Telmo Cruz - parte 2

 

Entrevista Completa
em pdf:  http://hdl.handle.net/11144/2995

 

Por estar a construir-se uma imagem, que é, de alguma forma, mais única e mais reconhecível internacionalmente, mas não pelos portugueses, e é algo elitista? Ou porque nós não temos cultura arquitetónica, como sociedade e, portanto, não reconhecemos a qualidade intrínseca das coisas?

É claro que a sociedade portuguesa não tem a capacidade de reconhecer os valores com os quais a arquitetura portuguesa pode contribuir para a sociedade – não faz parte das prioridades de nenhum governo, desde que eu me lembro.

Mas o que eu estava a dizer é um bocadinho diferente. Realmente, esta restrição das expressões da arquitetura portuguesa, eventualmente mais nos media do que na realidade (mas também não presumo conhecer muito mais realidade do que aquela que vem nos media) parece estar a construir uma espécie de marca da arquitetura portuguesa, que não é suficientemente rica para resistir àquilo que é a real complexidade do mundo. E, quando se passa a ter encomendas a arquitetos portugueses por via desta condição de branding, eles ficam numa posição muito fragilizada. Porque se espera que produzam determinada coisa. Mas as condições são sempre absurdamente distintas, em cada projeto, consoante os territórios.

Este fim-de-semana, houve um encontro luso-espanhol. Neste evento, a arquitetura espanhola quase sempre foi referida como sendo uma arquitetura mais real – isto são as palavras do (Rafael) Moneo – face a uma arquitetura portuguesa, mais abstrata. E eu acho que isto é uma redução! Não corresponde à realidade. E estamos todos muito entusiasmados com esta condição mais abstrata, mas, esta sim, parece-me um beco sem saída.

 

De alguma forma, os arquitetos que fazem parte deste leque mais reconhecido, mais até a nível internacional do que nacional, foram beber inspiração à arquitetura popular portuguesa e a outros mestres internacionais. Hoje, achas que o facto de os nossos alunos (da Autónoma) virem de todo o mundo, e não conhecerem necessariamente a arquitetura popular portuguesa, vai alterar alguma coisa? Há aqui uma quebra de um elo qualquer, não há?

É essa quebra do elo que tem contribuído para que exista esta espécie de restrição daqueles que podem ser os temas da arquitetura. Há temas que passaram a não ser tema. Há temas tabu! Se alguém quiser ter uma conversa disciplinar sobre conforto, vai ter inúmeros problemas. Não é tema!

Ora como na Autónoma me convidaram para dar aulas de Construções, é esse o meu tema! Vivo muito no utilitas e no firmitas, e parece que a arquitetura portuguesa vive só no venustas. E isto não faz sentido nenhum! Claro que não deixa de haver uma espécie de tensão, saudável, entre as cadeiras mais instrumentais, de ofício, como as Construções, destinadas à produção de um objeto arquitetónico construído, e as cadeiras mais livres. No entanto, admito que a construção é um meio, posso admitir esta condição, e que a arquitetura, que precisa desta disciplina, pode viver com inúmeras construções, o mesmo significado pode ter corpos distintos. Se há uma coisa que eu tento fazer na Autónoma é não fazer aquilo que odiei na escola. E aí, sim, odiei as cadeiras de Construções, que se posicionavam de uma maneira autónoma da cadeira de projeto, até aristocraticamente autónoma. Como se houvesse um corpo perfeito de conhecimento, autónomo de Projeto. Aquilo era um paradoxo que não fazia sentido nenhum e, quando comecei a pensar como ia lidar com isto - porque eu nunca tinha dado aulas, sou dos professores mais recentes da Autónoma, dou aulas há sete anos e a escola começou há quinze, todos os meus colegas têm um percurso académico muito mais extenso - a primeira que coisa que pensei foi ver se conseguia fazer a interligação com a disciplina de Projeto. Fui sempre, ao longo destes anos todos, procurando a melhor articulação destas disciplinas.

No 4ºano a experiência é quase sempre a mais equilibrada, é aquela que permite à disciplina de Construções (na UAL chama-se Tecnologias) acompanhar mais de perto as decisões de Projeto e fazer com que estas decisões se tornem suficientemente amplas e complexas para integrarem tudo no momento da decisão. Correu sempre muito bem. No 3ºano, já foi mais difícil, e no 1ºano… é um desafio! É um desafio por serem alunos novos, que vêm da escola secundária com outro tipo de preparação, mais distante daquilo que seriam instrumentos necessários para a Arquitetura. Portanto, temos de arranjar uma maneira de colmatar esse hiato, e há que ser muito direto nesta aquisição de instrumentos; é por isso que os alunos do 1º ano andam a fazer levantamentos e a desenhar, porque lhes falta essa possibilidade de comunicar rigorosamente ideias, mas com as frases da arquitetura, com os desenhos da arquitetura.

