Universidade Lusíada em Lisboa, no início dos anos 90, e foi um curso, assim visto em retrospetiva, bastante confuso. Havia muito pouca reflexão sobre arquitetura, senti, de uma forma muito imediata, que havia um grau de autodidatismo que era preciso introduzir no curso. Passei o primeiro ano de uma forma bastante episódica, porque não senti grande apelo pelas aulas. Além dos professores do primeiro ano, o Nuno Simões e a Bárbara São Miguel, que são sempre importantes, não houve outros professores de projeto que eu possa referir como muito importantes, a não ser no quinto ano, quando conheci o arquiteto Manuel Tainha; e aí acho que encontrei um professor. Era aluno do arquiteto Orlando Azevedo (com o arquiteto Joaquim Braizinha), mas acho que encontrei no arquiteto Tainha o professor que me marcou - que depois vim a contactar já como arquiteto formado, porque o meu primeiro atelier foi no edifício onde o arquiteto Tainha tinha o seu atelier e acabámos por ser vizinhos.

Durante o curso, os professores que acabaram por me marcar mais foram os de Desenho e os de História, já no terceiro ou quarto ano, se não me engano… Foi quando tive como professor o João Rodeia, que foi bastante importante porque ele era muito entusiasta, organizava viagens com os alunos - fomos a Paris com ele, e foi impecável! Talvez tenha sido a primeira viagem de escola que eu fiz… e ajuda imenso! A relação com os colegas passa a ser outra, há outras relações com a arquitetura que se promovem, e isso foi muito importante. Os professores de Desenho eram o Sérgio Rebelo, o Miguel Navas e a Teresa Rodeia.

Na altura do quarto ano, comecei a querer trabalhar em simultâneo. Comecei a trabalhar com o arquiteto Mateus Lorena, de uma forma pouco formal, digamos assim, com algum tempo que tinha disponível da escola. E, de facto, os grandes amigos do arquiteto Mateus eram este grupo de professores de Desenho e acabávamos por estar juntos fora da escola também, hoje em dia somos amigos. Talvez esse tenha sido o resíduo mais interessante que resultou da escola, essa comunhão com pessoas que tinham sido meus professores, que hoje são amigos.

Houve um arquiteto cujo trabalho me interessou também perceber, que foi o professor Reais Pinto. Era professor de construções, muito dedicado às pré-fabricações e coisas assim pesadas, obras muito pouco referenciadas na altura, mas que, mais tarde, me têm dado algum gozo conhecer. Isso talvez tenha sido um preâmbulo relevante para o meu trabalho, que é juntar uma série de coisas dentro do atelier, do projeto, investigações periódicas e obsessões permanentes…

Para ti, a continuidade entre universidade e atelier ou mercado de trabalho, foi uma coisa fluida?

Não, não foi. Eu acabei o curso em 1996/7 e, até 2003/4, não tive nenhum contacto com a escola. Nessa altura estava muito indeciso sobre o que é que havia de fazer. E nessa altura as viagens foram muito importantes. Quer as da escola, quer as que organizávamos fora - coincidiu com um período em que fiz muitas viagens, estadias longas, patrocinadas pelo Rotary Club, que era um clube a que o meu pai pertencia que tinha sócios no mundo inteiro, organizavam workshops/campos de estudo. E eu acabei por ter uma estadia longa em Itália, no Lago de Como, outra na Dinamarca, na floresta negra na Alemanha, na Grécia, etc…

De repente, começamos a ter trabalho no atelier, já em associação com o Mateus Lorena, mas às tantas, aquele pragmatismo - o trabalho com o Mateus foi sempre muito estimulante – sobretudo aquela relação com os clientes e com o mercado de trabalho, era algo para que eu não estava ainda preparado.

