João Gomes da Silva - Parte 1

 

Entrevista Completa
em pdf:  http://repositorio.ual.pt/handle/11144/3203

 

É com enorme prazer que temos como nosso convidado, o professor e arquiteto paisagista João Gomes da Silva. Seja bem-vindo. Queríamos começar por pedir que nos contassem um pouco do seu percurso académico, como foi o seu curso, que professores ou exercícios marcantes é que teve.

Estudei arquitetura paisagista. Licenciei-me na Universidade de Évora. Durante o liceu estava muito interessado em estudar a floresta, estava na área de ciências. Conhecia muito bem o arquiteto Silva Dias e os filhos, fiz para ele umas maquetes e ganhei uma certa curiosidade pela arquitetura. A certa altura, o Silva Dias disse-me: “Tens de falar com uma colega, a arquiteta paisagista Celeste Ramos - com quem ele colaborava - para ela te explicar o que é a arquitetura paisagista, porque é provavelmente algo que te interessa mais do que a arquitetura”. Um dia encontrámo-nos, e foi uma coisa muito imediata! Eu fiquei muito curioso, ela falou-me do que fazia no Gabinete da Área de Sines, que era um processo muito complexo, com várias escalas de trabalho, e aquilo interessou-me bastante. E decidi, a meio do 7ºano (que era o último ano de liceu), estudar arquitetura paisagista.

Na época, em 1978/79, havia um curso aqui em Lisboa, no Instituto de Agronomia, que implicava um estudo de agronomia durante dois anos. Eu não estava interessado nisso, nem em engenharia – e decidi ir para Évora, onde estava a figura de Ribeiro Telles, que é uma figura com uma energia incrível, com uma luminosidade incrível! Na sociedade, e também dentro deste campo disciplinar. Ele tinha participado na refundação da Universidade de Évora, instalando o curso de arquitetura paisagista em 1972/3 e eu não tive dúvidas! Concorri para Évora (enganei os meus pais, disse-lhes que estava a concorrer para Lisboa e para Évora, mas era apenas para Évora) porque era exatamente para ali que eu queria ir. Estive 5 anos na Universidade de Évora, ainda muito no início da universidade, e foi uma experiência muito interessante, com um conjunto de professores fascinantes, excelentes professores, agrónomos, arquitetos paisagistas, historiadores de arte - Ário Lobo de Azevedo, Eduardo Cruz de Carvalho, Alexandre Cancella de Abreu...o próprio Fernando de Mascarenhas foi meu professor de filosofia e de estética. Acho que apanhei, talvez, o melhor período que a escola teve, que foi o período inicial.

 

Era uma época em que ainda estava tudo por fazer…

Sim, no fundo sim. Se bem que já tinha passado a primeira geração, a do Ribeiro Telles, e já havia uma geração acima da minha, que tinha entrado, fundamentalmente, na administração pública local ou central, e havia dois ou três ateliers. Portanto a profissão tinha um enraizamento de duas/três décadas, mas estava em pleno desenvolvimento. E, de facto, a minha geração – que é também a do João Nunes (da Proap) – começa a apostar noutra vertente, que é a da construção de ateliers. A apostar na construção de um tecido criativo onde se faz arquitetura paisagista.

Quando acabei o curso, fui trabalhar para a Malagueira. Fui trabalhar fora do meu campo, para uma equipa coordenada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, com quem, no fundo, iniciei o período de estágio, e com quem depois continuei a trabalhar durante sete anos. No fundo, transferi-me diretamente do curso para a realidade profissional. Em 1987 terminei o curso (já tinha dois anos de prática na Malagueira), em integrei na equipa de uma maneira mais permanente e estive lá até 1981 – no atelier que o Álvaro Siza criou em Évora para trabalhar no projeto no  plano da Malagueira. Também em 1987, eu concorro para assistente na Universidade de Évora, no meu curso, e fui assistente até 1994. Comecei a trabalhar e a ensinar – lembro-me de, quando fiz a entrevista para ser assistente, disse que não podia ensinar projeto sem estar a trabalhar, a minha intenção era fazer essas duas coisas. Portanto, o meu início de profissão coincide não só com uma prática profissional, relacionada com o projeto e com a obra, mas também com o ensino, como assistente do Prof. Ribeiro Telles. Tive uma entrada bastante abrangente na minha profissão. E em várias dimensões, uma mais prática e outra mais teórica.