No 2ºano, que ainda é uma experiência recente, tenho estado a fazer o primeiro reconhecimento das qualidades de alguns materiais. Que será o omnipresente betão, que é um dos materiais mais utilizados na arquitetura atual. Depois o tijolo, como um contraponto, um material que é feito de outra maneira, que vem às peças, para o qual é preciso imaginar as possibilidades expressivas que o tijolo tem versus as possibilidades expressivas do betão. E tem corrido bem, tem-se conseguido articular com Projeto.

E o 5ºano… é um ano muito sofisticado! Quer o atelier da Inês Lobo, quer o do Francisco Aires Mateus, são ateliers que, para aumentar muito a intensidade do trabalho dos alunos, exigem focar muito precisamente, no caso da Inês, num território quase sempre urbano, no caso do Francisco num território normalmente menos consolidado. O que exige uma certa estanquidade da forma do ensino. E esta estanquidade é no sentido de conseguir não destabilizar, não desfocar, e, ainda assim, fazer aparecer decisões que estão mobilizadas por coisas externas, no caso, materiais de construção, oportunidades. O 5º ano é todo ele muito sedimentado na Matéria, em Energia (são os grandes chapéus que vão voando sobre os temas) e o desafio tem sido, sem perturbar e sem desfocar, introduzir estes temas, que são temas globais.

 

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Sendo a tua área diferente de Projeto, como vês a relação entre a Investigação, a Prática Profissional e o Ensino?

É um tema muito difícil. Por um lado, há alguns fatores que influenciam esta relação. Um deles é a forma como o investimento da investigação é feito em Portugal, porque a investigação não vive sem financiamento, sem recursos. E tudo funciona muito bem quando a profissão e a investigação se confundem, quando temos a investigação em laboratório de química, por exemplo. Assim que a profissão, o dia-a-dia de quem investiga, se divide em profissão-investigação, esta forma entra em crise e, na prática, até por questões regulamentares, exige que se escolha um. Se queres ter profissão, é profissão, se queres ter investigação, tens investigação. Este é um problema nas profissões criativas, e julgo que nas humanísticas também, e não será um problema nas matemáticas puras, na química, profissões em que o laboratório se confunde coim a profissão. O que isto tem como consequência perversa é ter reduzido a um consenso que diz que investigar é “isto”. E qualquer projeto de arquitetura, feito em condições intensas de arquiteto de nível elevado, exige um empenho e um foco tão intenso sobre o objeto de estudo… o número de horas de trabalho de uma equipa de projeto de um edifício pequeno, não precisa de ser um muito grande, excede largamente o número de horas necessárias para fazer um doutoramento! E este esforço, este empenho real, de investigar arquitetura, com o material arquitetura, cabe em nenhuma “gaveta” daquilo que é considerado investigação em arquitetura. Mas depois vemos a investigação formal, a académica, mais estabilizada, usar como objeto de estudo todo aquele esforço! É um paradoxo!

Eu não presumo, nos meus projetos, estar a gerar material tão intenso, mas há muitos casos na arquitetura portuguesa em que isto é assim! Qualquer projeto realizado pelo Gonçalo (Byrne), pelo (Álvaro) Siza, ou por um (Manuel) Tainha, é, por si só, uma tese intensa de investigação. Não tem forma de doutoramento, nem de mestrado, mas tem essa condição. Não seria mau imaginarmos como alterar isto. Não faz sentido dizer a uma pessoa “-Escolhe entre isto ou aquilo”, porque na prática está a fazer os dois…

Ocorreu-me agora uma coisa que o Gonçalo Byrne disse numa conferência: «Eu prefiro a palavra “E” à palavra “OU”! Eu prefiro incluir do que ter de escolher, porque é muito mais entusiasmante!». Isto sintetiza o ponto por onde começámos a falar, sobre a generosidade com que ele atua. Porque nos falta muito este “E”! A estrutura da cidade está muito sustentada nos “OU” e pouco nos “E”. Mas todos nós, individualmente, podemos praticar o “E”! Não custa nada e é muito económico!

