JOAO SANTA-RITA - 2ª Parte

 

Sobre a experiência como professor, falaste sobre a disciplina de Tecnologias mas agora estás a dar Projeto (2ªano), a alunos substancialmente diferentes. Fala-nos um pouco desse desafio.

 

O ensino da Arquitetura pode evoluir – mas há questões que são, de facto, constantes. Fazem parte do grande corpo do ensino da Arquitetura. Há sempre matérias novas, há sempre questões novas, há a própria história que evoluí, há novos pontos de vista, diferentes dos pontos de vista de há 20 ou 30 anos atrás, há matérias novas do ponto de vista tecnológico e tudo isto é fundamental… Mas eu diria que não há uma substancial distinção entre o modo de ensinar Arquitetura há uns anos e agora. Os temas estão todos presentes, não há uma limpeza de matérias, existem é mais matérias! Mas as outras continuam. É evidente que há uma evolução do pensamento tal como do modo de pensar a arquitetura e isso, naturalmente, reflete-se no ensino, mas no modo como são abordados os temas e as matérias que surgem a propósito dos mesmos.

 

E, evidentemente, o curso começou com uma determinada dimensão, evoluiu e agora, de alguma forma, redefiniu-se. Há mais alunos que vêm de fora do que alunos portugueses. Há uma grande diferença face ao grupo de alunos de há alguns anos, formados em Portugal, que vinham com níveis de conhecimento do secundário que nós conhecíamos. Agora, há alunos com níveis de formação diversos, até com culturas diferentes, temos um grande contingente de alunos de Angola, no 1º ciclo. Isso obviamente traz, para o curso, um desafio grande. Para mim, não é propriamente uma novidade, uma vez que tinha dado aulas, entre 1996 e 2001, com o Pancho Guedes, na Lusófona, e era uma realidade mais ou menos parecida com a da UAL, de hoje em dia.

 

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E estes alunos trazem ou vão construindo as suas referências de uma forma mais global, internacional, face ao que acontecia no passado?

 

Não sinto isso no 2º ano, mas é natural que, nos anos mais avançados, isso se sinta. Primeiro porque nós temos sempre esta eterna questão com a Arquitetura: é muito difícil, para um aluno de 2º ano, atingir níveis de cultura de conhecimento diversos, dos campos das Artes, da Literatura, da Filosofia, do Pensamento, etc. É muito difícil adquirir conhecimentos e, até, cruzar os mesmos. Um aluno até se pode interessar imenso por leitura e ler diversos autores mas, depois, entende de imediato como essa cultura, até para uma coisa tão direta como a escrita, pode contribuir para a disciplina de projeto.

 

Portanto, essa questão sobre o peso das suas referências ainda me parece, nos primeiros anos, muito deficiente. Falando abertamente, e é no fundo aquilo que dizemos aos alunos, falta-lhes cultura! Mas eu também acho que já faltava aos outros alunos dos anos anteriores! Se calhar, o que acontece é que para os outros algumas matérias eram pelo menos familiares. Não as conheciam tão bem quanto desejávamos, mas já lhes tinham passado pela frente, de diversas maneiras, numa visita, ou porque o professor de História já tinha falado… Agora não. Agora, para muitos, são naturalmente matérias inteiramente novas porque, a cultura dos lugares de onde vêm é distinta da nossa. Nós temos, naturalmente, um ensino muito estruturado na cultura ocidental. Não estudamos arquitetura chinesa, por exemplo. E, portanto, temos sempre esta questão, se um dia recebermos alunos chineses no 1º ou no 2º ano, para eles fará muita diferença aprender a Arquitetura através de exemplos, centrada numa determinada realidade geográfica e cultural distinta da sua. E, portanto, obviamente, são sempre questões que temos de ir limando…

 

Isso depois sente-se em tudo. Na própria disciplina de Projeto. Há referências que são totalmente distintas e, naturalmente, isso também gera maior interrogação da parte dos alunos.

