João Gomes da Silva - Parte 2

  

 

Entrevista Completa
em pdf:  http://repositorio.ual.pt/handle/11144/3203 

 

Estava a pensar se conhecia alguma publicação sobre arquitetura paisagista… Há muito pouca disseminação de projetos de arquitetura paisagista, pelo menos em comparação com a arquitetura… Lembro-me que só no 1º ano de doutoramento é que li o artigo Terra Fluxus, do James Corner, por exemplo. A quantidade de informação que me chega sobre arquitetura paisagista é muito pouca.

Tem os seus circuitos e as suas especificidades. Eu diria que já houve muito mais comunicação, mas isto é igual para a arquitetura. Quando digo comunicação, falo de comunicação estruturada em forma de publicações regulares. Na Europa existem várias revistas que, no fundo, são as referências, que tiveram o seu período de ouro e que hoje estão bastante mais reduzidas. Existem também muitos sites online, há um muito conhecido chamado Landzine.

Agora o problema que se põe em relação à arquitetura paisagista e também se põe à arquitetura e às outras artes, é que, apesar de termos muito mais informação disponível, essa informação está muito menos filtrada, estruturada, criticada. E, na verdade, nós temos cada vez mais informação, mas é informação de caráter genérico, a ponto de ser hoje muito difícil a um aluno, e estou a falar de alunos do 5ºano que já deviam ter alguma experiência, ter uma visão crítica sobre a informação que recolhem na internet. Tanto que a certa altura tive de obrigá-los a definir a origem dessas fontes e a veracidade da informação, dado que há uma certa perda de consistência e de visão crítica sobre a quantidade de informação que está disponível.

 

Já agora pergunto-lhe qual a relação que tens com a investigação, na tua prática?

Acho que todos os arquitetos que fazem projeto podem fazer investigação. Não digo que todos o fazem porque muitos de nós, em certos momentos, não estamos a investigar nada, estamos apenas a reproduzir modelos, arquétipos, ou projetos que já construímos e que achamos que são replicáveis… Às vezes, deparamo-nos com problemas novos e temos que investigar. E essa investigação faz-se nos ateliers e não nas universidades. Isto traz-nos ao problema do que é investigação em arquitetura, ou arquitetura paisagista. Quando estamos no domínio da teoria, da história, isso é fácil de responder. Quando se passa para a arquitetura em si, como prática, as coisas começam a ficar muito mais difíceis.

Tive a possibilidade de assistir a uma conferencia em Mendrisio de dois arquitetos Suíços (Burkhalter e Sumi) que se jubilaram este ano, que fizeram uma apresentação notável sobre a investigação que tinham feito ao longo dos últimos doze ou treze anos em tinham estado na Academia, em ambiente de aulas, com os seus alunos, e em que medida é que isso tinha construído um corpo de conhecimento relevante para a escola. Eles fizeram, sistematicamente, o mesmo exercício com os alunos, que consistia em representar com a mesma técnica de representação uma série de obras, quase todas modernas, tentando explicar a relação entre espaço, estrutura e infraestrutura. E fizeram um conjunto de diagramas, que partiam da representação da estrutura em corte, e depois em perspetiva, das instalações e usavam sempre o mesmo sistema gráfico. E o que é um facto, é que, ao fim destes 13 anos, eles foram capazes de agrupar um conjunto de edifícios que tinham analisado e criar uma espécie de tipologia sobre esta relação entre o espaço, estrutura, luz e infraestrutura. E eu achei verdadeiramente evidente e claro, pela primeira vez, o que significa investigar arquitetura.

 

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Há investigação atual que influencie os projetos do atelier?