 

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Fizeste-me lembrar uma pequena conferência do Frédéric Druot, que trabalhou com os Lacaton e Vassal, que partia da frase “To give is more!”. E ele falava muito da ideia do esforço do arquiteto, como a pessoa na sociedade que tem a possibilidade de dar como missão. Dar mais do que as pessoas esperariam no início…

Isso seria a razão pela qual todos os jovens quereriam ser arquitetos. Quando existe essa oportunidade de tornar isso consciente, e não perder essa vontade, acho incrível! O risco é um bocado aquilo que anda a acontecer com estas arquiteturas “do social” (ou do pobre), quando fazem afirmações do tipo “não me interessa nada esse mundo aristocrata da arquitetura, interessa-me o mundo pobre da arquitetura” (os Lacaton e Vassal até são dos mais equilibrados porque os resultados são realmente entusiasmantes). E isto não existe! Não existe esta polarização. Quando é bom, é arquitetura! Não é por ser pobre, nem rico. É dizer “Quando há arquitetura, ela está cá”. Quando está para resolver problemas, está, quando é para ser é para ser! Há imensas coisas que são, apenas são.

Nós olhamos para o Palácio da Ajuda, que agora vai levar aquele acabamento, e, essencialmente, é! É uma representação de poder e não deixa de ser arquitetura por causa disso. Há sempre esse risco de selecionar só uma parcela do problema. E eu acho, que seja uma coisa feita com cinco tostões ou cinco milhões de euros, desde que haja intensidade na forma como olhamos para o assunto e na forma como aquilo que estamos a propor pode interferir no futuro do território, seja ele extenso ou não, é incrível! Que profissão pode dizer que está a contribuir, materialmente, fisicamente, para o futuro? Qualquer trabalho de arquitetura que se faça, marca o futuro. Diretamente. Não há muitas profissões que tenham esta condição.

 

E como vês o futuro da profissão?

Obviamente, todos estamos preocupados com a falta de recursos. Vamos todos ter de nos continuar a adaptar. É muito diferente para um jovem que saia agora da universidade, comparando com a facilidade com que saí da escola, fui para o João Luís, depois de bater a várias portas, 3 ou 4 (não foram umas centenas), e, depois, fui para o Gonçalo.

Fomos nós que fomos construindo esta condição… quando os recursos começam a ser contabilizados, há uma maior exigência. Tenho tido uma espécie de obsessão sobre a qualidade da decisão. Qualificar uma decisão é uma obrigação de todos. Quais são os mecanismos que conseguimos encontrar para melhorar a qualidade das decisões? Sejam eles quais forem. Sejam as que nós tomamos todos os dias, seja as que os governos tomam todos os dias.

Muito do esforço tem sido feito pela via dos recursos. Quando aparece a palavra recurso, ele começa a embeber-se nos processos, a fazer-se sentir como material qualificador. E eu acho bem, mas penso que se têm de arranjar condições para que isso possa permear todos os processos. E não é evidente que os organismos de decisão que temos na sociedade portuguesa o façam, pelo menos do ponto de vista técnico. O Estado tem perdido qualificações técnicas, em favor de jurídicas, a um ritmo galopante. Quando vemos uma decisão, uma Lei, pergunto-me logo “Onde está o estrato que qualificou tudo isto? Porque é que houve esta decisão? Porque é que esta decisão é melhor do que outra qualquer?”

E, se entendermos esta condição de deixar que o recurso, como conceito, permeie todos os processos, eu diria que não vejo o futuro da arquitetura muito mau porque estamos qualificados para lidar com isto.

Independentemente da escassez…

Sim, independentemente da escassez. Preocupa-me é que a escassez esteja não sobre o objeto do estudo, mas sobre quem estuda! Faz-me muita impressão que, em muitos casos, a escassez de recurso de estudo de projeto leve a um compromisso de maior custo na obra. Isto não faz muito sentido! E aí têm de ser os arquitetos a mexer-se para a provar que não deve ser assim.

 

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Já que estamos em período de eleições para a Ordem dos Arquitetos, achas que estes temas deviam ser alvo de debate?

A Ordem existe como regulador de uma atividade profissional, é uma delegação do Estado numa meia-dúzia de pessoas, que têm de regular a Ética e Deontologia. Mas isto não é sedutor, não ganha eleições, e, portanto, é um discurso que está sempre meio escamoteado, meio esquecido. E, na Ordem dos Arquitetos, percebe-se muito que as questões culturais, como conferências e exposições, recolhem muito mais favores e empenho dos membros do que estas. E isto tem enfraquecido as Ordens.

