PEDRO REIS - 1ªPARTE

© Pedro Frade - Todos os direitos reservados

Entrevista Completa
em pdf: http://hdl.handle.net/11144/2687

 

É com enorme prazer que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor Pedro Reis. Seja bem-vindo! Queríamos por começar por pedir que nos contasse o seu percurso académico como aluno, como foi o seu curso de arquitetura, que professores e exercícios marcantes é que teve.

 

 

 

Em primeiro lugar queria agradecer a oportunidade para participar num projeto da UAL que eu acho que é ótimo e que nos ajuda a desenvolver a ideia de escola e de todas as atividades que passam por lá.

A minha ideia para vir para arquitetura começou muito cedo. Quando era adolescente já tinha a noção de que era um curso que eu gostava de fazer. Já gostava imenso dos edifícios, do espaço.

Eu cresci numa casa muito grande, que era uma casa muito bonita, em Silves, no Algarve. Tinha sido desenhada por uma arquiteta, claramente influenciada pelo Raul Lino, era uma casa muito bonita, uma casa especial. E desde muito cedo senti, também com a influência de uma série de pessoas que estavam à minha volta, que a arquitetura era uma coisa que realmente fazia sentido e de que eu iria gostar. Obviamente, sem saber nada sobre o que era arquitetura, mas já tinha, de certa forma, alguma sensibilidade para os espaços e gosto pelos edifícios e pela construção.

 

Estudei até ao nono ano, em Silves, no Algarve, e depois, com a ideia de vir estudar para Lisboa, para uma escola já direcionada para as artes, vim para a  (Escola Secundária Artística) António Arroio. E foi também uma oportunidade para sair de casa porque, de facto, viver numa cidade pequena não era uma coisa que me interessava muito. E vim viver sozinho, com 15 anos, o que na altura não era uma coisa normal, com grande coragem dos meus pais – não minha, porque eu vinha ligeiramente inconsciente - e, simultaneamente, de confiança. E, por isso, tinha de correr bem. E correu bem, fiz a António Arroio.

 

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A partir daí havia a questão de ter boas notas para entrar na Universidade. Nessa altura já era difícil entrar em Lisboa e o Porto tinha, de facto, uma nota mais baixa e era a escola para onde eu queria ir. Eu não percebia nada de arquitetura. Tinha algumas noções básicas e, no fundo, eram os amigos e pais de amigos que sempre me disseram que a escola do Porto era melhor, na altura. Tinha um ensino muito mais rigoroso, já tinha uma história, relativamente às décadas anteriores, de ser uma escola bastante diferente de Lisboa e muitos dos futuros arquitetos iam estudar para o Porto. E lá fui.

Foi uma mudança para uma cidade nova, que não conhecia. Também gostava da ideia do Porto… O granito intenso, o nevoeiro! Todo aquele universo era uma coisa a que eu achava alguma graça! E foi muito simples. Tinha colegas que foram comigo para o Porto, mas depois conheci o Rogério Gonçalves, o José Adrião. Como a escola era relativamente pequena, nós conhecíamos pessoas de vários anos. Não havia a tendência de fazermos amizades só do próprio ano. E eu, talvez por ter alguma autonomia, por viver sozinho há bastante tempo, aproximei-me de pessoas mais velhas, que já estavam mais autónomos, e também porque era mais estimulante para mim… E rapidamente me integrei na cidade e no circuito dos jovens estudantes e da escola.

 

O primeiro ano na escola do Porto foi, de facto, um ano muito marcante. Não por ter logo a sorte de ter um ótimo professor - quando cheguei praticamente não tive professor, porque ele estava a fazer um doutoramento e por isso pouco passava por lá, e acabei logo por ter de ir à procura de outros professores que me conduzissem nos trabalhos e nos apoiassem no projeto – mas foi muito marcante pela cadeira de Desenho. Porque foi uma cadeira que nos obrigou a observar, e isso para mim foi uma revelação enorme. Obviamente que as cadeiras de Projeto e de História – que era o professor Fernando Távora que dava - eram fantásticas e nos faziam entrar no mundo da Arquitetura de uma forma fascinante – mas a cadeira de Desenho foi a que me deu uma ferramenta para eu poder olhar para o mundo de uma forma completamente diferente. A partir do momento em que aprendemos a desenhar, aprendemos a observar. E isso é uma ferramenta de projeto fundamental.