Há. E acho que isso já foi mais fácil e agora é mais difícil porque há uma espécie de desaceleração na produção de Arquitetura. Desaceleração, porque tivemos uma década que fundamentalmente reproduziu cânones. Na Arquitetura Paisagista isso é muito evidente. Se começarmos a ver o que foi publicado nas últimas duas décadas percebemos que há projetos-chave que, a dado momento, apontam caminhos muito interessantes. Há pouco falámos de James Corner, e há uma determinada obra dele onde, pela primeira vez, a construção de um parque é feita a partir da tentativa de incorporação de sistemas de depuração de água, espaço tecnologicamente fundamentais na vida de uma cidade ou de uma região - e ele propõe a reconfiguração e a integração desses espaços na organização de um parque. Nós temos o produto desse arquétipo aqui em Lisboa, no Parque do Tejo e Trancão, do João Nunes (da Proap em colaboração com George Hargreaves), em que um aterro sanitário e uma central de tratamento de águas fazem parte do desenho e da estrutura do parque, e, se tivesse havido uma terceira parte, essa integração entre infraestrutura e paisagem ainda tinha sido mais consequente, espacialmente. Tal como uma colaboração que o atelier dele tem com o do Manuel Aires Mateus e um grupo de engenharia, transformando uma ETAR numa obra de paisagem urbana. Não sendo um espaço público, não deixa de ser um espaço fundamental e referencial no Vale de Alcântara. Portanto, há de facto arquétipos que existem porque lhes foi permitido refletir sobre a realidade e propor algo de novo, um novo modelo, uma nova tipologia de organização do espaço, de uma nova expressão. E eu diria que temos vindo a ser menos solicitados para a reflexão sobre a realidade e mais para a produção em massa – mas isso teve a ver com um momento em que havia uma enorme acumulação de capital e havia a possibilidade realizar obras que repetiram modelos e que, não trazendo nada de muito novo, disseminaram uma outra qualidade. Diria que, agora, estamos noutro ciclo. Menos meios, já não produzimos da mesma maneira, os objetivos já não são os mesmos.

O tipo de encomenda que tenho no atelier já não tem nada a ver com o que tinha há uns anos atrás. Neste momento estamos a trabalhar para empresas de agricultura. Temos dois ou três projetos realizados em espaço agrário, em espaços produtivos, em vinhas, paisagens vitícolas. Reformular essas paisagens, introduzir a função do enoturismo, que é uma função importante para a economia desses processos produtivos, melhorar ecologicamente o próprio processo produtivo, resolver problemas de tratamento e escoamento de águas, organizar o espaço de trabalho, segmentar as visitas... São temas que há 10/15 anos não existiam.

Eu fui treinado na escola em ambiente de paisagem rural, com toda a problemática que então existia. Hoje as problemáticas são completamente distintas. Se há algum setor onde esteja a existir um enorme investimento, é, precisamente, na paisagem produtiva. E diria que é um campo de trabalho incrível.

Houve, de facto, no campo da disciplina da Arquitetura Paisagista, dois ou três momentos importantes nas duas ultimas décadas, e que produziram algumas obras muito interessantes – obras de coletâneas de textos. Uma delas, penso eu, é a que tem esse texto de que falavas, Terra Fluxus, do James Corner. E eu diria que foi possível, nestas duas últimas décadas, reconstruir um corpo teórico, não já moderno, mas contemporâneo, e eu acho que há duas ou três obras que são fundamentais para expor aquilo que é Arquitetura Paisagista contemporânea.

Uma delas é o Recovering Landscape, onde está esse texto do James Corner, outra é uma compilação de artigos de vários autores, Theory in Landscape Architecture: a reader, do Simon Swaffield. Aliás, é um dos livros que usamos na UAL.

Isto para dizer que há ciclos de um certo progresso e de uma certa construção e depois há ciclos de uma certa reprodução. E acho que estamos a chegar assim a uma espécie de fim de ciclo, num momento em que nos questionamos: “para que é que servimos?”

 

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Na arquitetura paisagista também existem movimentos semelhantes àquilo que se está a assistir em arquitetura, que é a pequena escala, o informal, o local, a intervenção participada? Isso também é uma tendência na arquitetura paisagista?