E acho que o Código de Deontologia da Ordem dos Arquitetos está vetusto, já estava vetusto no momento em que foi feito. É uma dificuldade das Ordens. Todos os arquitetos têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. E isto, que é de uma grande evidência, já não é evidente se eu disser que nem todos os arquitetos são iguais. Sem retirar nada da primeira frase, a segunda também tem de existir. E este é um tema muito difícil dentro das Ordens. Dizer que nem todos são iguais mas que todos têm os mesmos direitos e deveres…

 

Esta semana fiz uma viagem a vários ateliers por todo o país e houve um aluno que me fez uma pergunta que agora te coloco a ti, de forma a poderes falar um pouco sobre o teu atelier, o MXT Studio: Foi mais fácil a passagem da universidade para ir trabalhar num atelier de arquitetura ou sair de um atelier de arquitetura para fazer o teu próprio atelier?

Eu nunca saí! Mas muito pelas razões que expliquei, porque até hoje nunca deixei de estar entusiasmado com as possibilidades que o Gonçalo nos tem posto em cima da mesa. Por isso, não sei se tenho uma resposta muito precisa para dar. O que posso dizer é que trabalhar para um atelier é estar num ambiente protegido. Não é o mesmo que ter um atelier próprio. Trabalhar naquele mundo confortável, em que temos só o tutano da disciplina, sem ter o “sujo” da profissão, é muito bom, é excecional. Ter um atelier exige lidar com o “sujo” da profissão, mas, quando bem balançada, esta condição que a profissão tem de gerar autossuficiência não deixa de ser incrível!

Recentemente, fizemos duas pontes, uma sobre a 2ª Circular, e uma sobre a Linha do Norte. São dois processos que, desde o arranque, são absolutamente diferentes. Um era um concurso internacional, com imensos concorrentes e com um júri convidado que era muito bom. Depois, tivemos um privado a “roer o osso” até ao fim. Este era o da 2ª Circular. O outro era um daqueles processos mais focados nos honorários e na metodologia, com a consciência de que o recurso tempo vai ter um limite, o que nos fez dizer, desde o primeiro momento, que tínhamos de encontrar uma solução que, do ponto de vista da execução, caiba em determinado tempo, que seja muito restrita naquilo que exige, e extraordinariamente inventiva a ultrapassar condicionantes que estavam no regulamento do concurso. Na prática, pediam duas pontes e nós fizemos uma. Fazer uma ponte é sempre mais barato do que fazer duas, e nós fazíamos o mesmo atravessamento. E ganhámos, e está construída, e é verdade que, no fim, uma tem uma restrição geométrica muito precisa, que era para poder ser desenhada de uma forma muito eficaz, a outra era muito mais exuberante porque tinha de passar este crivo do concurso internacional. Logo ali, no arranque houve esta consciência destas duas condições.

A ponte da 2ªCircular ganhámos por sorte! Aquele concurso teve um reboot e só por isso é que conseguimos concorrer, porque as propostas que tínhamos em cima da mesa não estavam a correr nada bem. Com aquele reboot, ganhámos outro fulgor. Apareceu o X em cima da estrada e, com aquele X, começámos a coser outros caminhos, que já lá estavam - entendíamos que esta ponte podia ser uma espécie de protótipo de uma rede que passava por cima daquilo tudo. E foi por aí que aquilo seguiu e, é claro, ficámos muito contentes!

Ganhámos esse concurso dois dias depois de ganhar o do Centro Náutico de Abrantes. Foi uma semana extraordinária!

E a verdade é que isto foi feito num atelier pequeno. Hoje em dia, qualquer aluno que sai da universidade, tem provavelmente mais recursos do que aqueles que eu tenho. Com estes recursos de informática e de renders (3D), que eu não tenho pessoalmente, qualquer grupo de três ou quatro alunos pode dar respostas incríveis nestes processos. E, infelizmente para nós que temos estruturas mais exigentes, as estruturas ligeiras, que se podem montar para responder a concursos de arquitetura, podem dar arranque a coisas incríveis. Muitos dos ateliers que conhecemos, publicados, aqueles espanhóis Barozzi e Veiga, são um exemplo. São ateliers muito ligeiros no início, que depois ganham concursos, e vão por aí a fora até serem quem são agora. Portanto, qualquer estudante da Autónoma pode lá chegar!

 

 

Para citação: RAMALHETE, Filipa; CARIA LOPES, João; – Entrevista a Telmo Cruz. Estudo Prévio. Lisboa: CEACT/UAL - Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2016. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]