 

Quanto a Projeto, eu comecei a dar aulas de Projeto na UAL com o Manuel (MV) e com a Madalena (Cardoso Menezes), os programas eram muito abrangentes e permitiram exercícios bastante pertinentes e válidos, e também muito diversos, mas foram feitos com grandes turmas, de 50/60 alunos. O que fazia com que em grupos dessa dimensão existissem sempre alunos que alavancavam outros e portanto a turma elevava, naturalmente, a sua qualidade, porque uns sentem-se forçados e impelidos a acompanhar o trabalho dos outros… Isso dava uma perspetiva do curso, ou melhor, do 2º ano, em que nós chegávamos ao final do ano e tínhamos um corpo de alunos que tinha um perceção da cidade, tinha refletido sobre as suas diversas componentes, olhado para realidades muito distintas, trabalhado sobre alguns programas e adquirido um conjunto de competências, e isso deixava-nos, razoavelmente esperançados com a sua passagem para o 3ºano de Arquitetura e, depois, para o Mestrado. Aí é que eu acho que mudou, radicalmente, o panorama da universidade, temos de dar mais atenção à aquisição de competências e de ferramentas, as quais esperávamos que, melhor ou pior, já estivessem dominadas. Nesse aspeto existe uma grande décalage entre o passado e presente.

 

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E, por tudo isso, a disciplina teve de ser adaptada?

 

Sim, teve de ser um pouco adaptada. Há trabalhos que têm de ser realizados, inicialmente, para ajudar os alunos a adquirir ferramentas, do ponto de vista do desenho, da representação, da elaboração de modelos… Quase tudo é uma novidade. E isto obriga a, de uma certa forma, repensar como abordar temas que permitam adquirir um conhecimento mais abrangente e que permita obter uma noção mais precisa da relação de um objeto com um qualquer contexto.

Mas, sobretudo, eu diria que se mantém a forma como sempre estive envolvido no ensino da arquitetura – apesar de tudo eu já tinha dado Projeto em várias escolas – sempre privilegiei coisas que partissem de uma intervenção na cidade para depois ir decrescendo, até chegar a um objeto, que sairia dessa intervenção mais alargada.

 

No fundo, espero que os alunos aprendam a redefinir a escala e o contexto, para que, no 3ºano, possam ter uma outra competência e facilidade para lidar com desafios de outra natureza.

 

Mas, no fundo, o que caracteriza uma escola é o facto de os alunos poderem ter professores diferentes, com abordagens diferentes e, desse ponto de vista, eu procuro que hajam coisas singulares. Durante dois anos realizei um exercício que constitui um modo de envolver os alunos em aspetos da cultura ocidental e introduzi-los naquilo que podem ser os grandes temas do espaço e da arquitetura, e era também uma forma de colocar os alunos a pensar e repensar a representação da arquitetura, permitindo simultaneamente que evoluíssem em alguns aspetos como seja o caso da representação em desenho e através de maquetas. Este exercício fazia-se a partir da seleção de 3 ou 4 gravuras dos Carceri de Piranesi. Os alunos eram convidados a estudar as gravuras, a atribuir uma escala, a entender os paradoxos e contradições daquelas representações, o que representavam, o contexto no qual tinham sido realizadas, o que significavam naquele momento, o modo como constituíram e constituem uma constante referência. Os alunos depois tinham de fazer uma espécie de extensão daquela gravura, de imaginar e completar o que estava para lá da imagem, e de pensar como é que podia ser balizada dentro de um determinado invólucro e como poderia interagir com os espaços da cidade.

 

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Ao longo destes anos, o curso foi-se alterando por essas circunstâncias de que fala, mas, ao mesmo tempo, a saída da universidade para o mundo laboral também é diferente. Que percursos estão disponíveis para os alunos, depois de acabarem o curso?

