JOAO SANTA-RITA - 1ª Parte

 

É com enorme prazer que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor João Santa-Rita. Seja bem-vindo! Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico como aluno, como foi o seu curso de Arquitetura e se houve alguns professores ou exercícios marcantes de que ainda se lembra e que traz até hoje consigo.

 

Antes de mais, quero agradecer o convite para participar na revista Estudo Prévio. Eu ainda faço parte do grupo formado na Escola de Belas-Artes de Lisboa, do primeiro grupo expressivo de Lisboa, que no final dos anos setenta, iniciou o curso na Escola do Porto acabando por formar-se na sua maioria na Escola de Lisboa. Historicamente, o que era normal era precisamente o contrário. Os arquitetos de Lisboa, por motivos não só de qualidade mas também políticos, iam para o Porto completar o curso (porque, supostamente, o Porto acolhia os alunos expulsos de Lisboa).

 

Portanto, eu iniciei o curso no Porto. Foi um período curto mas muito marcante, sobretudo porque era um curso muito intenso – curiosamente era parecido com o curso que tínhamos na Autónoma, quando o curso se formou – porque, contrariamente ao curso de Lisboa, que na altura tinha dois ou três turnos, o curso do Porto tinha um só turno, tínhamos aulas das oito da manhã até às seis da tarde. Mas eram aulas de grande intensidade, de muito trabalho em atelier, onde trabalhávamos com o apoio dos professores. E eu tive nesse ano dois professores muito marcantes, o Sérgio Fernandez e a Luísa Brandão, sem eles nem sei se teria continuado em Arquitetura. A minha intenção nunca foi ter ido para Arquitetura, queria ter seguido Arquitetura Naval, era aí que estava focado o meu interesse, desenhar navios… mas o Sérgio Fernandez e a Luísa eram professores excecionais e com uma grande relação com o que era o estudo do projeto e com a importância do desenho, no processo do projeto.

 

Outro professor que tive foi o Fernando Távora. O Távora era um homem excecional, que nos falava de viagens que nós ainda não imaginávamos, que nos reportava a conhecimentos com os quais não tínhamos ainda qualquer espécie de familiaridade. Era um homem de um conhecimento profundo mas de uma simplicidade muito grande na comunicação e na proximidade com os alunos. Isto passa-se no final dos anos 70, o Távora já devia ter uns sessenta e tal anos e aquela distância que poderia naturalmente existir entre o Mestre e os alunos recém-chegados era destruída pela sua grande proximidade, pela sua facilidade de comunicação e por uma grande disponibilidade.

Um dos momentos muito importantes na Escola do Porto foi uma aula aberta em que fomos todos, durante uma semana, acampar para o Convento de Santa Maria – estavam a iniciar-se as obras da pousada, em Guimarães. Fomos todos para lá, chovia e fazia frio, mas nós eramos novos e resistíamos a tudo! E aquilo tudo, com os almoços em conjunto com os operários, era sempre bastante animado e com uma atmosfera muito intensa. Foi um momento bastante importante para perceber toda aquela envolvência da Escola do Porto, a relação que se estabelecia com os diversos contextos, com a realização de uma obra e aquilo que era, naturalmente, a forma de o Távora projetar. Foi para mim o ano mais marcante.

 

Depois disso havia um fenómeno que acontecia, até meados dos anos 80, em que quase todos nós estávamos integrados num atelier durante o curso. E “saltava-se” muito entre ateliers, trabalhava-se uns dias nuns, outros dias noutros. Se havia um atelier que estava a fazer um concurso, mobilizávamo-nos para participar e ajudar. E eu sentia necessidade de não ficar apenas ligado ao ensino da escola, era importante que este entrosasse naturalmente com a prática e aprendizagem nos ateliers.

