MANUEL GRAÇA DIAS percurso profissional - prática (PARTE II)

JCL: Depois da Universidade, o aluno acaba o curso, ainda não é arquiteto, o estágio é o ano zero, e só três ou quatro anos depois adquiriu competências para estar num atelier. A pergunta que eu acho que muitos jovens arquitetos continuam a fazer é: qual é que é o passo que se dá a seguir?
 
 
Mgd: A resposta é clássica: as pessoas vão ganhando prática, trabalham em ateliers com uma certa rotina, estagiam, fazem interensino com outros e, a certa altura, aparece um trabalho que já se sentem capazes de fazer sozinhos. Um amigo que pede para remodelar a casa… isso acabará por ser sempre uma oportunidade. Depois depende muito de cada um. Há pessoas que não se sentem à vontade enquanto não têm realmente bastante prática; há outros mais atrevidos, que se acham capazes mal acabam o estágio. E vão-se fazendo, até que a certa altura pode adquirir-se uma independência, ainda que momentânea. Aparece um trabalho que vai durar dois ou três anos e que possibilita uma pequeníssima estrutura, para si, mais um amigo e mais um colaborador.

E depois, das duas uma: ou tudo se passa numa época em que há trabalho e umas coisas puxam outras - o empreiteiro que vai construir a casa gosta muito do jovem arquiteto, e pede-lhe que lhe desenhe um pequeno edifício, entretanto um primo vê o projeto, gosta imenso, e pede-lhe para remodelar o sótão, pelo meio fazem-se alguns concursos e há um ou outro que corre bem -, é um caminho possível, ou foi um caminho possível, porque se há menos que fazer, como agora, esta hipótese de “rede” é menos provável!
Mas eu diria que, mais importante do que isso, é realmente o arquiteto enquanto pessoa. Penso que há um mito, que também devemos ajudar a desmontar, com origem nos arquitetos estrela. O mito de que toda a gente está vocacionada para ser patrão; não de si próprio -- seria interessante se as pessoas tivessem esse raciocínio --, mas patrão de outros.
Este mito atual de que se vai fazer um curso e que depois se sai de lá patrão tem de acabar. As pessoas têm de perceber que ter um curso superior é realmente ter uma preparação específica. A palavra superior é um pouco irritante, porque parece que se fica superior aos outros. Se lhes chamássemos cursos específicos, provavelmente seria mais interessante. “Vou fazer um curso específico de Arquitetura e, depois, saio com mais preparação para começar a trabalhar em coisas relacionadas com Arquitetura”.

JCL: Há alguns arquitetos novos, ou novíssimos, que tenha como referência? Que esteja a acompanhar o trabalho que eles estão a fazer?
 
 
Mgd: Sim, vou vendo coisas de pessoas que passaram por mim, que foram meus alunos (alguns também colaboradores), e que hoje são arquitetos, com trabalho interessantíssimo. O Ricardo Bak Gordon, por exemplo. No primeiro ou segundo ano em que fui para Milão, ele estava lá, em Erasmus. Conheci-o em Milão e gostei logo imenso dele, achei-lhe imensa graça. No ano seguinte, ele e o Carlos Vilela foram meus alunos no último ano da FA/UTL. E há pessoas que passaram por mim, mais recentemente, aqui da Escola, que tenho visto, cá fora, com orgulho e satisfação, fazerem coisas interessantes. Tu [João Pedro Caria Lopes] e o Ricardo [Silva Carvalho], por exemplo, que foram meus alunos logo no vosso primeiro ano e que agora são meus assistentes.

Não estou a dizer que fui eu que “lancei” esta gente; na FA/UTL eu dava aulas ao quinto ano, limitava-me a puxar um bocado pelos alunos. Acho que ajudei a sacudir ideias já feitas que alguns teriam, mas, de maneira geral, os mais interessantes já chegavam com uma certa segurança. E o diálogo era quase que de arquiteto para arquiteto. Eu gostava muito do quinto ano por isso, porque podia tentar puxar os alunos para uma plataforma superior. É diferente quando se fala com garotos do primeiro ano, como tem sido a minha experiência nos últimos 14 anos, quer no Porto quer aqui, na UAL. Temos que descer bastante à base para conseguir apanhar um ponto de partida que compreendam, que os ajude e estimule. O meu melhor aluno de sempre, e logo no primeiro ano em que dei aulas na FA/UTL, foi o Egas Vieira, que é meu sócio. Para além de um enorme talento, já tinha uma formação e uma capacidade que me surpreenderam; foi por isso que que começámos a trabalhar juntos.
Oirmão do Egas, o Nuno Vidigal, bem como o Pedro Ravara, com quem fez sociedade, foram meus alunos dois ou três anos depois. Era um ano muito bom, com a Cristina Veríssimo, o Mário Martins, o Gonçalo Afonso Dias. A seguir, lembro-me do João Matos, que dá agora aulas em Évora, do Ricardo Vieira de Melo, que voltou a Aveiro onde desenvolve um interessantíssimo trabalho, do Vasco Delerue, já falecido, do Luís Torgal, nosso colaborador no atelier durante imenso tempo. Mais tarde, quando dei aulas de Projeto no curso de Arquitetura de Interiores, fui professor do Steven Eavens e do Miguel Abecasis, que também estão a fazer primeiros trabalhos muito curiosos. O Pedro Machado Costa não foi meu aluno mas trabalhou connosco um par de anos, o Paulo André Rodrigues também... enfim, imensos! É tudo uma gente bastante interessante que passou por mim e que eu vi com alegria tornarem-se arquitetos e terem trabalho que fazem com honestidade, com gosto, com envolvência, com paixão! Isso é o que mais me agrada nessas pessoas! Se também ajudei, ótimo! Se não, tanto faz, não será relevante. Gosto é de sentir essa paixão, esse envolvimento! Não olharem a Arquitetura como uma coisa qualquer, feita por desfastio, comercialmente, burocraticamente.

