Manuel e Francisco Aires Mateus . 1parte

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EP - Queremos agradecer a presença dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus, é um prazer ter-vos connosco. Gostaríamos de começar esta conversa falando um pouco do vosso percurso enquanto alunos de arquitetura. Quais as disciplinas e os professores que vos inspiraram?

 

MM -Nós formámo-nos na Faculdade de Arquitetura num tempo difícil da faculdade, naquele momento da grande vaga dos pós-modernistas em Portugal. Eu, na altura, estava a trabalhar no atelier do arquiteto Gonçalo Byrne e o Francisco estava a trabalhar no atelier do arquiteto Eduardo Trigo de Sousa.

 

Os professores mais marcantes, para mim, foram os de Desenho, o (Fernando) Conduto e o Daciano e em Projeto, o Manuel Tainha, que tive no 2º e no 5º ano. Também havia um professor que começava a ser importante na Faculdade de Arquitetura, o Carrilho da Graça, mas nunca o escolhi, acabei sempre por optar pelo Manuel Tainha. Lembro-me bastante bem das aulas dele. Além de ser um grande arquiteto era uma pessoa que nos transmitia a ideia de que a arquitetura tem a ver com a vida, da vida como o centro de qualquer coisa. Depois, professores laterais importantes, lembro-me de um ou dois: a Maria João Rodrigues – que foi uma grande surpresa como professora porque era uma pessoa com uma enorme cultura – e a Maria Calado que foi uma ótima professora de História.

 

FM -  Eu apanhei tudo isto mas “em pior”… só consegui apanhar o Manuel Tainha no 5ºano, e ele estava um bocado ausente porque na altura tinha muito trabalho, e também recordo, claro, o Daciano e o Fernando Conduto. O Conduto pelo rigor no trabalho, pela necessidade de a pessoa se focar no que está a fazer, essa foi uma aprendizagem muito interessante. Mas devo dizer que, a nível de Projeto, não me lembro de ter um ano que tenha sido realmente motivador.

 

MM –Não tinha só a ver com os professores. Também tinha a ver com a época. A Faculdade não era motivadora.

 

FM –Eram tempos de algum confronto na própria escola, pela Direção, pelo controle da escola. Não havia preocupações que hoje parecem banais numa escola. E nós vivíamos um bocadinho desligados, não havia o envolvimento universitário que se recomendaria… havia aulas, mas não havia propriamente um ambiente muito interessante. A turma do Manel era bastante mais forte, até porque foi praticamente a mesma do princípio ao fim, e teve mais sorte com os professores.

 

EP - E como é que geriam as aulas com o trabalho no atelier?

 

MM –As aulas começavam às oito da manhã e acabavam às duas da tarde e havia muita gente a trabalhar em ateliers. Era um tempo diferente! Saíamos e íamos para o atelier e só depois se fazia o trabalho para a faculdade. Estudar, pouco….

 

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EP - A escolha pela Arquitetura foi uma escolha evidente?

 

FM -Eu diria que foi mais ou menos natural. A nossa mãe é pintora e o nosso pai era arquiteto e, por isso, alguma coisa por ali seria. No meu caso, ainda andei a ver Design, Arquitetura… depois fiz, na (escola) António Arroio, aqueles cursos profissionalizantes, em que se estava o dia todo na escola, com oficinas, e percebi que seria mesmo Arquitetura.

 

MM –Tu tinhas uma capacidade grande de deitares a mão a muita coisa. Primeiro eras baterista e tinhas aquela coisa de pintar, de fazeres t-shirts, de fazer animação, que eram coisas com uma relativa abertura para outras possibilidades e, portanto, nesse sentido, parece-me que hesitaste mais. No meu caso, não hesitei. Era Arquitetura. Em miúdo ainda pensei em fazer Direito, por influência familiar do avô. Mas, na verdad, a Arquitetura foi sempre evidente. O meu padrinho, o José Grade, era o diretor, e grande professor de Desenho, da Faculdade do Porto (na verdade, eu gostava era de ter ido para o Porto mas naquela altura eram tempos difíceis…nos anos 80 tudo era complicado, havia pouco dinheiro e acabei por ficar em Lisboa, e o Francisco também). A nossa mãe era amiga daquela geração do Siza e do Soutinho e tive alguma pena de não ter ido para a Faculdade do Porto – porque era, obviamente, uma faculdade com outro nível. A Faculdade de Lisboa nos anos 80 era medíocre.