Em Lisboa a escola era, naquele período, bastante mais fragmentada. Não possuía a coesão que existia no Porto. Uma das caraterísticas da escola de Lisboa dessa altura é que os anos eram muito diversos, as matérias eram diversas e a continuidade perdia-se muito facilmente. E por isso também era mais natural haver uma maior dificuldade em encontrar o mesmo grau de entusiasmo dos professores, que era uma coisa que se ia perdendo…

O que mais me marcou em Lisboa foi a continuidade da aprendizagem do Desenho. De facto, com a Luísa Brandão, no Porto, foi o grande momento, mas em Lisboa, o Daciano Costa – que era um homem que também tinha uma grande capacidade de ligação com os alunos – foi essencial para perceber para que é que servia esse suporte, essa ferramenta como extensão do nosso pensamento, procurando registá-lo.

A História também foi muito importante para mim, sobretudo no 3ºano, porque descobri uma quantidade de coisas que até lá me diziam muito pouco, do ponto de vista da ligação com a Arquitetura, tudo por causa e através da Maria Calado que é uma professora incrível, com um conhecimento e entusiasmo impressionantes, que nos provocava com um conjunto de matérias. Lembro-me que, nesse ano, introduziu-nos a leitura do Giullio Carlo Argan, sobretudo acerca do Neoclassicismo e os revivalismos – leituras que faziam parte do espírito daquele início dos anos 80, finais dos anos 70 – mas também nos introduziu os arquitetos, ditos revolucionários, como o Ledoux, e também arquitetos que tinham iniciado as revisitações da Arquitetura Romana, entre os quais, muito concretamente, o Piranesi. Foi esse 3ºano que me fez ter ainda mais paixão pelo curso de arquitetura.

 

E depois, mais tardiamente, um outro professor que entrou no nosso curso, o José Manuel Fernandes - curiosamente, depois, veio a ser um dos fundadores da Autónoma e pilar essencial naquilo que foi a construção da Universidade - trazia um olhar com leituras muito próprias que fazia sobre a Arquitetura, nos temas que trazia, que acabaram por ser extremamente importantes para um final de curso.

A escola, para mim, foi muito mais marcante naquilo que falávamos entre colegas e nessa construção que se foi fazendo, ao longo dos anos, da aproximação ao Desenho, da aproximação aos temas da História, através da vontade de aprofundar o conhecimento.

 

© Pedro Frade - Todos os direitos reservados

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Também houve um acontecimento importante no curso de Arquitetura, que aconteceu no meu 4º e 5ºanos, que foram as primeiras grandes conferências internacionais de Arquitetura em Portugal. Estamos a reportar-nos a tempos em que a divulgação da arquitetura chegava a Portugal com grande dificuldade, mesmo para os ateliers, não era fácil obter publicações, livros, etc. Para já não falar que antes de 1974, muitos dos livros tinham de entrar em Portugal por baixo dos bancos dos carros por serem considerados subversivos… O “Complexidade e Contradição”, do Robert Venturi, era subversivo…

 

As grandes conferências que tiveram lugar nas Belas Artes trouxeram personagens como o Peter Eisenman, penso que o Aldo Rossi, o Charles Jencks, o Charles Moore, não me lembro se veio ainda o Robert Stern, o Paolo Portughesi… Passaram todos pela Escola de Belas Artes e isso marcou-nos muito. Do ponto de vista de algum isolamento que conhecíamos em relação ao resto do mundo… era difícil chegar aqui e também era difícil sair daqui, não era fácil atravessar Espanha e os Pirenéus para chegar ao outro lado da Europa. Foi a primeira vez que ouvimos, em direto, falar um conjunto de personagens. Houve até um jornal diário que acompanhou uma polémica entre dois desses arquitetos e que publicou qualquer coisa relativa a diferentes posições sobre intervenções na cidade de Lisboa e isso não era, de facto, algo a que estivéssemos habituados no nosso quotidiano. E foram importantes porque nos deram a conhecer modos diferentes de viver e pensar a arquitetura e, sobretudo, modos radicalmente distintos, nalguns dos casos.

 

Mas havia sempre esta questão sobre o que é que tinha mais peso na nossa formação. Se era realmente a escola ou se era a formação fora da escola, nos ateliers.