FR: É uma pessoa que lê, que escreve, que pensa sobre o que escreve e sobre o que lê. No seu trabalho de arquiteto, na componente de projeto, qual é o peso da teoria na sua prática profissional?

Mgd: Dos programas que fiz para televisão, gravei um com o arquiteto [Manuel] Tainha. Estávamos a conversar, já depois de termos filmado, e eu fiquei muito contente porque concordámos ambos que a escrita também seria uma forma de projetar Arquitetura. Quando se escrevem as memórias descritivas, por exemplo, em concursos, está-se em grandestress, está-se muito focado naquilo, há que cumprir prazos, está-se em grande tensão. É preciso escrever um texto, e é preciso que esse texto seja percetível pelo júri, que não seja longo de mais, que não seja muito chato, que se perceba muito bem. É sempre um drama para lá conseguir meter tudo, para que o júri não deixe de reparar nas coisas essenciais. E eu referia-lhe que, muitas vezes, quando estava a fazer essas memórias descritivas, descobria coisas que ainda não estavam nos desenhos e ia a correr dizer que tínhamos de incluir isto, que tínhamos de incluir aquilo. Porque ao longo da escrita, ao justificar determinado tipo de proposta, percebia que afinal não tínhamos ido tão longe [no projeto] quanto quereríamos. “Mas isso acontece-me imenso também”, respondeu-me. É incrível! Porque, realmente, desenhamos, também, através da escrita; estamos ali a pensar muito intensamente numa determinada situação e resolvemos através da escrita coisas que não estavam ainda resolvidas em desenho!

Claro que a leitura dos teóricos me ajuda muito a pôr as ideias em ordem; ajuda-me, por vezes, a compreender determinadas situações que pressentia, mas que não conseguia explicar tão bem, ou que não tinha percebido ainda porque é que as sentia daquele modo, ou alerta-me, muitas vezes, para situações em que nunca tinha pensado. Embora esse seja sempre o ponto mais frágil. Quando nos alertam para coisas em que nunca pensámos, nunca as compreendemos totalmente. É mais fácil quando nos fornecem uma explicação para coisas em que já refletimos, experiências pelas quais já passámos. Aí estamos mais ricos para compreender, estamos mais dentro da problemática, podemos logo imediatamente criticar, dizer “não é bem assim”, “é mais do que isso ainda”, ou “é isto mesmo, porque comigo aconteceu-me também”. Acho que será esse tipo de reflexão teórica que nos poderá ajudar bastante a exercitar a capacidade de desenho.

JCL: É sempre tentador fazer uma pergunta sobre o futuro da arquitetura, mas mais do que isso – agora que o estado atual é mais ou menos catastrófico a nível mundial e de crise a nível nacional – arriscava perguntar que caminhos é que acha que se pode seguir...
 
 
Mgd: Apetece-me dar uma resposta relativamente fácil, como o arquiteto [Eduardo] Souto de Moura, quando foi entrevistado a propósito do prémio Pritzker. Repetiu várias vezes que a nova geração tem de emigrar, que aqui não há trabalho para ninguém. Aparentemente, parece que é assim, que durante uns anos não vai haver trabalho para ninguém. Não porque faltem coisas para construir, mas porque não há dinheiro para as fazer. Felizmente, o problema da habitação está resolvido há já alguns anos; o mais urgente está feito, não há é dinheiro para outro tipo de apostas.

