INÊS LOBO . Formação . 1ªparte

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É com enorme prazer que temos como convidada a arquiteta e professora Inês Lobo. Seja bem-vinda! Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico, de alguns professores marcantes, de alguns exercícios que foram importantes e que ainda hoje se recorde.

 

Eu entrei para a Escola do Porto e isso começa por ser a coisa mais marcante do meu percurso académico. Infelizmente, tive que me vir embora ao fim de um ano, por razões familiares. Mas tive a sorte de apanhar um conjunto de professores dos quais ainda hoje sou amiga. Professores como o Sérgio Fernandez (que era o coordenador do primeiro ano) e o Professor Henrique Carvalho (que infelizmente já faleceu). E tinha História com o Professor Fernando Távora.

O curso era semelhante ao curso da Universidade Autónoma de hoje. Era um curso muito pequeno. Nós éramos uns setenta alunos no primeiro ano e tínhamos aulas dentro da mesma sala, num pavilhão muito bonito. E era bastante intenso, com uma relação muito direta com os professores, que eram incansáveis. Foi uma experiência muito interessante. A maior parte dos alunos era de fora do Porto e isso gerou uma cumplicidade muito grande, estávamos todos fora de casa, o que aumentou muito a intensidade de como aquele ano foi vivido. Depois, outra coisa interessante é que maior parte dos meus colegas, hoje em dia, são pessoas que todos nós reconhecemos: Nuno Grande, João Pedro Serôdio, Cristina Guedes, Francisco Vieira de Campos, Pedro Cortesão…

Quando vim para Lisboa foi um choque terrível, porque cheguei e as coisas não se passavam da mesma maneira. Era uma escola muito diferente e para mim foi difícil. Mas tinha de ser e lá continuei. E tive professores dos quais me recordo bastante bem… uma figura bastante importante foi o Daciano Costa, a Desenho – com quem tive uma relação difícil, mas bastante intensa. A Projeto só com o professor Silva Dias, no quarto ano, é que voltei a entusiasmar-me pela faculdade. Depois, com muita sorte, apanhei o Carrilho da Graça no último ano, que valeu a escola toda.. O arquiteto Carrilho da Graça “picava-nos” imenso, as aulas eram duríssimas, ele estava sempre a pôr-nos em cheque. Mas correu muito bem, foi muitíssimo interessante. E foi bastante importante porque depois acabei por ir trabalhar com ele, portanto foi a passagem para o mundo profissional a partir da escola.

 

 

A escolha pela arquitetura como curso, foi muito pensada ou foi mais intuitiva?

 

Eu não tenho arquitetos na família. O meu pai sempre foi um homem muito ligado ao universo das artes. Trabalhava nas bibliotecas da Gulbenkian e é um homem muito culto, foi talvez o meu principal professor ao longo da vida, tanto neste universo da arquitetura, como em muitos outros. E continua a ser! Ele diz-me que quando eu era pequenina, dizia: “Eu quando for grande quero construir casas!” Eu não me lembro nada disso, nem vivi a pensar nisso. Mas também não me recordo de viver a pensar em fazer outra coisa qualquer. Quando cheguei à altura de escolher, escolhi só Arquitectura no Porto e em Lisboa. Nunca pus a hipótese de ir para outra coisa. Mas isso não quer dizer que não me veja a fazer mil e uma coisas com o mesmo encanto e a achar que podiam ser formas de vida tão interessantes como Arquitetura.

 

Houve algumas ideias e experiências académicas que trouxe para as discussões no começo do curso da UAL?

 

A criação do curso da UAL foi muito interessante. Quando eu acabei o curso, existiam quatro cursos de arquitectura, o curso do Porto, de Lisboa, a Lusíada estava a arrancar e a Árvore, no Porto. E rapidamente começaram a aparecer cursos de arquitectura por todo o lado. Eu comecei a dar aulas na Lusíada, logo no ano que acabei o curso. E quando se forma o curso da Autónoma, havia algo fundamental que era não se querer fazer um curso igual a todas as outras universidades privadas que tinham aparecido entretanto. E juntam-se um grupo de arquitectos de Lisboa que não tinham tido uma experiência académica tão interessante quanto os arquitectos que tinham frequentado a escola do Porto, que, queiramos ou não, era uma Escola.