 

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E quando é que crias o teu próprio atelier?

Um pouco mais tarde. Em 1991, faço um concurso com a Inês Norton e com o João Sousa Mateus, para o Prémio Schinkel, na Alemanha. Ganhámos esse prémio, o que criou uma visibilidade pública e profissional e nos deu um certo alento. E foi a partir daí que começámos a fazer um atelier, que era uma coisa que quase não existia a nossa área. Em 1994, deixei de ensinar. Tive a minha primeira filha em 1993, e tomei uma decisão, que foi deixar Évora, vir para Lisboa e focar-me exclusivamente no atelier. Isto coincidiu com outro ciclo de trabalho. Fui colaborando com o Siza, até 2002, mas iniciei um outro ciclo, que foi ter um atelier e começar a colaborar com muitos outros arquitetos. É um tema da minha vida, a colaboração.

 

Em 1994… E quando é que foi a sua entrada na Universidade Autónoma, como professor?

 Como é corrente, comecei de 'mansinho'… No fundo foi o João Luís (Carrilho da Graça) que me chamou, a mim e à Inês Lobo, que estava a trabalhar como assistente. Eu já tinha colaborado com o Carrilho da Graça, primeiro pediu-me para ir fazer críticas, depois para ir fazer uma aula… E há um momento em que me convida para fazer dar uma unidade curricular, ainda no sistema pré-Bolonha, no 5ºano.

 

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E queres falar um pouco mais sobre o tema da colaboração? No 5ºano também centras muito o teu ensino nesta ideia da colaboração…

A colaboração é uma espécie de tema longitudinal à minha vida profissional!

Antes de ir estudar arquitetura paisagista, de facto, de alguma maneira estava no ambiente dos ateliers de arquitetura, mas não era aluno de arquitetura, nem tenho qualquer espécie de relação familiar nem profissional, na minha família, com a arquitetura. O tema da colaboração surge de um conhecimento, que tenho, desde muito cedo, do que é a atividade em Arquitetura – por estas razões práticas, de fazer maquetes, de ajudar a montar coisas…

Quando eu termino a parte escolar do curso, tive um professor de urbanismo, o Arq.º Paulo Gouveia – que já morreu - e que foi meu professor e depois foi meu colega. E ele faz uma aula sobre vários planos que estavam a decorrer, em Sines, em Santo André, e na Malagueira. Convida o arquiteto Siza, que não estava disponível, e o Nuno Ribeiro Lopes foi lá apresentar. Eu lembro-me que a apresentação foi fascinante. Nós estávamos em Évora, víamos o que se estava a passar, (em 1983/84) e, no final dessa aula, na fase das perguntas e respostas, eu perguntei o que é que se passava com toda esta paisagem, que se cria e que se transforma ali – “Alguém está a trabalhar sobre isso? Nós estamos aqui num departamento de arquitetura paisagista… O que é que se passa?”. E, de facto, ainda não se passava nada. Eu, em seguida, faço um contacto e ofereço-me como estagiário. Há uma entrevista e essa entrevista corre bastante bem - foi uma conversa com o Siza, que semanalmente ia a Évora - e eu começo a colaborar. E começo a colaborar de uma maneira muito intensa e isso é muito determinante para este tema da colaboração - é claro que, do lado do meu departamento, dizem que vou para lá sozinho, que estava nas mãos de um arquiteto e que isso me punha numa posição frágil.

É desta forma que o tema da colaboração parte quase de um conflito; não no mau sentido, mas no sentido em que há visões que não se justapõem. Portanto, eu faço o meu estágio num campo e num espaço de discussão e de produção que é de uma outra disciplina, onde eu tenho de ser responsável por propor visões disciplinares.

E, de facto, todo o contacto que vou tendo com o Álvaro Siza, com o Nuno Ribeiro Lopes, e com todos os arquitetos que colaboram nesse plano, é muito estimulante. E apercebo-me que aquilo que vou trazendo à discussão e à análise dos problemas que se iam pondo são temas que interessam muito a todos, sobretudo ao Álvaro Siza, com quem, depois, comecei a colaborar de uma maneira mais intensa.

A primeira coisa de que me lembro… Ele dá-me uma pilha de esquiços e fotocópias dos cadernos dele e diz: “Olha, estas são as minhas ideias sobre a Malagueira, sobre o espaço exterior, os espaços abertos… Diga-me o que é que pensa. Para a semana venho cá e diga-me o que é que acha sobre isto. Porque isto é um ponto de partida, para mim.”