 

EP - Quando começam a vossa experiência como professores é com o objetivo de não fazerem aquilo que vos tinham feito?

 

MM -Isso é seguro! Mas, na verdade, nós começámos a dar aulas em épocas totalmente diferentes. Eu comecei a dar aulas imediatamente a seguir ao curso, com 23 anos, fiquei a dar aulas de cursos técnicos e depois dei aulas de Projeto. Dei também aulas na Lusíada, mas continuei sempre na Faculdade de Arquitetura. Tive a sorte de ter duas experiências muito interessantes: uma foi ajudar o Tainha e outra foi ajudar o Manuel Graça Dias, que foi, para mim, do ponto de vista do ensino, talvez a experiência mais rica que tive. Fui uma espécie de aluno em segunda mão. Aprendi a dar aulas com o Graça Dias, que é um extraordinário professor, e que, além de nos motivar, nos abria imenso a cabeça – aos alunos e a mim - sempre assente na ideia de ter um grande rigor com o trabalho mas, ao mesmo tempo, uma enorme abertura para todas as coisas. No ensino mas também na vida profissional.

 

Depois houve uma fase na F.A. em que o Carrilho da Graça e o Graça Dias saem e eu fiquei com as turmas do 5ºano e foi o que mais tempo fiz, ser professor do 5ºano da FA, de onde,  depois fui, sumariamente, despedido. Mas nessa altura, na verdade, já estava a transitar. Tive nessa altura, na Lusíada, um tempo bastante interessante, especialmente por dar aulas com o nosso primo José Maria Assis e Santos. Depois, começámos a fazer pequenas experiências internacionais - primeiro só eu é que ensinava e depois o Francisco começa a ensinar quando vamos para Mendrísio, há 13 anos.

 

FM -Nessa altura já estávamos comprometidos com a Autónoma (UAL) mas como estávamos para dar aulas ao 3º ano, Mendrísio acabou por começar, efetivamente, antes.

 

MM –Mendrísío foi o encontro com uma escola que tinha o Peter Zumthor, grande referência para nós, como arquiteto e como professor. Lembro-me de que íamos à noite ver os projetos (dos alunos) do Zumthor, quando toda a gente se ia deitar! E aquela faculdade acabou por se transformar na nossa Faculdade. Ainda fizemos outras experiências, fomos a Harvard, mas foi uma escola que não acrescentou propriamente nada de especial, e fizemos algumas coisas pontuais, por exemplo um curso em 5 dias em Espanha e em Oslo, procurar turmas diferentes, na Eslovénia, onde fomos dar cursos. Nas nossas faculdades tendemos a fazer coisas que já dominamos, porque conhecemos os alunos e eles também nos conhecem e, às vezes, temos de ir para fora para, de alguma maneira, se conseguir aferir o que andamos a fazer.

 

De qualquer maneira, a partir do momento em que começámos a ensinar juntos, o ensino começou a ser uma atividade central. Nós não temos o atelier mais o ensino, temos atelier e ensinamos. Eu não sou arquiteto e além disso ensino, nem sequer distingo uma coisa da outra. Para mim, estar a ensinar ou estar a trabalhar é basicamente igual.

 

FM -Mesmo em termos de tempo, neste momento, tenho o tempo igualmente dividido.

 

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EP - Veem o ensino como uma continuidade do atelier?

 

MM –Ou então é o atelier que faz parte da investigação das aulas... não há distinção. Sempre nos pareceu fundamental o atelier ter uma relação muito direta com o ensino. O ensino é uma das atividades mais diretas nos seus resultados: uma pessoa recebe aquilo que dá. Não se recebe sem dar e, quando se dá, recebe-se sempre.