 

Posso estar errado, mas eu acredito que a formação do arquiteto é algo, mais ou menos, universal. Ou seja, há colegas e universidades que entendem que a formação deve ser dirigida para uma determinada realidade. A verdade é que a realidade é uma coisa circunstancial e pode ser alterada a qualquer momento. A formação não é para uma realidade estática… Neste momento, em Portugal, assim como em muitos países europeus, não há muito mais a fazer do que a reabilitação das construções existentes. Isso não faz de nós professores orientados apenas para essa realidade. Essa possibilidade de intervenção existiu sempre, mas a verdade é que essa preocupação nem sempre fez parte do nosso olhar sobre a realidade, compreender o que existe, compreender como é que se vive agora e compreender, sobretudo, numa realidade como a europeia, como é que se intervém num contexto para o qual concorrem inúmeras questões.

 

O mesmo acontece do ponto de vista das saídas profissionais. E aí sim, como dizia, há matérias que são novas. A realidade não é mais complexa mas não tenho hesitação em dizer que tem uma complexidade diferente. A nossa realidade é muito distinta do que era há 20/30 anos atrás. Há dias, para um trabalho que estou a iniciar, tive a curiosidade, de olhar para a lista dos projetos a elaborar e cheguei à conclusão que o projeto tem 27 especialidades envolvidas! O que significa que, se calhar, 30% do tempo que se vai utilizar é para gerir equipas, e ver se o vigésimo sétimo está em dia, se o vigésimo quinto não se esqueceu de três papéis… e depois incorporar toda essa informação num projeto! É muito diferente! O mesmo projeto, há 20 anos atrás, tinha quatro especialidades, quatro técnicos envolvidos e esgotava-se aí. Portanto, desse ponto de vista, são as tais matérias que concorrem para o projeto e que acredito que são ensinadas, relativamente ao passado, com uma atenção maior. E até, quem sabe, com uma competência maior. Há matérias do foro da tecnologia que acredito que sejam ensinadas com outra competência. Muitas delas têm, hoje em dia, um conhecimento científico que não tinham, tinham um conhecimento mais empírico E, para que os arquitetos mantivessem a sua visão integradora, é evidente que as universidades acabaram por incluir esse tipo de conhecimento. E isso parece-me bem porque é, de facto, uma possibilidade que permite que os arquitetos, quando saem de uma universidade e quando decidem iniciar a sua atividade profissional, acabarem por ter várias opções. Porque a Arquitetura permite isso. A Arquitetura permite não só possibilidades fora do seu campo – todos nós temos colegas que acabaram por ser fantásticos profissionais em áreas completamente distintas, na escrita, na produção de televisão, como realizadores de cenários para filmes, como músicos, como pessoas ligadas à moda – porque o curso permite também uma apreensão muito particular de outras realidades, a par de aspetos mais concretos, relacionados com a Arquitetura, mas nunca se esgotam apenas na área do Projeto. E, de facto, há pessoas que têm apetência para coisas completamente distintas. E, desse ponto de vista, é natural que os cursos integrem mais um conjunto de novas matérias.

 

Uma dúvida que tenho, é relativa à relação que existe entre aquilo que se passa dentro da universidade e aquilo que se passa fora. Por exemplo: acho que uma das grandes lacunas que as universidades parecem ter, são as visitas a obras. O João (Caria Lopes) fez parte de uns anos em que nós tínhamos na disciplina de Tecnologias uma coisa que se chamava Diário de Obra. No 1º ano, os alunos começavam a ir a obras. Independentemente da qualidade da obra, porque era impossível encontrar 30 obras com a mesma qualidade, permitia que os alunos pudessem, desde o início, ter uma linguagem comum, saber de que se estava a falar, perceber o que é o trabalho. Havia um caminho que se ia percorrendo, apercebiam-se dos trabalhos que se realizavam e da sua evolução, aprendiam o que era a realidade de uma obra.

