Manuel e Francisco Aires Mateus . 2parte

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EP - Gostávamos agora que nos explicassem um pouco o vosso percurso como arquitetos. Diziam-nos que, a certa altura, estavam os dois a trabalhar no atelier do arquiteto Gonçalo Byrne e depois tiveram a necessidade de criar o vosso próprio atelier….

 

FM –Foi um processo muito natural e essa naturalidade deve-se muito à generosidade que o Gonçalo teve connosco. Nós fomos começando a ter alguns trabalhos, que são os da cozinha da avó – começa sempre assim – que depois foram crescendo de escala e o Gonçalo, no fundo, foi-nos suportando ali dentro (nós tínhamos uma sala dentro do atelier do Gonçalo, que era uma espécie de satélite), e continuávamos com algumas colaborações. A certa altura, já tínhamos alguns colaboradores (do Gonçalo) lá dentro do nosso atelier. Até que a estrutura  cresceu para uma dimensão em que já não era comportável, nem decente, estar ali e mudámo-nos, mas mudámo-nos para o outro lado da rua! Ainda dava para esticar o cordão umbilical! Um atelier via o outro!

 

A naturalidade com que isto foi feito, faz com que nós não tenhamos a ideia de que “agora trabalhávamos no Gonçalo Byrne e depois já não.” Foi um processo mais ou menos contínuo. E, mesmo depois de sairmos, continuámos algumas colaborações em concursos, foi um processo muito linear e pacífico.

 

MM –Nós apanhámos um momento bastante particular. Tivemos a sorte de trabalhar para a Santa Casa da Misericórdia de Grândola e começámos aí uma relação com essa instituição, que mantivemos sempre. Depois, entrou a fase dos concursos. Em dois concursos ainda fomos convidados como os representantes dos jovens (eles faziam uma seleção de arquitetos e depois metiam o “jovem”) – o concurso para a Ordem dos Engenheiros e para a Reitoria da Universidade Nova. Mas foi essa mudança, desde os primeiros pequenos trabalhos, a Santa Casa de Grândola, uns pequenos concursos – na Cantina de Aveiro ainda estávamos dentro do atelier do Gonçalo – e, de repente, veio a Ordem dos Engenheiros – e foi aí que nós saímos, porque precisávamos de mais colaboradores – e depois, na Reitoria, já estávamos fora de lá porque entre o concurso e a atribuição do projeto demorou imenso tempo… nós, nesse concurso, tínhamos ficado em segundo…

 

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EP - Quando saíram, vinham com vontades novas, com ideias diferentes, de rutura?

 

MM –Não. Saímos a matar o pai, de alguma maneira, mas no bom sentido.

 

FM –A saída é sempre um momento de energia muito positivo, não é? É como quando uma pessoa sai de casa dos pais.

 

MM –Basta mudar de casa, há sempre umas coisas para arrumar! Nós, na altura, saímos nesse inebriante momento de começarmos a ter muito trabalho, e trabalhos enormes. Enormes como hoje não existem! Públicos e grandes!

 

FM –Com milhares de metros quadrados! Mas era o normal. Todos os dias estavam no jornal quatro anúncios para novos concursos.

 

MM –E aproveitámos esse momento para aprender o metier: como é que se constrói, o que é a obra… depois, na verdade, aquilo que é - para nós - o princípio da nossa vida profissional é a ressaca disto tudo!

 

MM –E aproveitámos esse momento para aprender o metier: como é que se constrói,o que é a obra… depois, na verdade, aquilo que é - para nós - o princípio da nossa vida profissional é a ressaca disto tudo!

 

Quando, em seguida, há um momento de hiato, em que nós ficamos sem trabalho – já nem sei bem porquê – fizemos as contas e tínhamos dinheiro para sobreviver três ou quatro meses. E o que fizemos foi… esquecer tudo. Começar a redesenhar tudo. E, verdadeiramente, pensar no trabalho que tínhamos andado a fazer. E isto acaba com a Casa de Alenquer, que, para nós, é o nosso primeiro projeto! Foi o primeiro projeto em que nós sentimos que era verdadeiramente possível controlar um projeto a sério, em todos os sentidos, controlar o que estávamos a fazer. Ou seja, parámos para pensar e redesenhar tudo o que fizemos, como se a Casa de Alenquer fosse o nosso primeiro projeto.

 

E recomeçámos com outros projetos assim pequenos - a Casa de Azeitão, uma casinha ali em Melides - e só passado um tempo é que voltámos a outras escalas, mas já com uma outra sensação de controlo, que não tínhamos tido anteriormente. E o que é engraçado é que esse momento é que é a fase de fundação, que, na verdade, não era possível sem ter experimentado desenhar imenso, construir imenso, fazer imensos concursos.

 

FM -E mesmo a atenção com que passámos a olhar para o projeto coincidiu com essa fase em que tivemos de pensar verdadeiramente sobre o que estávamos a fazer.

 

MM – Não olhámos mais tempo, olhámos foi com outra consciência!