 

Eu, naturalmente, estava próximo de vários arquitetos. Desde logo, do meu pai (José Daniel Santa-Rita). Mas também o Duarte Nuno Simões (meu tio), o Alberto Oliveira, e ainda o Manuel Vicente, foram pessoas com as quais trabalhei e convivi e com as quais naturalmente ia mantendo dialogo… e por isso há sempre a questão sobre o que, para mim, pesou mais, se foi a formação académica ou se foi esta formação. Ainda no outro dia falava com o Gonçalo Byrne e dizia-lhe: “Lembro-me de uma coisa na qual participou e que, hoje em dia, se contássemos parece quase impossível (mas isso revela a proximidade dos arquitetos nesses anos ): uma das equipas constituídas para o concurso do Martim Moniz foi uma equipa o meu pai, o Bartolomeu Costa Cabral, o Manuel Vicente, o Raúl Hestnes Ferreira e o Gonçalo Byrne!” Isto é uma coisa que ninguém imagina! Que equipa! Com este leque tão poderoso e diverso!

 

© Pedro Frade - Todos os direitos reservados

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O João Santa-Rita fez parte do 1º grupo de professores que formou o curso de Arquitetura da UAL – Universidade Autónoma de Lisboa. Trouxe, certamente, várias ideias que eram consequência dessas experiências que teve…

 

Sim. Penso que apenas não estive nas reuniões iniciais, restritas, entre os três fundadores do curso. Estive sempre presente nas várias reuniões que se fizeram para criar e estruturar o curso, para discutir quais eram as matérias, como é que iam ser ensinadas e integradas e a natureza das mesmas.

Desde logo colocaram-se questões. Uma coisa é um curso que está em continuidade e que se reformula, outra coisa é um curso que vai iniciar-se. Foram reuniões memoráveis, discutir o melhor de cada um, a pertinência de determinadas atribuições, procurando sempre que se encontrassem os que melhor podiam responder aos objetivos considerados. Até alguns aspetos que poderiam parecer contraditórios, de professores que tinham formações muito diversas e modos diferentes de produzir e de como é que se conjugavam, foram aspetos muito discutidos.

 

No início do curso - até um pouco por acaso - acabei por assumir a coordenação dos temas das Construções. O que mais me interessou nessa disciplina, acreditando na importância de a ligar ao conhecimento da História, foi, de alguma forma, procurar que fosse algo que acontecesse logo no início da formação, ao contrário do que acontecia noutros cursos. Que os alunos, independentemente de estarem preparados ou não, tivessem, o mais cedo possível, esse confronto com os aspetos informam a materialidade da arquitetura.

Isso acabou por ser algo que foi introduzido e, penso, aceite por todos. A certa altura criou uma certa distinção da estrutura da UAL, relativamente a outros cursos. Aliás não sei se será ainda hoje, dos poucos cursos, ou o único, que tem essa disciplina desde o primeiro semestre (porque agora é tudo aos semestres).

 

Mas foram momentos bastante estimulantes. Estivemos uns meses largos a pensar no curso, em ideias e em soluções e isso permitiu – graças à intervenção do José Manuel Fernandes, do Manuel Graça Dias e do João Luís Carrilho da Graça – pensar o curso e, se calhar, é graças a isso que ainda hoje tem o sucesso que tem. Pese embora as dificuldades todas, permitiu lançar um curso com bases sólidas.

 

Todos nós, de um modo mais ou menos continuo, tínhamos conseguido estar ligados ao ensino, ao longo da nossa vida, e transportámos para o curso aquilo que cada um idealmente imaginava que poderia ser o ensino de uma determinada disciplina. Eu, pessoalmente, não pensei no que é que eu gostava de ensinar, pensei no que é que eu gostava de aprender. Pensava assim: “O que é que me faltou, quando eu era aluno destas disciplinas?”, “Do que gostaria que um professor me falasse?”, “De que forma é que gostaria que este se tivesse relacionado comigo numa matéria tão específica quanto esta? “Que margem é que tenho para inovar o ensino em matérias para as quais é mais difícil cativar o interesse e a disponibilidade dos alunos, uma vez que não entendem de imediato o seu objetivo e a sua utilidade?”. E é preciso sublinhar aquilo que é extremamente importante, que é a antecipação da materialidade da arquitetura, perante uma fase de representação bidimensional, e como é que isso se transmite aos alunos, logo de início. E foi isso que eu procurei.

