Nuno Mateus . Formação . 1ªparte

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É com enorme prazer que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor Nuno Mateus. Seja bem-vindo. E Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico, que professores que teve, exercícios de que se lembra…

 

Frequentei a Faculdade de Arquitetura mas o meu curso foi um curso de Belas-Artes, feito na antiga escola no Convento de São Francisco. Era um espaço marcante, muito interessante nos corredores longos e largos e não tão interessante nas salas de aulas. Para alguém que saía de um internato, de um espaço muito cheio de lógicas, era um lugar vago, onde eu me sentia particularmente perdido. Entrei na faculdade em 79 e saí em 84 e, na altura, a faculdade era um lugar muito pouco estimulante, que me despertava pouco interesse.

 

Não fui para Arquitetura com a consciência de que era o curso que eu desejava. Somos pressionados muito cedo para fazer uma escolha e, portanto, acabei por fazê-la. Fiz a escolha que me pareceu mais aproximada das coisas que gostava de fazer, trabalhos com as mãos, desenhar. Na realidade, tinha a sensação de que tudo me interessava, que poderia ter feito qualquer outro curso, e também não encontrei durante os anos de curso, um estímulo escolar particularmente sedutor. Era um destino, ao qual eu ia todos os dias, uma atividade que eu tinha encaixado numa série de outras que me interessavam. Vinha de um colégio interno – cheio de regras e onde a personalidade individual das pessoas é moldada aos interesses de um espirito coletivo. Estava cheio de vontade de fazer outras coisas, mas senti que, era responsabilidade minha tirar um curso. Creio que o tempo que veio a seguir correspondeu de certa forma à procura da minha individualidade, adiada pelo colégio, e das várias coisas que efetivamente me interessavam. Entre estas, o curso de arquitetura preenchia um espaço parcial, para não dizer residual. O que me interessava mesmo era o desporto, que praticava em alta competição. Tenho uma história muito pouco eloquente e motivadora para transmitir sobre o meu curso.

O professor que me marcou mais foi o Daciano Costa, no segundo ano, na disciplina de Desenho. Mais do que o conteúdo específico da disciplina, confrontei-me com a ética da sua relação com os alunos: procurava entendê-los na relação consigo próprios, numa espécie de desconstrução que se passava através do desenho. O Desenho passou a ser, a partir dessa altura, uma ferramenta mais direta e mais estruturante de uma relação de apego com o curso, que para mim, até aí, era muito vaga.

 

Nesse segundo ano, comecei a trabalhar no atelier do arquiteto Costa Pecegueiro, passei a ter rotinas de trabalho e isso foi fazendo de mim um aluno que, mais ou menos interessado nas cadeiras, cumpria com os trabalhos com uma certa facilidade. Comecei a ter uma relação com a arquitetura muito mais evidente. A minha relação com o curso passou a ser mais profunda e confiante, por sentir progressivamente adquirir o domínio dos instrumentos da Arquitetura. Nessa altura comecei a acompanhar as obras do atelier, que foi para mim muito importante porque percebia efetivamente o que estava a aprender e sua aplicação na vida real, e como é que afetava os outros. E isso foi uma experiência muito motivadora.

 

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Porque decidiste procurar trabalho durante o curso?

 

Basicamente por razões económicas, mas não só. Nasci numa família de classe média que passou dificuldades para pôr 4 irmãos a estudar e tirar cursos e sempre prezei muito a minha independência. Durante muitos anos trabalhei nas vindimas, em Portugal e mais tarde em França. O curso abria-me horizontes culturais para os quais eu não tinha capacidade económica, para comprar livros e viajar. Para mim, o trabalho era uma forma muito pragmática de poder ter acesso a outras coisas mas, obviamente, transformou-se também num bem de aprendizagem.

 

 

Há uma história engraçada que me contaste que tinha a ver com o primeiro salário que recebeste e com um livro especial…

 

Sim, o primeiro livro que comprei foi a Arquitetura Popular em Portugal, que comprei a prestações. Custou-me na altura 20 contos, que são hoje 100 euros. Era para mim uma quantia desmesurável, e paguei-o durante um ano. Houve outro livro especial, que comprei em Berlim, com o primeiro ordenado no Daniel Liebskind. Ele pagava-me emcash ao fim do mês e eu entrei numa loja de livros e estava à venda a Obra Completa de Le Corbusier, um bloco de livros fetiche de todos os arquitetos, mas que a quantia é sempre tão grande e desencorajadora. Entrei na loja com o dinheiro no bolso e não resisti, larguei-o quase todo e saí com o livro, com o bloco, debaixo do braço…com imensa dificuldade, porque aquilo é tão pesado! Nunca mais fui o mesmo…

 

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Trouxeste alguma experiência desse tempo em que estudavas e trabalhavas quando foste convidado para integrar a equipa fundadora de Arquitetura da UAL?