 

FM –Sim. Mas quando se está a fazer um edifício de 10 000m2 há uma espécie de velocidade que se tem de ter, que muitas vezes impede uma pessoa de pensar e perceber o que está a fazer. Tudo isto enebria e fascina! E é curioso terem sido os projetos mais pequenos que puseram isto em evidência.

 

MM –É engraçado porque nós, na altura, dizíamos “o simples facto de construir já parece arquitetura!”. Quer dizer que uma pessoa, a primeira vez que vai a uma obra, e vê um edifício seu a crescer, vê uns muros de contenção… uma pessoa até tem um ar de que conquistou o mundo! E, depois, percebe que não, e que era, na verdade, preciso introduzir isto numa cota de valores diferente, que tem outros sentidos.

 

E depois também há um fator que é interessante: quando passa um primeiro tempo sobre as primeiras coisas que nós fazemos, há uma espécie de crítica dada pelo tempo sobre o nosso próprio trabalho, que é uma aprendizagem dura, mas muito elucidativa.

 

FM –E uma pessoa já pode olhar de fora, já se criou uma certa distância…

 

MM –Quando se olha para coisas que já se fez, são coisas que já não se mudam. Para o bem e para o mal, estão ali! E nem sempre é fácil… uma pessoa aprende muito com essa espécie de crítica, e essa fase de crise foi para nós boa porque fizemos esse recuo e, depois, conseguimos na verdade tomar uma atitude diferente.

 

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EP - Durante esse processo, e mesmo agora, sentem que a investigação que se faz em arquitetura vos apoia nalgum sentido?

 

FM –Eu acho que ajuda como ajuda um bom livro, como um bom filme, um quadro extraordinário ou como uma viagem cheia de possibilidades… ajuda porque faz parte da cultura.

 

MM –Estou de acordo até certo ponto… ajuda porque a arquitetura tem a ver com a vida. Portanto, tudo pode tocar a arquitetura. Não há atividade humana que não se cruze com a arquitetura! Aliás, a arquitetura é uma espécie de princípio da cultura, no sentido em que corrige a Mãe Natureza, que, naturalmente, estava inadaptada, senão nós não existíamos como profissão.

 

Depois, há um lado que tem a ver com a teoria da arquitetura, que eu acho que ajuda, no sentido em que nos permite olhar para as coisas através do olhar do outro. É como ir ver uma paisagem ou vê-la fotografada por um fotógrafo que se admira. Às vezes a paisagem é mais rica, outras vezes um olhar de alguém que tem um olhar crítico sobre aquela paisagem torna a paisagem mais rica do que ela, na verdade, se apresentaria a nós, diretamente. E às vezes, os críticos, têm essa capacidade. Porque os críticos são como os arquitetos, não é? Arquitetos há muitos e que nos interessem são muito poucos. Agora… eu gosto dessa visão da arquitetura, da crítica ou da reflexão sobre arquitetura, quando ela é verdadeiramente fundadora. Os textos mais importantes com que nos confrontámos foram escritos por arquitetos. Não por homens da teoria, mas da arquitetura: em português, textos do Taínha ou do Siza, internacionais do Zumthor ou do Herzog.

 

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EP - E referências em termos de obra construída?

 

MM -Começando pelos mortos, que são os mais importantes, Palladio, Borromini; depois, os grandes modernos, o Mies, o Corbusier, que é sempre inquestionável, e depois podemos saltar para os contemporâneos, não é?

 

FM –Eu estou aqui a percorrer os livros! Há uma coisa que se vê muito nos ateliers, e que nos diz a verdade, são aqueles livros que estão estragados: são os que são mais usados!

 

MM –Uma vez ouvi um tipo alemão, da teoria, que dizia uma coisa com piada: “a história escreve-se no futuro.” Nos últimos meses temos estado a olhar para projetos do (Sigurd) Lewerentz porque precisamos de afinar uma junta do tijolo à vista, e ele tem umas experiências. Vai ser uma influência do passado para o futuro, vamos escrever a influência do passado no futuro.

 

Agora se me perguntarem: “Quem é que verdadeiramente me desviava do meu almoço para ir ver?” Estes seguramente, mas estes já não fazem nada de novo, não é (risos)?… Depois os vivos, o Zumthor e o Siza, obviamente. Dos mais novos, iria visitar a Sejima, o Kerez, o Olgiati….

 

FM –Depois, pelo meio, ficam uma série de outras matizes. Há coisas que se revisitam numa qualquer ocasião, arquiteturas ou arquitetos a quem não se prestava tanta atenção e que, por qualquer razão, se tornam muito mais evidentes e muito mais interessantes.

 

MM –Assim por países, há três países a verificar: o Japão, a Suiça e Portugal. São os três países a ver!

 

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EP - E os novíssimos? O que acham destas experiências novas que têm surgido um pouco por todo lado, os arquitetos que trabalham com a comunidade ou que constroem eles próprios?