Não havendo dinheiro no Estado para grandes encomendas – e imaginando que haverá uma enorme retração na economia em geral –, também não haverá dinheiro nos privados; como tal, a maior parte dos jovens arquitetos terá mesmo que emigrar. Alguns já estavam a fazê-lo: muitos dos nossos alunos aqui da Autónoma já tinham ido trabalhar para o Brasil, para a Suíça, outros ficaram-se por Espanha, outros foram só em Estágio e acabaram por ficar mais dois ou três anos. Há os que voltaram, a ver se conseguiam trabalho por cá, e que depois regressaram outra vez. Esta aposta, é já ela própria uma experiência interessante para quem gosta de fazer Arquitetura. Não há problema nenhum em emigrar; acho que é divertido uma pessoa, nestas idades, sem responsabilidades nenhumas, ir para uma cidade estrangeira e começar por lá a iniciar-se em Arquitetura; depois logo vê, se quer ficar, se quer assentar arraiais, se quer voltar para Portugal. Contudo, e apesar de conhecer alguns “casos de sucesso”, não me parece que possa ser uma solução generalizável.
 
Tirando esta resposta que é mais ou menos “fácil”, não consigo responder mais nada, não tenho grandes soluções para este problema. Talvez sobre ainda a hipótese de fazer outro tipo de trabalhos não tão ortodoxos, numa perspetiva mais ou menos convencional da profissão: veria com bons olhos a área das “Medições e Orçamentos” ou a de “Técnico Responsável pela Obra” serem a pouco e pouco tomadas por jovens arquitetos, como tem sido, de há uns anos para cá, a dos antigos “Desenhadores-projetistas”. Também a Fotografia ou as Edições de Arquitetura, em papel ou em digital, ou a Cenografia, em teatro ou televisão, ou a Direção de Arte no cinema – mas estes campos, apesar de tudo, têm vindo a ser ocupados por arquitetos.
Claro que para os ateliers estabelecidos, emigrar não faz sentido; não posso emigrar com a minha estrutura! Posso é tentar trazer trabalhos de fora para dentro. É um bocado diferente: os mais novos vão vender a força de trabalho para ateliers estrangeiros e os ateliers em Portugal vão tentar captar trabalhos fora. Mas também não é fácil, tenho feito algumas démarches nesse sentido, estou em conversações em Macau, em Moçambique, no Bahrain, para ver o que é que se pode fazer. Além de gostar muito de Arquitetura e não querer parar de a fazer, mesmo nestas condições adversas, temos responsabilidades em relação às pessoas que estão connosco, que gostam de estar connosco, e para as quais temos que garantir trabalho. Mas esta é uma resposta pessoal, não vejo grandes saídas, não sei como é que se possa sair disto; vamos ver no que é que dá.

FR: E a reabilitação urbana não é uma possibilidade?
 

Mgd: É, mas é também preciso dinheiro. Quero dizer: a reabilitação urbana, mesmo que promovida pelo Estado, pelas Câmaras, é muito mais cara do que a construção nova. É feita em condições, a maior parte das vezes, muito adversas, no meio da cidade histórica, com imensas dificuldades de estaleiro, imensas dificuldades de trabalho. Só será possível com estímulos económicos, com descriminações positivas, com taxas para recuperação muito menores. Sem coisas dessas, e no meio de uma crise económica, ainda menos hipóteses haverá e a reabilitação pelos privados estará condenada a um nicho de mercado de luxo. Esse universo também é muito limitado; por muito que se diga que os ricos devam pagar a crise, não há tantos ricos como isso, já todos têm casa, e não haverá muitos filhos por casar. Os promotores vão gastar imenso dinheiro e as casas vão para o mercado muito caras. Mesmo que as vendam, surge outra perversidade: a gentrificação dos centros históricos, isto é, uma mudança social expressiva que tirará a esses centros as características populares que ainda têm, a alegria que ainda vão tendo.

Quando nas Escadinhas da Bica deixarem de viver os populares que lá vivem - e que fazem festas no Santo António, que decoram aquilo com papelotes, que comem umas sardinhas cá fora, que bebem uns copos e gritam uns com os outros -, quando aquilo passar a ser tudo uns enjoados de uns meninos filhos dos paizinhos que lhes compraram ali casa, recuperada, com muitas casas de banho e assoalhadas, aquilo passa a ser uma tristeza, uma chatice, um sítio horrível! Deixa de haver mercearias, deixa de haver  tascas e passa a ser uma rua fantasma de estores corridos, onde se sai de manhã e entra à tarde e não se vê ninguém. Eu detesto a ideia da gentrificação da cidade, decorrente dessa recuperação muito onerosa que vamos tendo. Se houvesse, realmente, mecanismos para tornar essa recuperação mais agilizada, mais barata, estimulante para os empreiteiros, ou para os promotores, de modo a que se pudessem praticar preços populares… a mistura social continuaria a fazer-se, com alguma vivacidade.