 

Depois de acabar o curso, continuei a trabalhar durante dois anos nesse mesmo atelier – do Costa Pecegueiro – que tinha muita encomenda habitacional, mas tinha num modelo de trabalho que com o tempo se tornou para mim repetitivo. Eu, na altura, também dava aulas na Faculdade de Arquitetura, como assistente estagiário no quarto ano, na altura com o arquiteto Guedes de Amorim. E, ao fim de dois anos, tudo aquilo me parecia insuficiente. Se em termos económicos tinha a vida estabilizada, percebi que não era o que eu queria. Viajava bastante (essa era a aplicação essencial do meu dinheiro), lia, via Arquitetura a um outro nível para o qual eu sabia que não tinha sido preparado e que me interessava procurar. Fui para a Universidade de Columbia, fazer um Master e depois trabalhei com o Eisenman em Nova Iorque e depois com o Libeskind em Berlim. Pouco depois de voltar a Portugal, fui contactado pelo grupo de arquitetos que viria a fundar o Departamento de Arquitectura da UAL - o João Luís Carrilho da Graça, o Manuel Graça Dias e o José Manuel Fernandes - que tinham uma vontade explícita de criar uma escola de Arquitetura especial, muito centrada na vertente profissional específica de certos autores. Nessa altura, já o meu atelier tinha uma pequena visibilidade, que resultava muito deste percurso de que acabei de falar e da experiência do meu irmão José Mateus.

 

Foi muito interessante ver nascer este projeto, hoje com 14 anos, e é muito interessante ver à distância como o projeto de se consolidou, ver que ainda tem o mesmo tipo de sonho, de objectivos e de ambições e ver alunos e professores igualmente empenhados, apesar do contexto de fragilidades em que estamos mergulhados, e que continuam, paradoxalmente, a insistir na sua permanência.

 

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Como professor tentas dar aquilo que não tiveste no curso?

 

Na escola procuro, com os alunos, antes de mais, compreendê-los como pessoas. Não consigo ver o arquiteto como uma pessoa que faz coisas. Para mim o arquiteto é um mediador ético entre a realidade física e uma reciprocidade comportamental e de usos. Procuro, o mais possível, operar segundo exigências de uma lógica eminentemente ética porque os estou a preparar para uma intervenção no futuro, nem sempre certo. Não trabalho virado para o passado nem reporto aos modelos que tive. Creio que esses modelos estarão incorporados, e transparecem, bem ou mal, na forma como a minha relação com eles se desenvolve. Também não procuro passar modelos fixos, para além da consciência da responsabilidade incontornável e abrangente do nosso trabalho. Procuro, um a um, construir algo que pertence a ambos, que estimule uma adesão e uma evolução real do aluno. Não faço cátedras, não passo pensamentos testados e fechados. Não me vejo como uma pessoa que tem uma determinada informação a mais do que o aluno, mas que tenho um enfoque, uma determinada forma de ver, que me faz aprender e que posso transmitir. Aprendo muito a ensinar, porque me força a pensar permanentemente sobre a forma como penso, trazendo para o plano do consciente aquilo que se passa no inconsciente ou no intuitivo, para poder trabalhar operativamente sobre a evolução do aluno.

 

Vejo que outros colegas ensinam de formas muito diferentes e isso estimula-me muito. Deixa-me dúvidas, faz-me optar por determinadas estratégias, muitas vezes na procura de uma complementaridade que abra o espectro das possibilidades de aprendizagem.

 

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Queres dar um exemplo de um exercício que tenhas feito? Por exemplo, o que estás a fazer este ano?

 

O quarto ano, onde estou neste momento a ensinar, é o primeiro ano do 2ºCiclo e antecede o fecho do curso – em que se faz um grande projeto com uma peça escrita que o fundamenta, num modelo multifacetado, desenhado, escrito, pensado e informado pelas várias especialidades, como o modelo profissional que se segue. O que fazemos no 4ºano é antecipar esse modelo e preparar os alunos o melhor possível, dentro dos constrangimentos, para uma aproximação realista e crítica à profissão, sempre com um forte sentido conceptual e cultural. Queremos que a relação entre escola e prática possa vir para dentro da escola, para que a escola não se afaste demasiado da prática mas fomentar, apesar de tudo, uma atitude para que a profissão seja vista como um lugar para sonhar. Muitos dos professores que dão aulas na UAL, continuam nos seus próprios gabinetes a fazer projetos extremamente estimulantes e isso é uma atividade muito exigente mas necessária, como vocês bem percebem.