 

EP - E como foi a experiência de participarem na criação de um curso, como fizeram na UAL?

 

MM -A UAL tinha três pessoas que montaram o curso, o (João Luis) Carrilho da Graça, o (Manuel) Graça Dias e o José Manuel Fernandes. Depois, o Graça Dias trouxe para o 2ºano o Manuel Vicente, e o Carrilho da Graça trouxe-me para coordenar o 3ºano. Ficámos a ser estes os coordenadores dos primeiros quatro anos. Eu também era um despedido da Faculdade de Arquitetura, tal como o Manuel Graça Dias e o Carrilho da Graça, mas eu sou 11 anos mais novo do que eles e por isso havia ali um gap geracional, apesar de estarmos todos na mesma posição. Depois, cada pessoa se juntou com os seus colegas naturais, o Graça Dias com o Egas (José Vieira), o Carrilho da Graça com a Inês Lobo e nós juntámo-nos os dois (eu e o Francisco). Esta foi a estrutura inicial.

 

Curiosamente, quando começámos achávamos que sabíamos tudo sobre cursos de arquitetura e não acertámos, de todo. Achávamos que íamos ter um curso que, quando os alunos soubessem quem seriam os professores de arquitetura, a UAL iria ficar cheia de candidatos. Coisa que não aconteceu. A UAL tinha uma panóplia de professores mais interessante que qualquer outro curso, mas isso não serviu para crescer. Aliás, havia outros cursos, até privados, que se enchiam e que tinham muito maior capacidade de atração do que a própria UAL. E o curso da UAL, como é normal, levou alguns anos até descobrir qual era a sua vocação. Que eu penso que, hoje, que está muito mais certeira, assente na ideia de responder a alunos do 2º ciclo, porque é aí que ela na verdade tem capacidade de atração, quando os alunos já conhecem o panorama da arquitetura e já podem escolher de uma forma mais clara.

 

FM -Essa tem sido a aposta que tem sido ganha. No 2ºciclo estão a conseguir ter alguma captação de pessoas em Portugal mas muitas pessoas vêm de fora, porque vêm procurar determinados professores e isso é muito positivo. Uma escola demora muitos anos a implementar-se. Mendrísio também é uma escola que só tem 15 anos e confronta-se com outras escolas que têm 500 anos ou 300… não sei quantos anos tem a ETH de Zurique. Portanto há aqui coisas que demoram muito, até numa perspetiva de captação de um reconhecimento social, de um reconhecimento que os próprios pais fazem quando enviam os filhos.

 

MM –Mas hoje, em todo o caso, o reconhecimento da qualidade é relativamente mais célere.

 

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EP - Mas os alunos que saem do curso de Arquitetura da UAL são muito reconhecidos…

 

MM -Essa informação, que dantes levava algum tempo a difundir, hoje é muito mais rápida. Mendrísio é a escola do Zumthor. Depois de estar 10 anos na faculdade, ele sai mas o rasto fica e esse impacto é muito forte. O Zumthor, quando entra para a faculdade, é mais ou menos um anónimo e sai como um dos mais reconhecidos, senão o mais reconhecido, arquiteto do mundo e isso arrasta de alguma maneira a imagem da escola, que depois perdura.

 

Já a UAL tem um fenómeno muito interessante; podia não resistir à saída de alguns dos professores, como o Carrilho da Graça e como eu, que já damos muito poucas aulas. Mas a UAL não perde nada com isso. Reequilibra-se perfeitamente e tem hoje um papel muito mais claro do que tinha. E, ao ter esse papel mais claro, faz um trabalho muito melhor do que fazia.

 

FM –Mais claro e mais visível. No fundo, os alunos da escola têm ganho prémios Secil uns atrás dos outros, numa quantidade que não tem nada a ver com a dimensão da escola. Porque, de facto, são muito poucos alunos e há esta vasta coleção de prémios.