E eu, de facto, estive a ler todos os desenhos e, no fundo, era um imaginário, o que ele me passou… E quando ele voltou eu disse-lhe: “Acho que é um conjunto de referências, que eu reconheço na minha própria vivência aqui em Évora, e tenho uma coisa a propor, que é fazermos um passeio.” E o que é que fizemos? Subimos pelo vale acima, a Malagueira é um transepto no vale da ribeira da Turgela, e fomos subindo por essa ribeira e visitando várias quintas de recreio. No fundo, era a periferia nobre da cidade, onde havia quintas, casas, sistemas de rega com caleiras, tanques e azulejos, toda essa temática... E eu fui explicando como é que aquela paisagem se tinha formado e o que é que a Malagueira representava naquela sequência, centrada sobre a ribeira - a Malagueira, de facto, corresponde a um transepto, a um corte transversal sobre esta realidade natural, que se contrapõe com um eixo urbano, que aponta até ao centro da cidade. Ele disse que era muito interessante tudo aquilo que lhe estava a dizer, descobriu uma abordagem que lhe interessou, e começou a envolver-me.

E iniciou-se um processo de trabalho, para mim fascinante. Foi uma espécie de revelação. Porque, desde a escala do planeamento à escala do projeto e à escala da obra, tudo se desenrolou. Com exigências de participação da comunidade, associações de moradores… O tema da participação, de que nos últimos anos se voltou a falar muito, ali era quase uma exigência, até por razões políticas.

Portanto, para mim, o tema da colaboração iniciou-se dessa forma, muito intensa. E quando me diziam que estava desapoiado, eu dizia que não. Não creio que haja inimizades entre disciplinas que são afins. Acho é que há uma enorme zona de contacto, e é nessa zona de interseção que me quero posicionar. Não me interessa encapsular-me, acredito que entre arquitetura e arquitetura paisagista existe uma imensa potencialidade de desenvolvimento, de produção e, sobretudo, de criação. E foi isso que eu fiz ao longo da minha vida toda, ao longo destes quase trinta anos. Foi, fundamentalmente, acreditar que a realidade é de tal maneira complexa que não há uma única disciplina que consiga a especialização. O conhecimento moderno afastou-nos de uma coisa fundamental que foi sermos capazes de voltar a submergir em várias perspetivas e de conseguir olhar para os problemas a partir da sua complexidade e não a partir da sua desmontagem, que é o que defende o paradigma do conhecimento moderno.

 

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Nesse sentido, eras um professor diferente quando davas aulas a alunos de arquitetura paisagista e agora a alunos de arquitetura?

Isso põe problemas didáticos e de metodologia muito grandes. Eu ensino na Autónoma, numa turma de finalistas. São alunos de arquitetura, portanto são alunos que não têm uma formação de base sobre temas de paisagem. Tal como ensino os alunos de Mendrísio, onde sou também professor. Na verdade, estou a ensinar em “casa-alheia”. E faço-o com imenso gosto, apesar de saber e de sentir que existe uma enorme limitação do ponto de vista metodológico, pelo facto de estar a lidar com pessoas que não têm um background que lhes permita compreender as coisas da mesma maneira. E tenho de ser capaz, de um modo em parte empírico, em parte instrumental, de ir desmontando a realidade e ajudando a criar a capacidade de um estudante de arquitetura ser capaz de entender a paisagem como espaço, mais do que como uma imagem, um cenário onde as coisas ocorrem – que é a visão que tradicionalmente existe. A minha visão é a de que a paisagem é espaço, é arquitetura, é construção. É a construção de um espaço no território. Às vezes digo, de uma maneira simplista, que a paisagem é a arquitetura do território.

Há dois anos fui professor visitante da Universidade de Harvard, da Graduate School of Design, e aí voltei a ensinar a estudantes de arquitetura paisagista e também arquitetos, e senti que, de facto, trabalhar o projeto aí tem uma outra potencialidade. Podemos ir muito mais profundamente, abordar outras problemáticas.