 

FM –Um aspeto muito interessante, embora não seja dessa categoria dos novíssimos, mas muito dignificante, foi a alegria que tivemos pelo José Adrião ter ganho o prémio AICA. É muito interessante o enfoque dado na ata do júri ao facto de ter sido uma recuperação ou uma remodelação feita de uma forma ativa e com um olhar crítico. Não é exatamente o padrão que estás a perguntar, mas é igualmente interessante perceber que esse mundo que está a emergir, designadamente, com os arquitetos mais novos, é também aquilo que é possível fazer neste momento. Que é um momento de crise. Não se constrói. E tem de se olhar para o que há e perceber que potencialidades tem.

 

Eu acho que há experiências interessantíssimas. Tenho pena de que essas experiências – por falta de dinheiro, por razões ideológicas ou de outro tipo – muitas vezes se transformem em qualquer coisa que está na fronteira entre ser ou não ser arquitetura. Porque ajudar uma comunidade que não tem esgotos a ter esgotos é uma atitude nobre mas se calhar não é arquitetura. Mas eu acho muito interessante esta possibilidade, e até acho que é um bocadinho o futuro, pelo menos o imediato, de perceber o que há e de que maneira se transforma, e é interessante que uma geração mais nova esteja muito atenta, porque eu acho que isto ainda só está a começar. Vai haver possibilidades enormes!

 

MM –As gerações mais novas estão muito mais bem preparadas do que as mais antigas! Não há qualquer comparação entre o conhecimento e as capacidades de um aluno de hoje com um aluno do nosso tempo. A diferença é abissal! As novas gerações estão muito mais prontas para avançar e para descobrir a arquitetura que não é do sistema clássico. Também não podem estar à espera do mercado de trabalho que outras gerações tiveram! Têm de construir o seu e têm de construir a sua forma de o fazer.

 

No outro dia estava a ler um livro, que vai sair agora nas edições 70, do Niemeyer. Ele fala do amor e da paixão pela arquitetura, mas diz: “Mas o que eu sou é engajado politicamente.” Porque no centro da nossa vida estão as pessoas, no centro das nossas preocupações estão as pessoas, esses é que devem ser os verdadeiros valores.

 

Muitas vezes, nós, em arquitetura, tendemos a confundir as coisas. Parece que trabalhar como apoio comunitário também é arquitetura e não é. Isto não tira valor a experiências novas que se têm feito, e que são interessantes, e que eu penso que revelam uma nova direção, que sempre foi um valor da arquitetura, mas que hoje é muito visível. Mas, de alguma maneira, é aquilo que a grande arquitetura sempre fez.

 

No fundo foi a paixão que todos nós tivemos com o aparecimento do Studio Mombai, esse sentimento de que há um tudo que é dado a um projeto. Uma pessoa percebe que o controlo é total, do craft que é feito em torno da própria ideia ao desenho e à produção. E isso dá um tempo ao projeto e à investigação muito rico e que é muito interessante para a arquitetura. Por outro lado, há o valor real, que é a pessoa ter um engajamento social ou politico, que é muito importante, mas eu não penso que a arquitetura tenha ou deva ficar só por aí. Penso que a arquitetura tem de experimentar muitos campos. E isso é uma coisa que as novas gerações já têm e que é boa, que é essa relação muito íntima entre o projeto e a realidade.

 

FM –No fundo, não é uma coisa única. Em Portugal houve as operações SAAL que eram mais evidentemente construção - agora as fronteiras estão um bocadinho mais esbatidas - mas houve um trabalho em prol da comunidade e até com uma forte componente ideológica e social, fortíssimo. Basta ver os filmes das reuniões e dos plenários… foram momentos absolutamente extraordinários.

 

Aliás, a seguir, na habitação privada, só havia boa arquitetura nas construções de arquitetura social. O Siza nunca fez um edifício de habitação durante anos… nem o Vitor Figueiredo, nem o Gonçalo Byrne… O que havia de habitação era habitação social. A habitação de promoção privada ou não existia ou era feita por outros arquitetos.

 

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EP - Olhando para o vosso percurso, já longo, e com um olhar mediado, esse olhar compensa a falta de “juventude”?

 

MM –Nalgumas coisas sim, mas noutra não. Eu acho que a experiência é um valor! E quando nós dizemos que já somos capazes de refletir sobre o que fazemos é porque já passou tempo… e isso compensa - mas só se conseguirmos manter essa inquietude própria da juventude. Os arquitetos deixam de ser interessantes quando deixam de se inquietar e, a maior parte deles, num determinado momento da vida, deixa de se inquietar e - na verdade - deixa de ser interessante! Normalmente é a fase em que se tornam mais conhecidos e até passam a ter ateliers maiores! Mas, na realidade, para a arquitetura, não têm interesse nenhum. Vão é produzir muito! Eu acho que nós só nos manteremos interessantes enquanto nos conseguirmos inquietar e duvidar!

 

FM – Este é um problema da criação. Eu costumo pensar que qualquer gesto me indique quando for melhor estar sossegado e não me maçar mais. Há, de facto, um momento, e às vezes não tem a ver com a idade, tem a ver com a pessoa deixar de estar inquieta.

 

MM –Aí está o grande perigo: A experiência é boa mas o hábito não!