Telmo Cruz - parte 1

 

Entrevista Completa
em pdf:  http://hdl.handle.net/11144/2995  

 

É com enorme prazer que temos como nosso convidado o arquiteto e professor Telmo Cruz. Seja bem-vindo. Queríamos começar por pedir que nos contasse o seu percurso académico, que nos falasses dos professores e que exercícios que o marcaram.

 

Antes de mais, queria agradecer a oportunidade de estar aqui. Como sou bastante reservado, tenho muitas reticências a estas exposições públicas, mas foi uma oportunidade de ouvir todas as entrevistas dos meus colegas. E fiquei muito impressionado! O que mais pressão me fez, porque são todos excecionais!

Desde que me lembro, sempre quis ser arquiteto. Venho de uma terra pequena, Seia, e a primeira memória que tenho é de estar no meu quarto - tínhamos uma televisão pequenina e eu ia para lá ver o Canal 2 - e lembro-me de estar a ver um programa em que apareceu a igreja de Ronchamp, do Le Corbusier, e pensar “É mesmo isto que eu quero!”. E, daí para a frente, nunca hesitei. O que é estranho… aos 12 ou 13 anos eu sabia lá o que queria! Mas foi o que aconteceu. Assim que tive oportunidade, saí de Seia. Passei do Liceu de Seia, que era um liceu pequeno, para o Liceu José Falcão, em Coimbra, e não estava nada preparado para aquilo! Fui viver sozinho - tinha 16 anos - para uma pensão, mesmo em cima da Praça da República, onde todos os estudantes se cruzavam. A viver na pensão tinha jogadores de futebol da Académica de Coimbra, que estavam a estudar engenharia, e aquilo acabou por se tornar numa outra família, da qual eu era o mais miúdo de todos. Lá fiz o liceu, e depois candidatei-me para os cursos de arquitetura de Lisboa. Tinha a sorte de ter boas notas, não tive muito stress para entrar na faculdade.

Quando entrámos na faculdade, vinha com aquele regime do liceu, com tarefas, testes; eu sempre tive boas notas e era muito bom aluno, cumpria tudo, mas na faculdade era um bocado diferente. Só o contacto com o piso das Belas-Artes, com aquela maior informalidade, era tudo muito distinto... Isto era no Chiado, e eu, que já estava contente quando tinha ido para Coimbra, agora tinha vindo para Lisboa!

 

Não te ocorreu ir para o Porto?

Na altura não. Tinha família em Lisboa. E não me ocorreu. Não fazia ideia do que era uma escola de arquitetura, quanto mais se havia diferenças entre Lisboa e Porto! Isso agora parece-nos muito evidente, mas, na altura, não fazia ideia. Vim para Lisboa, o meu irmão também veio, e ficámos num quarto alugado, como os estudantes todos faziam.

 

Em relação ao curso, que expectativas tinhas?

Eu era muito miúdo. Tinha aquelas ilusões de que íamos salvar o mundo e fazer casas para todos! Mas, apesar de a escola não ser muito entusiasmante, não ser nada de extraordinário, tive sorte. Como ouvi as outras entrevistas todas, fiquei com aquela visão polarizada de que toda a gente adorou a escola do Porto e toda a gente odiou a escola de Lisboa, mas eu fui apanhando alguns professores que tinham muita paixão pela arquitetura, professores muito jovens. No 5ºano, a escolha pela turma do João Luís Carrilho da Graça já foi uma escolha muito consciente, sabia que era aquilo que queria acompanhar. No 4º ano, fui ver os exames (do 5ºano) das turmas do Carrilho e do (Manuel) Graça Dias - que eram as duas turmas que entusiasmavam a escola - com a Maximina, que é hoje a minha mulher. Tínhamos escolhido o Carrilho, estávamos entusiasmados com aquela forma muito dura, muito direta, de chegar a soluções muito presas a condições do território. E os exercícios eram sempre fantásticos, era tudo extremamente sedutor, as maquetes brancas, era tudo muito entusiasmante. Escolhemo-lo, e o Carrilho não nos desiludiu em nada!

Ainda trabalhei, depois do curso, em 1991, um ano com o João Luís Carrilho da Graça, num projeto teórico, o VALIS. E tudo aquilo que na escola era já muito intenso sobre Lisboa, que se sentia que era um método que estava a crescer – ele próprio ainda estava a construir tudo isto – depois tinha uma repercussão profissional, absolutamente idêntica, e foi muito entusiasmante. O atelier do João Luís, na altura, já tinha muito trabalho, estavam a fazer o projeto de execução da Pousada do Crato, mas eu estava numa sala ao fundo, com uma libanesa e com o Pedro Gadanho, que estava a fazer o estágio académico. Estávamos naquela condição, meio isolada, a continuar, no meio profissional, um projeto que estava a sair diretamente de um exercício de escola sobre Lisboa. E era extraordinário! Tal como foi extraordinário, há pouco tempo, entrar na exposição da Garagem do CCB e ver uma maquete do VALIS, que eu não via há mais de 20 anos! Nós ouvimos, hoje em dia as conferências do João Luís e ele sofisticou imenso o discurso! Agora, começa o discurso em Manhattan… Mas percebemos que este processo teve início naquela altura, naquele momento! E dá sempre um certo prazer reconhecer isso!