 

Tudo isso se modificou. Há três ou quatro anos fizemos umas visitas a obras da Parque Escolar e foi muito mais complexo… garantir que todos têm seguros e vão com os capacetes, com os coletes, com as botas, que ninguém pode chegar atrasado. E a visita é como um carreiro de formigas porque é difícil fazer a visita com os trabalhos em obra - se se interrompem os trabalhos vem a fiscalização e diz que estão atrasados porque receberam a visita de estudo! Isto é uma realidade completamente distinta! Mas é algo que faz falta! Não sei bem como é que isso se pode colmatar, se é através de protocolos com duas ou três grandes empresas de construção… Não é fácil levar uma grande quantidade de alunos para visitas de estudo, sobretudo em continuidade, porque isso é que interessava! Mas eu percebo que para uma obra, ter a UAL, ou a Lusófona a pedir dez visitas, só em Lisboa, se as universidades todas pedirem dez visitas, são sessenta visitas num ano e eles dizem logo: “Bom, ou pára a obra ou então temos de pedir ao dono de obra mais dois meses só para incorporar as visitas de estudo!”.

 

Mas eu penso que era um aspeto importante porque sendo as saídas profissionais tão diversas, parecer-me-ia importante que os alunos tivessem essa oportunidade. Sobretudo porque eu estou convencido de que os alunos formados em arquitetura continuam a ter uma visão global do processo de uma construção, do que é a arquitetura e do que é um edifício, e isso permite-lhes estarem melhor preparados. São mais integradores, não têm uma visão muito específica.

 

Por outro lado, há inúmeras coisas que os arquitetos, hoje em dia, também podem fazer, por exemplo, no campo da visualização em 3D, que é um mundo enorme, há muita gente que faz disso a sua atividade. Há também trabalhos mais efémeros e há os do planeamento, por exemplo, que são fundamentais. E nessa área os arquitetos têm uma grande importância no papel de olhar e intervir no território. A esse respeito, se olharmos para a exposição que está agora a acontecer no CCB, do João Luís Carrilho da Graça, é uma tradução disso. O território de um edifício acaba por ser uma cidade inteira, depois há o lugar em específico, mas em última instancia, é a cidade que importa.

E, até por estas particularidades, temos tido a nossa profissão muito reconhecida no exterior, porque temos um território muito diverso, temos uma história muito diversa, temos cidades muito distintas, realidades muito distintas, o que nos permite ter uma formação muito particular no olhar e no saber ver, que, de alguma forma, nos torna aptos para intervir em contexto muito diversos, ter essa capacidade de, facilmente, os apreender. Se calhar outros países estarão mais presos a uma realidade menos heterogênea, e isso não lhes permite essa faculdade.

 

E depois, a formação que temos tido, ao longo dos anos é muito idêntica de escola para escola – nós não temos, em Portugal, escolas com ensino muito específico e até muito fraturante no modo de ensinar arquitetura, como têm alguns países, como os Estados Unidos, ou até algumas escolas na europa, como tinha, a certa altura, a Holanda ou até a Inglaterra. Mas temos um ensino coeso e muito bem estruturado, com um corpo forte na forma como faz o cruzamento de outras matérias e até da forma como ensina a Arquitetura e particularmente o projeto, e isso tem sido um aspeto positivo para os nossos alunos quando saem da universidade.

 

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Com a experiência que tem tido com a Presidência da Ordem dos Arquitetos, a ideia que tinha da profissão foi alterada? Ou melhor, qual é o atual estado da profissão em Portugal?