 

Entre o 1ºano e o 2ºano houve um interregno de um ano, fui para a tropa e quando voltei já vinha com mais maturidade e também já apanhei na turma outras pessoas. Conheci o Nuno Brandão Costa, que depois foi sempre um dos meus amigos mais próximos, o Francisco Vassalo e muitos outros. Criámos aí um novo grupo de amigos, já diferente do grupo que tinha inicialmente, mas tive sempre esta relação com os alunos mais velhos e que andavam mais à frente, o José Adrião, o Paulo Seco, o Pedro Pacheco, o Francisco Vieira de Campos e a Cristina Guedes. Parte deste grupo tinha começado a fazer um atelier que era o Atelier dos Almadas, que era um atelier fantástico porque nós estávamos todos fora de Lisboa – e como apanhámos a transição entre as Belas-Artes e o novo Pavilhão Carlos Ramos, o espaço da escola era um bocado exíguo e, portanto, não havia grandes condições para trabalhar – era de facto um universo de grande intensidade! Nós quase tínhamos uma escola paralela. Numa segunda fase, entrei para esse atelier e aquilo era a nossa segunda casa. Divertíamos, obviamente, mas o trabalho era o centro da nossa vida.

 

Em relação à Escola do Porto, o que a escola nos propunha era uma aprendizagem sobre metodologia de trabalho, através de uma série de ferramentas, para o desenvolvimento do projeto, para as leituras da cidade, do território, das relações sociais. E isso foi a coisa mais importante que a escola nos ofereceu. Mas, ao mesmo tempo, era bastante rígida na forma como estruturava os exercícios, os objetivos e os campos de exploração. A partir de certa altura, nós começávamos a ver revistas de arquitetura e a conhecer outros arquitetos. A escola também se empenhava a fazer conferências. Houve uma fantástica, que e marcou imenso a minha geração, veio o Jaques Herzog, o Peter Zumthor, o Giorgio Grassi, o David Chiperfield, que eram arquitetos que estavam a ter os seus primeiros trabalhos importantes (exceto o Grassi) e isso chegou com uma frescura enorme para a escola e, de facto, marcou esta geração.

 

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Ao mesmo tempo, eu sempre tive vontade de conhecer coisas novas, de viajar e de ter contacto com realidades diferentes. Não só como turista, mas conhecer maneiras novas de funcionar e de como as sociedades se organizam e, portanto, no 4º ano, quis ir para Londres. E aproveitei a oportunidade de haver o Erasmus (provavelmente apanhei o 2ºano de Erasmus) de tal forma que nem havia candidatos, acabei por receber uma dupla bolsa. Fui com o Francisco Vassalo, que também teve uma dupla bolsa, e fizemos um ano em Londres. Fomos para o Politécnico de Southbank, que hoje é universidade. Foi uma aventura fantástica, porque fomos entrar num sistema de ensino completamente diferente. Não havia propriamente uma metodologia de trabalho, havia vários ateliers e várias linhas de orientação de projeto, com temas variadíssimos, com abordagens variadas, com temas de projeto completamente diferentes, e isso para mim foi uma lufada de ar fresco. De repente podia pensar em projeto de uma maneira completamente diferente, passar um ano a refletir sobre a forma como nos relacionamos com o mundo e, a partir dessa experiência, partir para uma ideia de projeto.

Havia um campo de exploração muito alargado, o que era muito refrescante e entusiasmante ao mesmo tempo. Podíamos conhecer a cidade, com uma arquitetura completamente diferente da que se possa ver no Porto

 

Eu já tinha conhecido Londres como turista e também já tinha lá estado a trabalhar no verão, no 3ºano – eu sempre trabalhei no verão, até antes de vir para arquitetura já tinha trabalhado em campos arqueológicos, trabalhei dois verãos a fazer um levantamento arquitetónico da construção em terra do Algarve, com o arquiteto José Alberto Alegria – porque conhecia o Jorge Carvalho e a Teresa Novais que estavam a trabalhar no Chiperfield e no Foster e fui para lá trabalhar no verão, para o atelier do Staton Williams, que era um atelier com ótima arquitetura e com ótima qualidade. Fiz aqueles trabalhos de verão… passar desenhos a tinta, fazer maquetes e tal.

 

A seguir voltei para o Porto, e apanhei outra alteração que foi a transferência da Arquitetura das Belas Artes do Campo Alegre para a nova Universidade de Arquitetura já desenhada pelo arquiteto Álvaro Siza. E, nessa transição, o ano de estágio curricular passou para o 5ºano e fui fazer o estágio para o atelier do arquiteto Fernando Távora. E foi um estágio absolutamente fantástico, com uma pessoa com uma sabedoria, inteligência e sensibilidade fantásticas e que me deu uma primeira abordagem sobre o que é o desenvolvimento do projeto, o acompanhamento da obra. Mas, sobretudo, mais do que o que se aprendia em projeto, foi a convivência com o arquiteto Távora a coisa mais importante.