 

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Durante o curso, passaste pela experiência de ir colaborando com ateliers, enquanto estudante?

Sim, comecei logo no 2ºano. A aprendizagem da profissão, era feita nos ateliers, era absolutamente corrente essa prática. Trabalhei com o meu professor do 1º ano, e depois com o meu professor do 2º, e só deixámos de trabalhar no 5ºano, quando decidimos que tínhamos mesmo de focar, intensamente, no curso e na prática do atelier (aulas) do João Luís, que era realmente exigente, muito intensa. As aulas começavam às 8h30 e não saímos antes das 13h, com revisões diárias de todos os projetos, com debate interno na turma de todos os trabalhos. Isso não só mobilizava a turma como um todo, como cada um tinha de desenvolver a sua capacidade critica. Estas aulas eram sempre muito entusiasmantes, o João Luís estava sempre presente para fazer a sua crítica, mais incisiva, mais apurada, mais certeira, sobre todos os exercícios. Tínhamos uma fórmula para cumprir, maquetes brancas, desenhos apenas com linhas. Havia uma certa uniformização da base de suporte do discurso mas, depois, os discursos eram todos diferentes. Eu achei aquele ano muito intenso e entusiasmante.

É claro que na escola havia outros professores… Lembro-me das aulas do Michel Toussaint! Eu, que vinha lá dos confins da Serra da Estrela, nunca tinha ouvido falar de inúmeras coisas que o Michel Toussaint nos ia descobrindo e revelando, naquelas salas abobadadas, com uma projeção ao fundo, onde ele passava exemplos de tudo! Eu sempre gostei de quase tudo! Nunca me foi fácil dizer que só gosto de uma coisa só e aquilo era muito interessante! Também o João Belo Rodeia, que estava, na altura, hiper-focado no Le Corbusier, provavelmente tinha terminado uma tese há pouco tempo, era entusiasmante! Ver uma pessoa que, ao longo de muitos anos, se debruçou sobre um tema fazê-lo “explodir” e largá-lo aos alunos era muito interessante!

Com todos os defeitos e falta de entusiasmo que a escola tinha, e tinha muitos, o curso foi correndo bem. Não me posso queixar muito, embora não nos tenha dado os instrumentos todos para depois, a partir dali, evoluir. Isso tivemos de o fazer nos ateliers.

 

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Depois do curso, estiveste um ano no atelier do Carrilho da Graça e, depois, foste para o atelier do Gonçalo Byrne…

Fui para o Byrne a 3 de Agosto de 1992. A data é fácil de decorar, porque presumo que entrei por ser período de férias! Na altura, o Manuel Aires Mateus era a figura chave na gestão de todos os projetos, uma espécie de grande coordenador, o que libertava o Gonçalo para uma condição de reflexão e de crítica, ainda hoje ele gosta muito de funcionar assim. E o Manuel terá telefonado ao Carrilho a perguntar se eu valia a pena e o João Luís lá terá confirmado (imagino que sim...).

A partir daí é que comecei mesmo a perceber o que é ser-se arquiteto, neste contexto mais mundial e disciplinar, onde o Gonçalo é uma figura exemplar. É uma das pessoas mais generosas e inteligentes que conheço. Juntando estas duas condições, temos um arquiteto que se empenha, realmente, em fazer cidades e em fazer suportes de vida – ele usa a expressão “contentores de vida” que não é a minha favorita. E a fazer isto de uma forma absurdamente intensa e cultural! Não é corrente em nenhum outro escritório, pelo menos com esta generosidade.

Esta generosidade intrínseca existe também no projeto. Nós ficamos muito entusiasmados com os projetos do Siza, e é verdade que são extraordinários, ele é uma espécie de último Leonardo Da Vinci! Os projetos do Gonçalo não têm aquela sedução de uma espécie de consistência artística que flui de projeto em projeto, mas têm uma enorme consistência no entendimento da cidade de forma plena, e essa condição só se atinge quando se consegue dialogar e integrar paradoxos numa solução. E, no atelier, tínhamos estas duas condições: uma, mais à Siza, e outra, mais generosa do urbano e da cidade; que coexistiam, e bem. Sendo que o Manuel (Aires Mateus) representava o foco mais compositivo da disciplina da arquitetura e o Gonçalo integrava tudo numa solução, porque tem essa enorme habilidade.