 

Não é por estar dentro ou fora da O.A. que se tem uma visão diferente da profissão. Só seria muito diferente se eu estivesse muito arredado do projeto, mas como fui sempre arquiteto e nunca deixei de o ser, a realidade que eu imaginava que era a profissão não é muito diferente por eu estar na O.A. Tenho é mais dados e mais informação sobre a profissão e, sobretudo, do que é a profissão na realidade no contexto europeu. E tive uma surpresa muito grande – porque nós temos a tendência para achar que aquilo que se passa no nosso país é único, seja bom ou seja mau – que foi perceber que o mundo, do ponto de vista da arquitetura, tem uma perceção deturpada do que é a importância da realidade arquitetónica. Ou seja, se há países em que a Arquitetura é uma realidade muito estimada, na maioria dos países, a arquitetura não é nada estimada, em todos os sentidos. Em termos de processo, não importa o que se faz, nem como se faz, o que importa é fazer, importa é as coisas serem realizadas, mais do que a qualidade em si mesma e as condições que estão subjacentes.

 

 

A arquitetura como disciplina ou isso implica também uma imagem subvalorizada do próprio arquiteto?

 

Acho que, para a maioria das pessoas, a disciplina não existe, que é logo o primeiro grande problema. Se nem se percebe o papel do arquiteto e o que é que a arquitetura pode ter de mais-valia para uma sociedade, a disciplina então nem existe! A valorização do arquiteto não é tanto por si, mas sim pelo que ele faz. E enquanto não se valorizar o espaço onde habita-mos, onde nos encontramos, dificilmente se valoriza quem está por detrás. E isso sente-se em tudo! Sente-se na desvalorização dos próprios mecanismos, das concretizações, do próprio trabalho. Sente-se até na forma como se distribui trabalho. E nós sabemos que os concursos são sempre controversos, há sempre ideias que se confrontam, mas concursos que se baseiam na qualidade do projeto é uma realidade que nos diz muito, porque se está apenas a discutir o que é melhor para uma determinada realidade. Neste momento, sabemos que não é essa a realidade, até chegámos à fase mais crítica, lamentavelmente, que é quase um leilão. Em fases subsequentes do concurso, poder-se oferecer mais isto e considerar menos…

 

Acho que isso são sinais de uma enorme falha cultural e que há-de resultar, certamente, em grandes dissabores. Porque, no fundo, nós somos, eventualmente, mais exigentes do que eram os nossos antepassados próximos. Temos noções do que é a comunidade e do que é estar e do que é participar, completamente distintas, mas acabamos por ser menos exigentes, do ponto de vista da qualidade do que nos rodeia. Isso verifica-se muitas vezes por parte de quem toma decisões, quem tem muita força nestas questões, acabando por, em muitos momentos, revelar verdadeiros retrocessos em muitas matérias. Eu penso que isso vem muito dessa falta de reconhecimento da importância e da relevância da arquitetura para a construção da nossa realidade.

 

Mas a culpa não é só de quem decide, também é nossa, dos arquitetos. Nós também faze-mos parte desse problema. Eu estive há dias no DAC, Danish Architectural Center, e fiquei perplexo, porque eles têm um centro com alguma dimensão e com qualidade e estão a fazer um centro ainda maior, que é um projeto do Rem Koolhaas, na margem do porto de Copenhaga. Fica uma questão: “Como é que um centro de arquitetura na Dinamarca – porque há vários em França, em Londres, há a Casa de Arquitetura em Portugal… – consegue neste momento lançar-se na realização de uma obra de tão grande dimensão? É que grande parte do sucesso do DAC resulta justamente da forma como foi capaz de entrosar todos os diversos aspetos e componentes da sociedade com os seus programas de divulgação e promoção da arquitetura. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que aquilo não é um centro exclusivamente para arquitetos, é um centro para todas as pessoas, para todos os profissionais. Tem eventos de natureza muito diversa ainda que dirigidos para a arquitetura, mas que colhem um interesse mais alargado, visitas temáticas… É um centro onde acolhem desde crianças de 4/5 anos - que estão no infantário e podem ir para lá brincar em ateliers - até aos cidadãos mais velhos, que podem ir lá em visitas ou almoçar. E o que é que isto significa? Significa que o DAC consegue ter uma grande importância na comunidade, tal como um grande reconhecimento da sua atividade . É claro que sabemos que isto é fácil em países que têm níveis e hábitos culturais diferentes dos nossos, até do ponto de vista das suas relações e da forma como constroem o seu dia-a-dia, e na forma como tecem as relações da sociedade, mas é uma realidade que nos faz pensar, não é?