 

MM -Mas há o lado dos prémios e há o lado de se conseguir fazer Escola, e isso até é mais importante.

 

FM –Eu acho que o mundo académico reconhece isso. Um aluno que esteja na Ajuda sabe que há um clima e um tipo de trabalho que é da Autónoma e que não é o deles. Acho que a escola tem essa capacidade.

 

MM –Temos de pensar que nós estamos a falar de uma faculdade num contexto que é de crise do ensino. Não falo de crise económica, falo da crise da própria ideia de ensino e de como se ensina em arquitetura. Que é uma coisa que não sei se alguma vez não esteve em crise mas, nestes últimos anos, tem-se agudizado uma sensação de crise no ensino da arquitetura. Assim com se tem agudizado uma sensação de crise no próprio sentido cultural da arquitetura. São momentos expectantes, são momentos de transformação e o ensino também vai atrás, e eu penso que a grande vantagem da UAL é ter sabido, rigorosamente, posicionar-se de uma forma cultural. Naturalmente, é uma universidade cheia de dificuldades comparando com as universidades internacionais (dificuldades financeiras, dificuldades técnicas, de tempo, essas dificuldades que são conhecidas) e tem tido sempre a capacidade de as superar. E, de alguma maneira, construir uma Identidade. Podemos dizer que há uma ideia do que é ser aluno da Autónoma, e esse é um valor que normalmente não se consegue tão depressa, partindo da escala tão pequena que a UAL sempre teve. A Autónoma nunca foi grande, foi sempre uma escola minúscula. E sendo minúscula conseguiu essa identidade. Não precisou daquele tempo, nem dos meios que seriam os mais normais para o fazer.

 

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EP - Voltando um pouco atrás, à divisão entre atelier e o ensino, já ouvimos dizer aos alunos para aproveitarem melhor o tempo que estão ali porque nunca mais terão tanta liberdade. Vocês usufruem do ensino como o espaço de liberdade face à prática profissional?

 

MM -Nós nunca dissemos isso! Dizemos sempre o contrário. A nossa experiência é muito clara, eu tenho muito mais liberdade na vida profissional do que tive, em qualquer momento, na escola. O que nós dizemos aos alunos é que fazemos projetos exatamente da mesma maneira na vida profissional do que fazemos na escola. Não há um momento de grande liberdade na escola e depois há o momento do trabalho entediante na vida profissional.

 

É possível construir uma vida entediante? É! Mas também é possível fazer uma escola entediante. O que é necessário é manter o mesmo espírito com que nós fazemos um trabalho na escola e onde é fácil de ter uma certa liberdade, ao longo da vida. Uma pessoa ter 50 anos e ter a mesma frescura e vontade e graça que se tem aos 20, esse sim é que é um trabalho tramado. Nós não temos nada a ideia, nem o Francisco nem eu, de que há um mundo profissional entediante. Aliás, não temos nada uma vida entediante, do ponto de vista profissional. Podemos ter uma vida maçadora naquilo em que a vida profissional é maçadora para toda a gente, que é a dureza da vida. Mas não temos nada a ideia de que há uma liberdade maior na faculdade. A minha grande surpresa, e penso que o Francisco partilha isso, foi - quando começámos a trabalhar (logo quando começámos a trabalhar, não, porque aí não sabíamos nada) mas quando começámos a controlar o que estávamos a fazer - foi descobrir que se tem uma enorme liberdade a trabalhar. E ainda hoje é essa a sensação que eu tenho.

 

FM –É fundamental ter essa liberdade, porque se a pessoa não parte desse patamar está, necessariamente, tolhida. E é essa a ideia que temos de passar aos alunos. A ideia de que eles precisam de ganhar a sua liberdade, de mantê-la e de perceber o que é essa liberdade, que só é possível se for baseada numa atitude cultural e intelectualmente séria. Senão, transforma-se, muito rapidamente, em tontaria. Essa liberdade tem de ser enquadrada para que ela possa constituir um valor sério.