 

Até porque eu, posso confessar, não gostei nada de andar na escola de Belas Artes, e se calhar estou a ser muito injusto com muitos colegas e professores, mas nunca tive uma grande relação com a escola. Não gostava muito nem dos horários, nem de cumpri-los, de cumprir tarefas, entendia a aprendizagem de uma forma mais livre do que na prática acabava por ser realizada e orientada. Mesmo numa escola como as Belas Artes, e tinha colegas nas engenharias que diziam que nós não tínhamos horas para nada, eu respondia que sim, não tínhamos horas e que as que tinha, custavam-me. Portanto, para mim foi muito difícil criar ligações à própria escola, tirando o grupo de amigos, que era o essencial. Mas, de facto, não foi uma relação fácil. O mundo do atelier dizia-me mais, desse ponto de vista. Era mais estimulante enquanto forma de aprender. E agora o ensinar obrigava-me a refletir sobre o modo de cativar o interesse e a atenção dos alunos. No início foi muito intenso e animado, até tínhamos uma oficina que nos permitiu fazer muitos trabalhos inovadores, em carpintaria e em serralharia. Lembro-me de um ano em que um grupo de alunos executou, em perfis de aço, parte da estrutura do pavilhão suíço do Corbusier, à escala de um para dois. Tudo isso deixa-me grandes recordações de um modo de ensinar muito próximo dos alunos.

 

© Pedro Frade - Todos os direitos reservados

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Quando acabou o curso de Arquitetura, como foi o seu percurso?

 

Durante o curso, a nossa vida compreendia o lado da frequência da escola e participação na vida académica com o trabalho e a aprendizagem nos ateliers, como referi. Eu, quando saí da escola, tive um ano ou dois muito pouco lineares, acabei por participar em muitas coisas, com vários colegas e arquitetos. Também fiz algumas parcerias com outras áreas profissionais. E esses dois anos, entre 1983 e 1985, foram muito vividos assim… Tive a oportunidade de fazer algumas obras, sobretudo na área de reformulação de andares em Lisboa e a construção de umas casas que nunca chegaram a ser concluídas ao pé de Azeitão… E depois fui para Macau.

 

Conhecia o Manuel Vicente (MV) há muitos anos, o meu pai e o Manuel (MV), além de grandes amigos, até tinham tido um atelier em conjunto nos anos 70 e 80 … Acabei, de alguma forma, por provocar uma ida para Macau! Apareci lá um dia de férias na Páscoa… Estava a colaborar com o Manuel Graça Dias (MgD), que estava a preparar uma das grandes exposições de Arquitetura em Portugal, com o Carlos Duarte, a exposição Tendências da Arquitectura Portuguesa. Um dos arquitetos representado era o Manuel Vicente e havia que preparar o material para a exposição e o Manuel Graça Dias desafiou-me para colaborar na preparação desse material, estabelecer os contactos com os vários ateliers e garantir que enviavam os desenhos, fotografias, textos e dados a tempo, para, depois, o Manuel (MgD) e o Carlos Duarte, tratarem da seleção e exposição do material enviado. Isso, para mim, foi muito agradável, porque me ajudou a conhecer melhor o Manuel Graça Dias e a conhecer o seu modo de estar na Arquitetura. E um dia eu disse-lhe: “Olha o Manuel (MV) nunca mais manda as coisas, não te preocupes que eu vou passar uns dias a Macau e tento trazer ou pelo menos tento pôr lá o material em dia!” E foi o que eu fiz! Fui lá passar quinze dias, dos quais dediquei cerca de 70% a trabalhar e a reunir aquele material todo… que magníficas férias! No meio disso tudo, acabei por me envolver num concurso; faltavam 4 ou 5 dias para voltar, o Manuel (MV) tinha recebido um convite para participar no concurso para o World Trade Center em Macau e nós fechámo-nos no atelier e lá se fez o concurso! Passado uns meses o Manuel (MV) ligou-me (às 4 da manhã) a dizer que tinha ganho o concurso e a perguntar se eu não queria ir até lá passar uma temporada. As coisas aconteciam assim de um modo muito natural. Eu refleti um bocado e pedi uma grande ajuda ao meu pai para controlar umas obras e projetos que eu já começava a fazer – tinha um pequeno hotel em construção, tinha mais umas habitações para uns amigos. E pensava que ia só uns meses, ia colaborar no estudo prévio e depois regressava. Acabei por ficar quase dois anos em Macau.