 

Mas a verdade é que estaremos entre os povos europeus em que a relação com a arquitetura é muito intensa, porque temos cidades com centros muito antigos, com muita história, e também com muitas realizações recentes, mas a verdade é que, no dia-a-dia, a relação com a arquitetura é de um total desinteresse. Não há uma preocupação, a todos os níveis, pela qualidade do que se oferece. É tudo um pouco indiferente. É uma espécie de “tanto faz” que faz muita confusão. Na arquitetura nada tanto faz! Há dias, quando estava na tal visita a Copenhaga, ia com uma pessoa que até dizia “Isto até chateia porque é raro entrar num edifício que não tenha qualidade!” Tudo tem uma espécie de uma norma de qualidade estabelecida. E isso traduz a preocupação de quem faz em fazer o melhor que sabe, traduz a preocupação de quem usufrui de encontrar coisas que tenham qualidade e onde se sinta bem. Para nós é tudo um pouco indiferente… Embora isso tenha mudado um pouco, recentemente. E acho que mudou porque as gerações mais novas se movem mais e acabam por trazer mais referências e estar mais abertas para liderar essa mudança.

 

Nós (arquitetos) certamente não abdicamos de fazer com qualidade e não abdicamos de entender que aquilo que temos para fazer modifica os ambientes, modifica a cidade – tem todo esse grau de intervenção – mas também é importante perceber, para quem está do lado de lá, o que é que significa. E histórias todos nós temos para contar, que na obra o diretor diz que agora quer as paredes assim e assado, e respondemos que nós é que somos o arquiteto e nos dizem que eles é que mandam… Isso são histórias que todos nós temos, desde a obra pequena à maior… Mas isso só espelha essa falta de reconhecimento.

 

Eu não me atrevo a dizer, se vou ao meu médico e se ele me vai operar, “Ó senhor doutor, desta vez, desculpe lá, mas eu não estou de acordo que o bisturi entre por aqui, e eu acho que deve cortar da esquerda para a direita porque não gostei nada destes cortes que me fez aqui…Isto agora tem de ser com outras laminas ou outra coisa e desculpe lá, mas não me vai dar a anestesia como deu, vai dar para mais uma hora e meia, e antes de entrar para a operação vamos lá fazer um desconto!”

 

A verdade é que uma coisa que é tão importante para o bem-estar como a Arquitetura, se calhar não é de compreensão imediata, nem é de vida ou morte. A diferença, em vez de acontecer imediatamente, vai-se notando ao longo da história e ao longo da nossa vida.

 

A Europa deixou, desse ponto de vista, de ser um referencial. Se calhar é um engano para todos nós porque temos a Europa em elevada consideração em muitas matérias. Mas deixou de o ser desse ponto de vista porque, em nome de muitas coisas, está a desvalorizar umas tantas outras. E os países que desvalorizam, de certa forma, a qualidade da sua arquitetura, desvalorizam-na porque isso já está enraizado na sua sociedade. A realidade, desse ponto de vista, é muito adversa, para algumas coisas que nós arquitetos defendemos. O mundo da arquitetura tem de estar muito atento e preocupado com aquilo que é uma visão europeia destas áreas profissionais. A excessiva vontade de burocratizar tudo, muito papel para preencher, muita carta, muito relatório para fazer, exigências e regras para tudo… Apenas com a intenção de ter alguém responsável quando a coisa der problemas… A qualidade fica só para 3 ou 4 obras mais visíveis e mais importantes e para o mundo do dia-a-dia é um pouco indiferente.

 

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Perante todos estes desafios de que estamos a falar, prevê um futuro negro para a arquitetura ou acredita que temos caminho para andar?