Quando se pensa o curso da Autónoma, não se pensa em fazer como as outras universidades privadas andavam a fazer, que era acima de tudo fazer cursos com muita gente para ganhar dinheiro. Tenta-se inventar de raiz um curso que vai buscar gente a todo o lado e que apareça como uma Escola de Arquitetura. Neste grupo estavam pessoas com experiências diversificadas, mas com uma ideia muito clara daquilo que uma escola não deveria ser. E isso foi extremamente importante.

 

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E com o passar destes 14 anos, em que ponto é que acha que está o curso da UAL?

 

É uma pergunta muito difícil… nós não sabíamos o que iria ser o mundo e o mundo da arquitetura nos anos que se seguiram à formação do curso e eu penso que não estamos a atravessar um momento muito interessante, nem no ensino da arquitetura, nem na arquitetura propriamente dita, nem na vida do arquiteto… e penso que as universidades estão a padecer desse problema.

O primeiro problema com que acho que a UAL se está a debater e com o qual se continua a debater, tem a ver com a quantidade de alunos. E não é porque entram poucos alunos, é porque não há possibilidade de escolha dos alunos e quando eu digo “escolha”, não é que se deva selecionar. O importante era aparecer muita gente, para depois ficarem os “bons” dessa gente que aparecia. E quando eu digo os “bons” são os que querem ficar, os que têm vontade de ficar e fazer o curso.

A esse problema junta-se outro que é o dos cursos estarem a desaparecer e os alunos também. Há menos alunos a entrar para Arquitetura e há também mais escolas públicas, eu penso que nos últimos catorze anos apareceram uma série de outras escolas públicas, que estão sempre antes das escolas privadas – por razões variadas mas sobretudo por razões económicas. Portanto, por muito que se queira, uma universidade privada de Arquitetura em Portugal, neste momento, não tem uma vida fácil, por muito boa que se seja, enquanto existirem tantas públicas como existem.

Com Bolonha, pensou-se que estas coisas podiam inverter-se um bocadinho abrindo livre concorrência nos últimos os alunos passariam a circular mais entre privadas ou públicas, mas não é isso que está a acontecer. Ainda não chegámos a esse ponto porque ainda não se paga nas públicas como numa privada.

 

Também é evidente que a Autónoma evoluiu imenso! Quando começou estava muito ligado àquele núcleo central - o arquiteto Manuel Graça Dias, o arquitecto João Luís Carrilho da Graça e o arquiteto José Manuel Fernandes – que foram figuras muito importantes nos primeiros anos da Autónoma – e juntaram-se pessoas mais novas, pessoas mais velhas, e de diversas áreas disciplinares também, para o discutir. Sempre foi um dos grandes objetivos da Autónoma dizer que um curso de arquitectura não pode ser só feito por arquitectos. E tentou-se sempre que as outras áreas disciplinares tivessem um certo peso. Depois, e penso que passados estes catorzes anos, com um olhar critico, não deixamos de estar com um curso em que o Projecto é o tema central e que ocupa, se calhar, espaço excessivo em relação às outras disciplinas. Outra coisa que é importante é que a Autónoma sempre defendeu que estávamos ali para formar arquitectos projectistas. Como é uma escola pequena, acho que foi isso que sempre quisemos fazer e funciona. De qualquer maneira, se olharmos para a quantidade de arquitectos que estamos a formar, hoje em dia, eu penso que o ensino da arquitectura não pode continuar a imaginar que vamos ser todos arquitectos projetistas, porque não vamos. Eu acho que a formação dos arquitetos tem de se reinventar um bocadinho e tem de passar por outras coisas. Não quer dizer que seja a Autónoma a fazê-lo, porque tem um perfil para formar esses arquitectos projetistas, mas temos de pensar um bocadinho sobre qual deve ser a formação dos jovens arquitetos neste momento.