 

Eu penso que muitos de nós não saíam, ficávamos por cá, porque tínhamos trabalho e os amigos e a vida a começar. Eu, de facto, quis sair de Portugal. Não foi uma coisa para a qual fosse impelido. Nesses anos também se viviam tempos difíceis em Portugal, até oitenta e tal, foram anos muito animados porque havia muito trabalho nos ateliers, mas também havia muita falta de dinheiro no país… Havia uma tremenda dificuldade em receber. Eu lembro-me que recebiam-se letras, os ateliers eram pagos com letras, o Estado pagava a um, dois anos… Havia muita escassez de dinheiro, mas ao contrário de hoje existia ânimo. Mas não foi exatamente isso que me levou a sair. Eu queria ir estudar para fora, e infelizmente não consegui ir para onde desejava, e a segunda opção era ir para fora trabalhar.

 

E acabou por ser extremamente importante para a minha formação, porque era uma relação muito diferente com a Arquitetura, com o modo de fazer… Tivemos três ou quatro momentos muito importantes no atelier, que nos marcaram mesmo muito: o segundo concurso realizado para a Baía da Praia Grande, um concurso que o Manuel (MV) fez com o meu pai para o Centro da Fundação Aga Khan em Lisboa (que não é o que está hoje construído) … Tudo foi marcante até do ponto de vista da facilidade com que as coisas aconteciam em Macau! Havia recursos muito diferentes dos que havia no nosso país e isso permitia pôr coisas em prática com muito maior facilidade.

 

E o atelier funcionava com uma grande presença do Manuel, da sua autoria, mas também com uma grande liberdade! E isso permitia-nos, muito facilmente, entre os que lá estavam, criar raízes e amizades profundas e trabalharmos muitíssimo! Porque era assim. Recordo-me de passarmos três ou quatro noites sem sequer dormir para acabar uns concursos e não descansávamos! E isso permitiu participar em muita coisa. Depois também permitiu outras coisas… Quando eu cheguei a Macau, o Manuel tinha sido operado e estava muito debilitado e teve que vir para Lisboa para uma convalescença relativamente grande e foi preciso que todos nós, e éramos novos, com 25/26 anos, assumíssemos responsabilidades muito grandes no atelier. Recordo-me de que eu tinha uma procuração de plenos poderes! Assinar contratos, desfazer contratos, garantir pagamentos do atelier, movimentar dinheiro, etc.! E eu tinha essa responsabilidade que até me assustava! E isto também revela a maneira como o Manuel se relacionava com as pessoas e como confiava nelas. E a forma como nós também tínhamos de saber gerir essa responsabilidade e saber honrá-la. O que é que isto também nos permitia? Era perceber, desde muito cedo, mecanismos que não percebíamos se não tivesse havido essa contingência.

 

Por outro lado, em Macau - contrariamente a Lisboa, onde se faziam muitos projetos, mas apenas uma pequena percentagem era efetivamente construída - uma grande percentagem dos projetos eram construídos. O que significa que nesses dois anos o atelier teve um conjunto de edifícios em construção, com alguma dimensão, e todos eles muito diferentes, institucionais e privados, arranjos de interiores, museus, instalações da televisão, habitação, habitação social, escritórios… tudo isso, para um jovem arquiteto era algo muito relevante. Eu lembro-me de que, no segundo dia em que cheguei ao atelier, fiquei logo encarregue de um projeto de execução para uma agência de um banco e ainda do acompanhamento de uma obra! E também me lembro que, nesse projeto de execução, tive de desenhar uma série de caixilhos, que nesse tempo eram em ferro ou em madeira - fiz uns pormenores, e o Manuel criticou-me muitíssimo, porque os meus pormenores não resistiriam à primeira leva de vento, ali não era como em Portugal, havia tufões! E, portanto, essa foi uma experiência mesmo muito marcante, que me permitiu olhar para a Arquitetura de um modo diferente!