De alguma maneira, sim, apesar de os problemas se porem de uma maneira um pouco diferente… Umas das coisas que eu tento trabalhar com os alunos é esta noção entre o local e global, ou entre o local e o regional. Que são temas que, em Arquitetura Paisagista, não são separáveis, e que são muito distintas relativamente à aproximação que na UAL ou em Mendrísio, se faz relativamente ao espaço. Aproximação em arquitetura faz-se de uma maneira muito objetual e não contextual, apesar do Contextualismo ser uma das matrizes identitárias da Arquitetura portuguesa das últimas três ou quatro décadas. Para a Arquitetura Paisagista, o contexto é a Paisagem. A Paisagem é contentor e conteúdo. Há um texto muito interessante que costumava dar aos alunos para ler, que é do Christian Norberg-Schulz -  Genius Loci, Towards a Phenomenology of Architecture, onde ele fala dessa dupla condição da Paisagem, entre contentor e conteúdo. E há aspetos que se discutem muito em Arquitetura que são fundamentais para a Arquitetura Paisagista, pelo menos a partir dos anos 1950/60 em que há imensos paralelismos, porque a cultura Moderna das disciplinas de Arquitetura e de Arquitetura-Paisagista tem muito em comum. As raízes Modernas da Arquitetura Paisagista são, muitas vezes as mesmas, apesar de não serem cultivadas nos mesmos lugares, nas mesmas escolas.

 

E há alguns ateliers novos ou mais recentes que acompanhes? Que estejam a fazer projetos interessantes?

De alguma maneira sim. Em Portugal, a crise fez uma coisa terrível que foi a destruição do tecido produtivo da nossa área criativa. Houve imensos ateliers que fecharam ou ficaram moribundos… O meu também passou por essa crise brutal. Primeiro construiu-se, passámos vinte anos a construí-lo. Depois passámos quatro ou cinco anos a desconstruí-lo, e desconstruir significa abandonar, separar-me de pessoas com quem tinha construído uma prática em comum… mas eles geraram outros ateliers. E tenho imenso prazer em ver que há ateliers que se estão a construir de raiz, que partiram de outros ateliers. Isto significa que há uma espécie de reprodução do sistema produtivo, foi algo que a minha geração começou por construir sistematicamente. Portanto sim, existe uma regeneração, como penso que acontece no domínio da Arquitetura. Colaboro e sempre colaborei com arquitetos de uma geração acima da minha, mas também colaboro com arquitetos bastante mais novos do que eu, e isso faz-me ter uma visão bastante privilegiada sobre a realidade, percebo o que se está a passar - e gosto!

 

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É sempre difícil, nos tempos que correm, fazer previsões, mas que tendências é que vês a acontecer? O que é que gostavas de dizer aos arquitetos que queiram colaborar com arquitetos paisagistas?

Há uma coisa que penso que tenho cultivado, e os meus colegas da mesma geração tentaram fazer o mesmo, que foi cultivar esta prática da colaboração. E o que é que significa isso? Significa que temos de ser capazes de, não abdicando dos nossos pontos de vista, nos colocarmos no ponto de vista dos outros para melhor compreendermos aquilo que estamos a tentar discutir em comum. Ou seja, descentrar da nossa prática criativa, descentrar da nossa perspetiva e sermos capazes de sair de nós próprios e centrarmo-nos sobre o objeto que estamos a trabalhar. E fazermos de um modo generoso, confiante e sobretudo sermos capazes de discutir livre e abertamente um determinado problema, beneficiando dos pontos de vista dos outros e sermos capazes de nos pormos no ponto de vista dos outros. É a isso a que eu chamo de pratica da colaboração.

Há um texto muito interessante de uma entrevista feita a Jacques Herzog e Pierre De Meuron, já há bastantes anos, em que eles falam da colaboração que tinham com Rémy Zaugg(um artista plástico que já morreu), e também daquilo que eles foram absorver de um outro artista fundamental para a prática deles, que foi JosephBeuys, e que me marcou profundamente.E, portanto, esta questão da colaboração (e da disponibilidade para a colaboração) é aquilo que eu desejo para todos os arquitetos e arquitetos paisagistas emergentes, que sejam capazes de promover como cultura comum. É serem capazes de, sem desconfiança e sem segundas intenções, genuinamente e ingenuamente, de se abrirem e de se disponibilizarem para colaborarem. Isto sem perderem as suas especificidades e as suas capacidades, pois disso nunca devemos abdicar. Espero, mesmo que esse espirito seja qualquer coisa que nunca desapareça ou que não se transforme em qualquer coisa negativa, porque deu muito trabalho criar esta confiança mutua e é muito fácil perde-la. Mas estou otimista, sempre! Agora está na altura de sermos otimistas!