Já tinha duas cartas preparadas para enviar - uma para o Siza e outra para o Josep Quetglas, que era um arquiteto que eu tinha começado a ler na escola e me interessava – mas um dia decidi responder a um concurso para Beja. E fui trabalhar para Beja, saí de lisboa. Não fui para o Porto trabalhar com o Siza. Não fui para Barcelona contactar o Quetglas. Fui para Beja. Um sítio onde nunca tinha ido, e não fazia a mínima ideia do que ia fazer. Sei que o concurso me estimulava, era fora de Lisboa, e que dizia no preâmbulo do concurso o que eu queria: fazer projetos para aquele território!

 

Era na Câmara Municipal?

Foi na Câmara Municipal. Foi um ano, porque o contrato era assim, e nesse ano estive completamente à solta! Havia uma pessoa lá na Câmara, que era eu, que fazia projetos. Mas quais projetos? Então era preciso também inventá-los, não é? Era mesmo preciso! E houve duas coisas muito estimulantes que fiz, no início. Tinha um motorista por minha conta e tinha de fazer apenas uma coisa, que era conhecer aquele território. O senhor presidente tinha dito: “olhe você agora antes de lhe darmos projetos incríveis para fazer, tem que conhecer isto e, portanto, tem aqui um senhor impecável à sua disposição que vai fazer um roteiro e assim vai conhecer isto e tal…” E pronto, assim foi…

Todos os dias, às sete da manhã, lá estávamos preparados para seguir viagem e, até às duas da tarde, fazíamos um percurso por todas as aldeias, por todas as ruas, a falar com as pessoas. Isto tinha um desígnio, que eu não sabia à partida, que era um grande concurso, uma coisa muito acarinhada na Câmara, que se chamava o “Concurso da Rua Caiada” e que era o concurso que elegia todos os anos a melhor rua daquele sítio.

A Câmara fornecia os materiais, não era? A Câmara fornecia a cal e os pinceis.

Oferecia a cal, os pinceis, e as pessoas caiavam como uma festa, e era uma festa muito partilhada entre as mulheres e os homens, cada um tinha a sua função naquele registo, e isso foi uma coisa muito curiosa e muito bonita, que eu gostei de conhecer, uma versão da Arquitetura Popular que eu ainda só conhecia do Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal (1961); não conhecia aquela escala, não conhecia aqueles materiais. E foi incrível! Foram três meses de uma espécie de ensaio sobre erudição popular, que era qualquer coisa de que, na escola, ninguém falava… E aquela experiência construiu um lastro de vontade de, pelo menos, permanecer mais algum tempo e tentar construir alguma coisa com aquele conhecimento; e isso alimentou conhecer melhor o Inquérito, conhecer melhor aquelas realidades rurais. Na altura, isto foi nos finais dos anos 90, 1998/99, em Beja, coincidiram uma série de pessoas, entre arquitetos, fotógrafos e alguns artistas que também estavam quase na mesma condição que eu: estavam fora do seu sítio. Também teve sempre esse lado de descoberta, ninguém era de lá, havia muitos arquitetos que conheci lá e que estavam também seduzidos por essa cultura erudita…

 

 

 

Estava a Barragem do Alqueva em construção, não é? Nessa altura devia estar quase a encher?

Já tinha começado. E também já havia algum distanciamento daquela pobreza que dominou muito aqueles territórios e, portanto, já havia capacidade de planear alguns acontecimentos. E aí é que surgiram os projetos que a Câmara me foi pedindo para fazer - a Casa Mortuária de Santa Vitória; o Salão de Festas de Trigaches; uma pequena ampliação do Estádio de Beja, uma casa para uma família cigana. Tudo isso foi começado e nada foi construído! Porque chegava a uma altura em que, digamos, havia um domínio político das decisões, e era bastante difícil passar para a obra sem que houvesse um escrutínio absoluto das juntas de freguesia, daquelas estruturas menos avisadas para outros universos que não aqueles de caráter popular, que diziam conhecer. A única coisa que eu consegui construir nesse ano foi uma coisa completamente singular e quase invisível, que era um caixote do lixo de pequena dimensão para o centro da cidade, que depois foi produzido em escala, eram cerca de 1500, se bem me lembro. No final da história decidi que me vinha embora porque nada se concretizava, mas, no fundo, a primeira grande relação com a arquitetura, esta experiência ao vivo do Inquérito à Arquitetura, é aquilo que eu retenho. E uma série de amigos que ficaram para a vida. Esta é a primeira etapa que, se calhar, acaba a fase de aprendizagem. Que nunca é simples nem estanque.