 

Se eu não acreditasse na arquitetura, deixava de ser arquiteto! Ou seja, eu acho que não tenho uma visão pessimista. Acho que procuro ter uma visão realista, com uma grande dose de otimismo porque, no fundo, é isso que me faz querer fazer coisas e ter prazer nisso. Só com otimismo é que conseguimos combater aquilo que é mais negativo e adverso! Mas também não nos podemos iludir e pensar que é um mundo cheio de coisas positivas e de fácil resolução porque, de facto, há muita coisa negativa pelo meio e para contrariar é precisa muita perseverança e trabalho de muitos. E o que me faz mais impressão não é haver coisas negativas ou positivas, é o facto de muitas coisas negativas parecerem naturais para muitas pessoas, e por vezes até para quem tem responsabilidade nas decisões.

 

Mas a arquitetura há-de sempre existir! Naturalmente, vai evoluindo, como sempre evoluiu. E, certamente, vão mudando muitas coisas, como também aconteceu ao longo da história. Não vejo que por aí venha a destruição. Pode é pensar-se que o que se faz podia ser melhor. Ao longo de 40 anos de história, dos anos 70 para cá, fez-se muita coisa. Construíram-se muitas escolas, equipamentos, criaram-se melhores condições, fizeram-se centros de saúde, universidades… e, agora, com a população estudantil reduzida, há problemas, mas as universidades estão feitas! Haverá outras que ainda faltam fazer. Não se pode achar que quem vai fazer uma nova estação de caminho-de-ferro é logo um criminoso e só quer dar cabo do erário público. Haverá sempre necessidade de fazer coisas… Um exemplo concreto é o facto de nós recebermos mais estudantes de fora do que recebíamos, como sabemos, e não ter-mos estruturas de acolhimento suficientes, inclusive para os estudantes portugueses, como têm outros países, estamos muito mal preparados, e os estudantes acabam por organizar-se e alugam uns apartamentos… Se calhar são áreas em que as universidades têm uma grande falha, não têm as chamadas residências de estudantes. Portanto, há sempre áreas onde temos de investir se queremos captar outro tipo de público.

 

Mas também sabemos que há muito por fazer neste país. Basta percorrermos as nossas cidades e percebemos que há, de facto, muito por fazer. Agora, a natureza do trabalho é outra, são intervenções diferentes. E isso é importante para quem está aqui a estudar… A verdade é que, deste ponto de vista, como dizia, temos um país muito mais equipado do que tínhamos. Mas haverá sempre faltas. Umas bibliotecas ali, alguns espaços de cultura acolá, um museu nacional.

 

Por exemplo não existe um museu nacional de arquitetura, simplesmente não existe e tem sido adiado consequentemente! E isto denota bem a forma como se dá importância e se valoriza a arquitetura! Não sei quantos países da Europa não têm um museu de arquitetura, acredito que poucos, mas sei que Portugal é garantidamente um deles.

 

Outra coisa curiosa, que tem a ver com isso, Portugal só este ano é que teve uma resolução do Conselho de Ministros sobre uma política nacional de Arquitetura e Paisagem, que é uma coisa pela qual os arquitetos se vêm a bater há muitos anos Isso denota como estes temas são desvalorizados. E se nós queremos também acreditar que a Arquitetura é um bem e será algo que terá implicações, bem ou mal, no futuro, é importantíssimo criar políticas para a sua implementação e para a participação dos arquitetos em muitas das tomadas de decisão inclusive. E isso, obviamente, passa por esse reconhecimento e aí o museu é logo o primeiro passo. E há quanto tempo é que se fala do museu? Primeiro, ia para o Pavilhão de Portugal… O facto é que o Pavilhão está ali desde 1998, já passaram quase 20 anos… e temos espólio, produção, reconhecimento internacional, para a Arquitetura portuguesa ter um museu… Mas não tem, e o problema é esse!

 

Entrevista completa
in pdf: http://hdl.handle.net/11144/2467