Mas, voltando à Autónoma, o trabalho que tento fazer é, em primeiro lugar, criar linguagem, noções, significados – o que é fundamental quando queremos lidar com determinado tema. Em segundo lugar, criar uma visão crítica – propor aos alunos que comecem a olhar criticamente para o espaço e que comecem a interpretá-lo. E, para tal, há determinados exercícios de representação, que levam necessariamente a uma análise. Em terceiro lugar, trabalhamos, de alguma maneira, um tema fundamental do projeto de arquitetura que, nesta vertente, tem a ver com as ideias de localização e de implantação – são dois temas fundamentais para a arquitetura, sobretudo o tema da implantação - é um tema que o Vitrúvio define como um dos princípios da arquitetura. O tema da localização requer uma escala mais territorial e o tema da implantação uma escala mais local. No fundo, aquilo que faço no segundo semestre com os meus alunos é obrigá-los a olhar, criticamente, o projeto que estão a desenvolver na disciplina de Projeto. E aquilo que eu tento fazer é deslocá-los para uma zona de desconforto, levá-los a observar o seu projeto de arquitetura por outro prisma – que é a escolha de um lugar, as relações que se estabelecem e a transformação do lugar através do tema da implantação.

 

E ainda adiciona a tudo isso, o tema da colaboração…

É evidente que tento ir explicando quais são os potenciais que ali estão a criar e que evidentemente podiam ser aprofundados. Assim como, naturalmente, eles sentem a necessidade de ir falar com o professor de Estruturas, porque percebem que a ideia fundamental do projeto necessita de uma visão da física, da estática e, portanto, vão procurar o professor.

Em Mendrísio passa-se a mesma coisa, até de uma forma mais instituída, porque a escola nomeia, em cada área de conhecimento, um professor que tem de prestar assistência tutorial aos alunos que estão a desenvolver o projeto final. No fundo, informalmente, é o que se passa na Autónoma.

 

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O perfil dos nossos alunos mudou bastante, nos últimos anos, e a tua experiência com alunos de outros países, leva-me a perguntar – sendo a paisagem também uma construção cultural – se é um desafio diferente, trabalhar com alunos, cujas referências não são as mesmas. Ou seja, lecionares a alunos de países diferentes, com backgrounds diferentes, levanta desafios novos?

Levanta, até porque metade dos alunos que tenho na Autónoma não são Portugueses. Uns vêm de África, outros da Europa… Muitos da Itália, espanhóis, do norte da Europa, noruegueses… O conhecimento que os alunos têm, que as pessoas, em geral, têm sobre a paisagem é empírico. É sobre a sua experiência de vida, nós transportamos aquilo que vamos construindo sobre a nossa experiência de vida. Todos nós temos uma espécie de construção mental, um imaginário que construímos sobre aquilo que é a paisagem, ou porque vivemos nela, ou porque viajamos, ou porque parte da nossa família está noutro sítio… Este conhecimento faz-nos construir esta espécie de memória, que nos estrutura e que estabiliza a nossa visão do mundo. A partir da nossa memória, estamos constantemente a interpretar a realidade e a analisá-la, mesmo que o façamos inconscientemente. E, portanto, aquilo que a universidade tem de fazer, e é isso que a distingue de uma formação intermédia, é preparar as pessoas para, num certo grau de abstração, elas conseguirem confrontar-se com a realidade. Aquilo que a universidade faz é dotar-nos de uma certa capacidade de sermos capazes de olhar o mundo, de nos relacionarmos com ele, de melhorá-lo, de conseguirmos intervir no mundo e transformá-lo. É isso que faz um arquiteto. É transformar o mundo!

A certa altura, o Siza, quando lhe perguntaram como era um arquiteto português a fazer casas em Berlim e na Holanda, ele dizia: “Na verdade, eu transporto sempre comigo os meus fantasmas, as minhas referências. Mas, na verdade, na Holanda, não estou a trabalhar para uma comunidade de holandeses, mas de imigrantes turcos. E eu tenho de ser capaz de entender o seu modo de vida e tenho de inventar uma arquitetura onde sou capaz de sintetizar essas comunidades todas.

E eu acho que isso é muito verdade. O que é isso de arquiteturas portuguesas? São questões que sempre foram muito discutidas e que têm muitas respostas… Isto para dizer que, na verdade, aquilo que eu espero é que os alunos que saem da escola sejam capazes de se localizar em qualquer parte do mundo, e que sejam capazes de criar, independentemente do local onde estão, considerando sempre a sua memória e as suas raízes, serem capazes de intervir nessas realidades.

Esta é uma espécie de ambiguidade que me parece perfeita para explicar aquilo que é o nosso papel no mundo global.