Pode dizer-se que abriste o caminho?

Não. Eu não abri o caminho, quem abriu o caminho talvez tenha sido o arquiteto Manuel Faião que ainda lá está. E o arquiteto Eugénio Castro Caldas que fica como consultor da Câmara, depois do arquiteto Hestnes Ferreira ter feito esse primeiro caminho. O arquiteto Castro Caldas sai do atelier do Hestnes Ferreira e fica com o acompanhamento de Beja, de Serpa e de Mértola. Mas, antes disso, ainda houve outros grandes arquitetos que fizeram trabalhos importantes em Beja, sobretudo o José Rafael Botelho, que foi o primeiro consultor de arquitetura da Câmara, nos anos 50, e que, durante algum tempo, produziu trabalho de levantamento importante que deu origem ao Plano de Salvaguarda da cidade. E depois o arquiteto Cristino da Silva projeta o grande Liceu de Beja, o arquiteto Raul Chorão Ramalho, constrói o Hospital, o arquiteto Francisco Keil do Amaral, constrói o Hotel da Base Aérea no Bairro dos Alemães, e toda a obra do arquiteto Hestnes Ferreira dos anos 70/80. Mais recentemente, o arquiteto Pedro Viana Botelho com a ampliação do Liceu de Beja. Como veem o caminho já é longo. Sem falarmos na Beja Romana (que continua em escavação), há uma serie de ótimos arquitetos que, em tempos diferentes, vão trabalhar a Beja.

 

 

Isso quer dizer que também foi um contacto com uma série de pessoas que, não sendo os nomes que tu estavas à procura, tinham uma prática e um saber-fazer que não terias encontrado noutro sítio, não é?

Sim, eu acho que foi inusitado, foi não-preparado, mas claro que sim. Eu, na altura, saí da escola e sabia muito pouco para além das referências mais universais. Quer da arquitetura internacional, quer da nacional. Havia muito pouca produção, até impressa e publicada. E encontro arquitetos de que nunca tinha ouvido falar, que nunca tinham estado em nenhuma conversa, em nenhum debate. Quer na escola, quer nos ateliers.

Agora fizeste-me lembrar que houve uma conferência, nessa altura, do arquiteto Pedro Pacheco, ali em Beja, a propósito do seu Museu da Luz. Eu conheci o Pedro Pacheco nessa conferência e, depois, chego a Lisboa e vou trabalhar para o atelier dele e do José Adrião. Acabo o primeiro ano de Beja, venho para Lisboa, e vou lá bater à porta. Apetecia-me ir trabalhar para um atelier relativamente pequeno, e o atelier do José Adrião e do Pedro Pacheco era um atelier de quem as pessoas falavam na altura, em Lisboa. E foi no Atelier JAPP que vim a conhecer o Fernando Martins com quem fiz projetos em associação.

 

 

E queres contar-nos a história de como foi até teres o teu atelier?

Foi rápido, de facto, estive um ano e meio a trabalhar com o José Adrião e o Pedro Pacheco, no atelier deles, ainda juntos. Assisti nesse momento à separação em dois ateliers. Trabalhei com eles num trabalho para Matosinhos e depois só com o Pedro Pacheco na Aldeia da Estrela, no Cemitério da Estrela. Nessa mesma altura, tive a encomenda da Casa de Santa Vitória, em Beja, ainda comecei o trabalho dentro do atelier, mas houve um dia em que decidi sair - que é uma coisa que talvez hoje seja impensável, porque tinha apenas um trabalho – decidi “olha, tenho um trabalho, está mesmo bom para ir para um sítio meu!”.