 

Neste momento, no 4ºano, juntámos as várias cadeiras em torno de um desígnio comum que é a Cidade. Como no 5ºano o projeto é habitualmente feito na cidade de Lisboa ou no território nacional, nós usamos o 4ºano para ir fazendo projectos em várias cidades europeias e complementarmos através delas a compreensão da nossa cidade e da aprendizagem do nosso papel no mundo. No ano passado estivemos em Barcelona, este ano estamos em Amesterdão e o projeto passa-se ao longo dos dois semestres, encadeados nas escalas de abordagem. Temos a consciência que o nosso trabalho é territorialmente global – podemos vir a trabalhar para qualquer lado do mundo. Temos que desenvolver estratégias de aprendizagem para lugares que não conhecemos necessariamente à partida. Este ano estamos a fazer essa análise da cidade de Amsterdão através de maquetes de betão armado. Os alunos manipulam e apreendem o betão nas suas múltiplas formas, na conceção dos moldes, na sua capacidade plástica, na sua necessidade de ter armaduras, no peso. A sala é um laboratório, físico e químico da matéria, onde ocorre a experimentação que depois os vai acompanhar ao longo da vida.

 

No segundo semestre, o exercício centra-se na habitação, que é provavelmente o tema que todos pensamos conhecer bem e, por isso mesmo, é um tema que revela muito quando nos dedicamos a ele, com uma investigação mais profunda de modelos que respondam à evolução dos sistemas de vida contemporânea. Cada cidade é construída por modelos habitacionais específicos. Conhecer a casa ajuda-nos a entender a cidade. E, Lisboa, numa casa dos anos 40 era tudo muito compartimentado e socialmente segregado. Hoje a cozinha ocupa o lugar central do fogo das casas vernaculares, mas agora processado num novo modelo social. Cozinhar, está hoje no centro vivencial do agregado familiar, a cozinha é gourmet, é chic, e deixou de ser um espaço à parte onde as pessoas convidadas não entram, muito pelo contrário, é o ponto de encontro e partilha. Procuramos compreender o que é a casa hoje, com outras hierarquias e modelos.

 

 

Estes exercícios que descreves são muito contemporâneos e têm relação com o atual estado da profissão.

 

Estas experiências sobre as cidades europeias têm sido muito interessantes, porque para além da descoberta que encerram, desdramatizam, evidenciam e relativizam a especificidade do nosso território. A ideia de que nós vamos trabalhar para a nossa cidade é uma ideia que hoje não se coloca a ninguém. Hoje todos sabemos que fica mais barato ir a Barcelona do que ao Porto, por exemplo. E é pena porque gosto muito do Porto. Trabalhar numa outra cidade prepara os alunos para desenvolverem uma familiaridade do que seria outrora estranho. Chegamos a essas cidades, temos sempre algumas aulas numa escola de arquitetura local e procuramos que esses professores interajam connosco ao longo do ano. Os alunos são hoje cidadãos plenos do mundo e terão necessidades diferentes, em tempos diferentes em lugares diferentes, para as quais eles devem estar operativamente aptos. Esse à vontade perante um mundo mais amplo do que os problemas circunscritos à nossa cidade ou ao nosso país ou à nossa europa, cria um sentimento de liberdade muito apelativo, de grande otimismo e esperança. É preciso não embarcar neste drama psicológico de crise que envolve nesta altura a nossa atividade, extremamente castrante, que eu procuro evitar levar para as aulas.

 

 

A ideia do mundo estar aqui foi sempre procurada por ti. Quando acabaste o curso, fizeste um percurso interessante sobre vários países.

 

Os percursos que eu fiz, hoje, todos os miúdos fazem, não é? Fazem Erasmus, mais de dois terços dos meus alunos são estrangeiros, começam a procurar a Autónoma para fazer o 2ºciclo. Hoje somos cidadãos europeus – cidadãos do mundo. Creio que muitas das fronteiras desaparecerão, muitas delas já desapareceram informalmente. A muitos níveis, não temos evidências de estarmos aqui fechados e não vou ser eu que vou contribuir para isso. Os meus alunos já pensam assim e vão com muita naturalidade a outros países, eu ia com o maior dos receios. O mundo mudou muito nesse aspecto.