 

 

O teu ano do Porto foi muito marcante, e citaste vários nomes que são bastante conhecidos no mundo da arquitectura em Portugal – achas que foi uma coisa casuística? Foi um espirito de geração? Teve a ver com a arquitectura naquela época?

 

Eu não acredito muito no acaso! Acho que as coisas acontecem porque alguma coisa se construiu para que elas acontecessem. O que acontecia na Escola do Porto, naquela altura, é que o curso era muito bem estruturado, muito bem feito. Acho que nós fomos os felizes contemplados por termos sido alunos, naquele momento, na Escola do Porto. Estava agora a lembrar-me de que o Ricardo Bak Gordon também lá andou no ano a seguir e, portanto, mais do que o meu ano, é aquele momento. Também pode ter acontecido que se tenha juntado um grupo de pessoas mais interessada na matéria e que agora se tenha a sensação de que se formaram muitas pessoas na mesma altura das quais sobreviveu muita gente. Se eu me quiser lembrar dos meus colegas da escola de Lisboa daquela altura, os que sobreviveram já são muito menos.

Se eu acho que isso pode acontecer hoje em dia? Não sei se pode e se acontece da mesma maneira. Há uma coisa que continuo a achar que a Autónoma tem conseguido; tem conseguido que muitos alunos trabalhem em conjunto, se proponham a fazer coisas… nem todos os anos acontece, porque também tem a ver com o grupo de alunos e como a turma funciona, mas acontece muitas vezes. Como o curso tem muita intensidade durante esses cinco anos, as pessoas não querem perder as coisas boas que essa intensidade produz, essa relação entre as pessoas e essa vontade de trabalhar em conjunto. Têm uma certa tendência em prolongar isso no tempo e penso que isso é extremamente importante para a vida profissional a seguir.

 

 

Que princípios tem na disciplina que leciona – Projeto, no quinto ano – e que alterações tem havido ao longo destes catorze anos?

 

Como disse há pouco, eu dava aulas na Lusíada e comecei a dar aulas ao 2º ano, que é um ano de que eu gosto particularmente, porque os alunos ainda não estão “deformados” e já não é o 1ºano, em que se apanha o embate da chegada à faculdade, que é mais difícil. Ali, já estão mais tranquilos, já houve uma primeira seleção feita e ainda estão bastante disponíveis para tudo o que possa acontecer.

Eu lembro-me de qu, quando andava no quinto ano, o João Luis tinha sido professor, no ano anterior ao meu, do 1ºano. Então resolveu fazer uma coisa altamente subversiva que foi fazer o mesmo exercício que tinha feito no 1ºano, mas agora no 5ºano e ir buscar os alunos do 1ºano para discutir o trabalho connosco. E os trabalhos do 1ºano eram bastante mais intererssante do que os nossos. Foi o primeiro embate com o João Luis, com ele a explicar-nos: “ Vocês estão aqui há cinco anos mas o que aprenderam tem pouco interesse! Vamos lá voltar atrás!”. Foi para tentar limpar o atrito acumulado ao longo dos quatro anos anteriores. Mas foi uma experiência bastante engraçada.

Eu acho que os primeiros anos são anos muito interessantes. É evidente que os últimos anos dão possibilidades de fazer outras coisas, que não se conseguem fazer no 1ºano. Eu sou um bocadinho irrequieta sobre o que fazer durante as aulas e acho que aquilo nunca funciona e nunca está bem e ando ali sempre a pensar no que é que, e em como é que hei-de dar as aulas e fazer os exercícios.

 

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Os exercícios dos alunos devem ou não adequar-se à eventual realidade, ou ao potencial mercado existente, ou, por outro lado, devem ser exercícios completamente livres onde os alunos têm a última vez oportunidade de fazer aquilo que sonham fazer?

 

Em relação ao que são as possibilidades de um arquiteto hoje em dia, ninguém imaginava há vinte anos atrás que o que iríamos ter agora era isto. O que é mais terrível, mas simultaneamente muito fascinante, daquilo que estamos a atravessar é pensar que nem sabemos bem o que é que é isto. O arquiteto tem de se posicionar como uma espécie de investigador, neste momento, olhar para o mundo - as questões para pensar são mais que muitas -, é um trabalho sem fim, a todas as escalas possíveis do trabalho de um arquiteto. Em grupos de trabalho muito mais do que como individuo, em grupos de reflexão.