Isso foi em que ano?

Isto foi em 2000/01. Vim para Lisboa em 1999, trabalhei no atelier JAPP e em 2001 é que acontece esse começo de atelier. E foi um começo com um projeto!

 

 

E um arquiteto. Estavas sozinho nessa altura?

Sim, estava sozinho. Há um preâmbulo deste acontecimento. Na altura, já não trabalhava com o arquiteto Mateus Lorena mas algumas coisas tinham ficado por fazer, alguns trabalhos… E, nessa altura, fomos convidados para fazer um concurso para uma escola no Braço de Prata e juntámos uma equipa grande, com o José Maria Assis, o Tiago Oliveira, com a Patrícia Barbas, com o João Nunes, com o Pere Buil e o Jordi Fornells – uma série de gente que trabalhava no Atelier do Bugio, do arquiteto João Favila, com o Gonçalo Byrne ou com o Manuel Aires Mateus – e, de repente, montámos uma equipa. E depois desse concurso feito e entregue, não ganhámos. Foi o arquiteto Telmo Cruz que ganhou esse concurso, mas também não foi construído, infelizmente. Depois desse acontecimento, fundei o atelier.

Montámos um atelier, em conjunto, no mesmo sítio, ocupando um espaço grande no Príncipe Real, com o Jordi Fornells e o Pere Buil. Estava sozinho a fazer esse único trabalho, mas o atelier era um conjunto de micro-ateliers, que se manteve durante dez anos. Era um atelier bastante curioso, porque era onde estava a Luciana Fina, que é videasta, estava a Vera Mantero, com o Rumo do Fumo, estava o Teatro do Vestido, o Miguel Gonçalves Mendes, o realizador. Foi um sítio por onde passou imensa gente e tínhamos todos vontade de partilhar o que íamos fazendo e, até hoje, é uma versão que partilho com o atelier do arquiteto Jordi Fornells, aqui em Lisboa.

E sempre quiseste ser arquiteto?

Sim. Apesar de não ter grande narrativa para contar sobre isso, sei que quando quis fazer um curso superior, só havia duas hipóteses: ou era arquitetura ou cinema, mas cinema acabou por não contar nesse momento, e concorri a Arquitetura. Na verdade, dizem os meus pais que não existiram dúvidas.

E durante o curso foste sedimentando essa vontade, essa escolha?

Sim, sim, foi só durante o curso…. Acho que só a meio do curso é que o interesse aconteceu com algum vigor.

O Manuel Tainha foi professor de muitos dos nossos entrevistados, mas numa fase anterior. Tu eventualmente apanhaste-o já numa fase mais madura. Queres falar um pouco sobre essa experiência?

A verdade é que eu não fui aluno dele. Eu ia às aulas do arquiteto Manuel Tainha não sendo seu aluno formal. Eu era aluno de quinto ano do arquiteto Braizinha e tinha aulas com o Orlando Azevedo, que me lembro ser um arquiteto bastante preocupado com questões pedagógicas. Tínhamos boas conversas sobre os processos de trabalho. Acho que talvez aquilo me estimulava para também ir às aulas do Tainha. Penso que foi o seu último ano de professor, portanto foi mesmo o fim da sua atividade como professor e talvez tenha sido por isso que eu tenha ficado com essa memória de que as aulas eram muito sérias, num determinado sentido. As frases eram muito bem ditas e aquilo que ele tinha para dizer era uma coisa que eu sentia que estava muito fundado na sua obra, soava-me como solidez, como qualquer coisa de que eu de certeza me iria lembrar, e, portanto, ia às suas aulas, a partir desta convicção. Ele não me deu nenhuma nota, não me avaliou em nada, mas talvez tenha sido o professor que ouvi mais tempo e mais vezes.