 

© Pedro Frade - Todos os direitos reservados

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Esse distanciamento de Portugal foi importante para ti? Também para criar uma identidade distinta do contexto familiar? Sentiste essa necessidade?

 

Não sei se foi tão consciente ou não. Eu fui para Macau porque queria conhecer de perto o modo de pensar e de trabalhar do Manuel e sabia que havia coisas que me interessavam que não encontrava no universo de Lisboa.

Mas posso dar uma ideia melhor do que motivou a minha saída. Por um lado, interessava-me mesmo muito alguma aprendizagem do que se estava a fazer nalgumas escolas nos Estados Unidos. Fascinava-me a Califórnia. Havia alguns jovens arquitetos que começavam a destacar-se que me interessavam pela sua liberdade construtiva, pela forma como tinham uma relação com uma espécie de arquitetura não-efémera, mas efémera simultaneamente, através da sua própria materialidade. Arquitetos como os Morphosis, alguns trabalhos iniciais do Frank Ghery, nos inícios dos anos 80. Ao mesmo tempo, o oriente tinha uma escala completamente distinta. A intensidade de Hong Kong, que é uma cidade estranha porque não tem aquilo que esperamos encontrar numa cidade ocidental – faltam-lhe praças, largos – há uma estrutura intensamente densa, que funciona muito bem com a topografia, com a paisagem, com a dinâmica comercial e a própria vivência da cidade… E eu devo dizer que gostei francamente de Macau logo no primeiro dia! Aliás, tenho tido a sorte de ir lá com alguma regularidade e sempre que vou regresso com profundas saudades e digo sempre que poderia ter vivido ali o resto da vida, sem qualquer problema. Não me incomoda o clima. Gosto que seja pequeno mas intenso, hoje além do mais tem possui um caracter cosmopolita que faltava na altura. Gostar de Macau também foi importante para construir afinidades com o território.

 

Obviamente, a minha saída para Macau, ajudou-me muito a entender aquilo que me interessava. Aquilo que queria e a forma como me fui aproximando da Arquitetura. E uma das coisas que me marcou, certamente, foi a própria aprendizagem daquela cidade, que era muito diferente de Lisboa. E foi, sobretudo, importante distanciar-me por algum tempo da cultura que se vivia no país.

Havia coisas que me interessavam muito, e não sei se até hoje as terei conseguido ou não incorporar no meu trabalho, que se prendem com a leitura que faço de alguns aspetos da História e da relação das construções com os locais e com a própria natureza da sua materialidade.

 

Eu precisava de me distanciar do trabalho, da encomenda que começava a ter em Portugal. Estava ali a trabalhar num atelier e tinha o meu tempo para ir desenhando. E foi curioso porque, este ano, realizou-se uma exposição em Macau sobre o Manuel Vicente, organizada pelo Rui Leão e pela Carlota Bruni, e convidaram vinte e tal pessoas, muito diferentes, que estiveram ligadas ao Manuel (MV), para escrever e conceber um conjunto de painéis que ilustravam o que tinha sido o seu trabalho no atelier do Manuel Vicente e o que tinha sido o seu trabalho ao longo da sua vida, desde então. E eu enviei dois painéis, que estabeleciam um paralelo, os desenhos que fazia para os projetos no ateliê do Manuel Vicente e os desenhos que elaborava livremente, ao fim de semana e à noite, a pensar num conjunto de possíveis intervenções para Macau. E agradou-me, passado quase 30 anos, cruzar esses dois momentos.

 

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Entrevista completa
in pdf: http://hdl.handle.net/11144/2467