O que é que isto deve ser no último ano da faculdade? Eu tenho uma postura um bocado egoísta em relação áquilo que é a faculdade, porque acho que estou sempre a fazer aquilo que me interessa fazer. Nem consigo fazer outra coisa. E aquilo que eu tenho tentado fazer no último ano da faculdade, principalmente desde há quatro/cinco anos, é tentar colocar os alunos perante um problema que ainda não está claramente enunciado e eu também ainda não sei enunciar sequer. Por exemplo, este ano o tema que lancei foi Monsanto. Monsanto é uma coisa que não funciona na cidade de Lisboa, neste momento. Tem problemas de acessibilidades, porque está cortado em todos os seus limites. É uma grande estrutura que foi inventada, de uma forma um bocadinho romântica, pelo Keil do Amaral para ser um Parque em que se passeia de automóvel, numa altura em que até havia poucos automóveis… hoje em dia não faz parte dos hábitos das pessoas que vivem esta cidade. É um espaço de uma dimensão gigantesca, completamente abandonado. E aquilo que eu tento fazer com os alunos é dizer: “Há este problema! Vamos lá perceber como é que isto se pode resolver.” É evidente que é um problema gigante, que não é resolúvel, nem por mim, nem por eles, em seis meses de aulas. Portanto, a ideia não é resolver o problema, é enunciar estratégias possíveis e experimentar, numa pequena escala, uma possível resolução de uma parte dessa estratégia. E a mim o que me interessa é a construção deste raciocínio todo, que ocupa mais de 50% do tempo, até eles encontrarem, finalmente, uma forma de actuar, com a qual estão muito entusiasmados, e encontram também possibilidades de construir naquele território. É um exercício difícil, que depende muito do grupo que se tem a funcionar. Há alturas em que funciona muitíssimo bem e há alturas em que é um desatre!

 

 

A estratégia de um professor cresce com ele próprio. O que fazes agora não era o que fazias há 15 anos atrás e hoje em dia o teu “eu” é mais diverso e ele transporta-se para o que os teus alunos fazem. Essa diversidade e experiência adquiridas com o tempo ajudam a colmatar a diferença geracional?

 

O que me une aos meus alunos não é a cadeira de Projeto são os problemas a que temos de responder hoje, que são os mesmos – independentemente de termos 20 anos, 40, 60 ou 80. Estamos todos a responder à mesma coisa. Portanto, une-nos o tempo em que isto está a acontecer. Estamos todos aqui a reflectir em simultâneo sobre as possibilidades de trabalho que temos agora. Tive uma experiência nova há pouco tempo, que foi ser curadora da Bienal de Veneza. Tive de montar um trabalho em dois/três meses e, se calhar, sem pensar muito nisso, acabei por fazer um exercício como faço na universidade - só me dei conta disso depois de já estar feito. Foi, mais uma vez, pegar num território, que era a cidade de Lisboa, e em vez de fazer com os alunos fiz com os arquitetos e disse-lhes: “Vamos lá fazer uma reflexão sobre uma série de temas sobre esta cidade!”.

 

 

O arquitecto Nuno Portas, numa visita guiada à sua exposição no CCB, dizia que na altura dele havia menos estudos e menos acontecimentos, mas que os que havia eram publicados e toda a gente os conhecia, e tinham continuidade e impacto. E agora produz-se muito mais e desaparece tudo. É o contraponto deste excesso de informação…

 

Produz-se muito em pouco tempo e depois não se dá continuidade. Não se aprofunda. Eu gostava imenso de ter um centro de estudos só sobre Lisboa e não me importava de estar sempre a fazer isto, porque não se esgota. E o mais importante é que cada vez que queres fazer um trabalho sobre Lisboa, tens de começar do zero. Tens de ir à procura das plantas, nunca se encontra nada… em qualquer período da história, as coisas não estão bem documentadas, organizadas. A informação até está aí, mas dá um trabalhão encontrá-la, perde-se imenso tempo.