Lembro-me de que, quando comecei, estava a fazer-se o concurso da Reitoria da Universidade de Aveiro, que estava a ser desenvolvido pelo Paulo David – há muita gente que ali fez uma aprendizagem muito importante – acompanhado mais de perto pelo Manuel (Aires Mateus), com uma solução muito abstrata e bonita. E há um momento em que o Gonçalo intervém, e faz girar todo o Campus em torno daquele edifício, põe-no numa posição de charneira, e, dentro dele, abre uma pequena cidade, onde se distribuem aquelas funções todas que era preciso distribuir, com hierarquia, com praças, com ruas… tudo dentro daquele pequeno edifício! Naquela altura, eu andava por lá a fazer maquetes, e nem percebia muito bem nada daquilo. Mas há um dia, depois da entrega, em que o Gonçalo faz uma conferência e descreve o projeto e, aí, percebi tudo! E isto era impressionante! E estas coisas parecem-me, ainda hoje, mais entusiasmantes na arquitetura – e provavelmente estarei errado – do que os focos muito intensos sobre as condições mais compositivas e fotográficas da arquitetura.

Ao contrário do João Luís, o Gonçalo Byrne nunca exigiu uma espécie de exclusividade. Ele entendia o atelier como uma espécie de escola, onde que as pessoas entram e saem (e não sei porque é que eu ainda não saí…). E isso era potenciado pela hipótese de se poder continuar a trabalhar fora. E comecei, com a Maximina, a trabalhar com o Paulo David. Saíamos cada um dos seus trabalhos, eu saía com o Paulo e íamos para casa dele. Tínhamos lá um pequeno atelier, saíamos às cinco da tarde, e ficávamos lá até às 2 da manhã. A trabalhar, a fazer o que tínhamos de fazer. E, no dia seguinte, estávamos às 10h da manhã no atelier do Gonçalo. E a possibilidade de ter esta vida dupla – de que na época nós gostávamos, por causa do entusiasmo da arquitetura, mas que, um bocadinho mais maduro, ainda hoje a mantenho, porque fiquei a meio tempo no Gonçalo – dá-nos a possibilidade de trabalhar e refletir a duas velocidades, e a duas distâncias, e deu-me mais capacidade de analisar o que andávamos a produzir. Passando até a ter uma vida tripla, quando me convidaram para dar aulas na Autónoma!

Tudo isto resulta numa espécie de tripla personalidade, que incide sobre o mesmo objeto e acho que é mais entusiasmante do que ter apenas um registo. São registos diferentes, a olhar sobre o mesmo, e cada um acrescenta ao outro. Hoje em dia, se me perguntassem se queria ir trabalhar com o Siza, eu dizia logo que não! Não aguentaria - e é um problema pessoal, não é um problema do Siza - viver apenas num registo único. Só este pendular entre vidas é que me preenche. E tento que elas sejam relativamente estanques. Por questões éticas. Tento nunca estar numa posição de uma poder beneficiar a outra. Isso é uma questão que me preocupa o suficiente para ter as coisas autónomas.

 

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E essa é a tua estratégia de sobrevivência face àquilo que a arquitetura se está a tornar?

Nunca tinha ligado muito bem essas duas coisas, mas sim. Também um pouco por esta possibilidade de análise tripla e porque, como já referi, gosto muito de arquitetura e custa-me dizer que gosto mais deste do que daquele – meto no mesmo saco o Niemeyer e o Stirling - são distintos, mas cada um tem coisas muito interessantes para nos dizer. Neste momento, intuo uma espécie de condição hedonista da arquitetura portuguesa, que se está a focar numa espécie de consistência regional – que afirma que a arquitetura portuguesa é “isto”. E esse “isto”, vive numa sociedade que pouco tem para investir em arquitetura, e parece-me que, mais cedo ou mais tarde, o investimento global em arquitetura acabará. O contraponto será a Suíça, que, nessa condição de uma certa consistência regional, tem uma sociedade que investe na arquitetura, e é extraordinário quando isso acontece. E não me parece que isso esteja a acontecer com a arquitetura portuguesa, nesta sociedade, que é muito menos estruturada e exigente, onde facilmente se hierarquizam temas que não são hierarquizáveis. Às vezes, fico surpreendido com frases, em conferências, que vão confirmando esta tendência de uma certa condição aristocrática do arquiteto, que se vai encerrando numa forma de fazer, de escrever, de atuar. Este parece-me um caminho que vai limitando, cada vez mais, o que é a arquitetura portuguesa, em vez de explorar claramente a possibilidade que está embebida naquela arquitetura que vem da arquitetura chã: a de otimizar todos os recursos, otimizar todas as oportunidades, de levar tão longe quanto possível, com pouquíssimo material, soluções. Que depois perduram e resistem, porque, pura e simplesmente, não perderam nenhuma oportunidade!

Eu gosto bastante de olhar para as arquiteturas vernáculas do mundo inteiro. Em todas elas se reconhecem estes fios condutores de decisões, que, de geração em geração, vão otimizando soluções. É claro que se vão otimizando para uma visão estreita do território, para aquele bocadinho do território. Mas, se conseguirmos aprender a estratégia e espelhá-la para o mundo, eu acho que é mais entusiasmante. Por isso, custa-me um bocadinho esta espécie de condição de mono-imagem da arquitetura portuguesa. Preferia que ela fosse muitíssimo mais plural do que me parece estar a acontecer.

 

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