 

Depois do estágio, o 6ºano foi um ano mais dedicado ao urbanismo, com uma intervenção de larga escala. Ao mesmo tempo, comecei a trabalhar, com o arquiteto José Fernando Gonçalves, num projeto para o arquiteto Souto de Moura para o centro de estudos empresariais na Maia. Como eu já tinha passado um verão no atelier do arquiteto Souto Moura a acabar (de passar a tinta) um projeto de execução para o Pavilhão de GeoCiências da Escola de Aveiro – surgiu a oportunidade de continuar nesse trabalho e acabei por ir trabalhar para com o arquiteto Souto de Moura, onde fiquei mais quatro anos.

 

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Depois dos quatro anos no atelier do Souto de Moura, sei que ainda viajaste para outro país? Tiveste sempre esta vontade de ir à procura de outras fontes?

 

Sim. Para mim o percurso com o Eduardo Souto de Moura foi muito marcante. Eu comecei num projeto que já estava numa fase de projeto de execução, quase a começar a obra e, de certa forma, eu era a pessoa com mais conhecimento sobre o projeto, e tive logo um primeiro contacto, duro, com a realidade de enfrentar uma obra. Acabei de sair da universidade e tive logo de acompanhar uma obra relativamente grande, que era o Centro de Estudos Empresariais na Maia, uma obra que depois não chegou a acabar… Mas foi logo um primeiro contacto com a realidade de ter de produzir desenhos, de dar uma resposta… E isso deu-me, de certa forma, alguma confiança para depois começar a desenvolver uma série de outros projetos no atelier e tive a oportunidade, com o Eduardo, de trabalhar numa serie de projetos, desde casas a grandes edifícios, e em todas as fases do projeto. Até que, depois, acabei por sair porque queria ir fazer outra coisa, não que não gostasse de trabalhar com o Eduardo, sempre gostei e que ainda hoje somos amigos, mas tinha outros desafios pessoais e era importante fazer essa mudança. Mas foi, sem sombra de dúvida, o arquiteto que mais marcou a minha formação.

 

A seguir foi um salto para Nova Iorque! Fui porque queria mudar de vida. A ideia era inicialmente vir para Lisboa, mas depois percebi que não ia fazer nada em Lisboa. Na altura não havia mais nenhum arquiteto com quem fizesse sentido trabalhar. Depois de estar no Souto de Moura ainda estava um bocadinho embebido naquela intensidade toda! Porque eram muitas horas de trabalho, muito intenso, todos os dias. Nós dedicávamo-nos imenso ao atelier, a minha vida era praticamente trabalhar, com todo o gosto. Mas não fazia muito sentido, depois de estar com o Souto de Moura, trabalhar com outro arquiteto em Lisboa. E então acabei por decidir ir para Nova Iorque.

Foi um salto enorme. Não em termos de escala de trabalho porque até fui para um atelier relativamente pequeno, por opção. Assim que cheguei a Nova Iorque, depois de ter estado a trabalhar com o Eduardo, tinha um passaporte… eu não tinha essa noção, mas, ao fim de uma semana, já tinha não sei quantas ofertas de emprego. Tinha a hipótese de ir para grandes ateliers, como o SOM ou outros grandes, mas de facto era uma escala que não me interessava. Não tinha a intenção de ficar muito tempo em Nova Iorque e apetecia-me entrar no universo de projeto, na relação que se estabelece com todos os atores do processo do projeto e da construção. E então optei por ir para um atelier mais pequeno, o de Toshiko Mori, que é uma arquiteta japonesa que já há muitos anos que trabalhava em Nova Iorque e que tinha feito uma série de casas na Florida e mais alguns projetos de interiores em Nova Iorque, e tinha a possibilidade de fazer uns projetos novos na Florida e, isso para mim foi determinante, porque podia acompanhar a conclusão de uma obra, num espaço de dois anos, era mais útil do que estar num atelier grande a fazer (desenhar) casas-de-banho, por exemplo.

 

Esse trabalho foi importante porque percebi como funciona todo o sistema de acompanhamento de obra, todo o sistema da relação com as empresas de construção, a questão da legislação, que é uma coisa que se tem de perceber, porque é um constrangimento enorme para o projeto, era um desafio. Ao mesmo tempo, a obra na Florida era uma oportunidade de conhecer mais a América. Foi muito interessante.

Esse período de Nova Iorque foi um período de descoberta da cidade, da arquitetura, de começar a perceber a importância da arquitetura numa escala tão grande como a cidade de Nova Iorque… de conhecer o Mies e uma série de edifícios que marcam a cidade… de facto, nessa altura, a arquitetura contemporânea não era muito interessante em Nova Iorque, a arquitetura dos anos 50 e 60 tinha mais interesse…

 

Depois a Toshiko era professora em Harvard, mais tarde veio a ser a diretora do departamento de arquitetura, e ainda tive a oportunidade de ir lá fazer crítica dos trabalhos aos alunos, foi uma experiência ótima, mas senti que “ou eu fico aqui para o resto da minha vida ou tenho de mudar”.