INÊS LOBO . Percursos Actuais . 2ªparte

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 Estamos a falar dos alunos e do seu trabalho final de curso e de que eles a seguir se vão logo embora. Vão embora para onde?

 

Hoje em dia é para o estrangeiro! Mas eu acho que as possibilidades de trabalho continuam a existir. Acho que é um erro tremendo começar toda a gente a emigrar. Apesar de saber, também, que é muito dificil, neste momento, encontrar trabalho em Portugal.

Acho que há muito para fazer, mas não são coisas imediatas. Nestes momentos, em que se constrói pouco, é a altura ideal para se pensar muito. Não há poucas coisas em que se pensar, não há é dinheiro para se construir da maneira como se construiu há vinte anos atrás. Nós éramos um dos países mais atrasados da Europa no que respeita às necessidades básicas e, portanto, apanhámos a construção de tudo aquilo que é o Parque Escolar que temos, primeiro para o Ensino Superior e ainda para o Ensino Básico. Apanhámos a construção de Museus, Hospitais. Todas as necessidades básicas que Portugal não tinha, ao contrário do resto da Europa. Isso acabou. Mas no resto da Europa já acabou há muito mais tempo e não foi por isso que se deixou de construir. Aquilo que me parece, neste momento, é que se construiu muita coisa, construiu-se também imensa habitação, talvez desnecessariamente. Temos, hoje em dia, um Parque Habitacional muito maior do que precisamos, se falarmos de Lisboa especificamente. Mas Lisboa ainda continua a não funcionar bem. É uma cidade das mais bonitas que podemos encontrar pelo mundo fora – já conheço bastantes – é uma cidade fabulosa, onde se vive bastante bem, ao contrário do que se possa imaginar. É uma cidade onde é fácil viver, com imensas coisas positivas, mas é necessário continuar a pensar como pode funcionar bem. E isto tem a ver com as questões da proximidade, com as questões da mobilidade. Questões que têm sido resolvidas, não de uma forma consertada, mas de uma forma dispersa e, por isso, hoje em dia, têm imensos problemas. Que são possíveis de resolver com pequenas intervenções, subtraindo em vez de construindo. Fazendo uma série de operações que não têm só a ver com a construção, têm a ver, por exemplo, com a reflexão sobre os programas – como é que os programas se distribuem pela cidade, como é que a cidade se organiza e se estrutura, etc. E, para isto, os arquitetos são fundamentais, não há dúvida nenhuma. Portanto eu acho que nós temos de voltar a encontrar espaços de trabalho que estão disponíveis para que os arquitetos usem aquilo que sabem fazer.

E há uma coisa importantíssima que tem a ver com a separação dos saberes. Eu penso que a profissão do arquiteto tem de se reinventar outra vez porque nos últimos anos, em que estivemos ocupados a construir, separaram-se os saberes cada vez mais e mais… e na nossa área não faz nenhum sentido, nós não somos especialista de nada, nós somos exatamente o oposto – nós somos um não-especialista. Temos uma qualidade que, se calhar, muita gente já não tem porque se tornou especialista! Que é a capacidade de síntese e de pegar em todos esses saberes e construir, com isso, uma coisa. É essa a nossa profissão! E o que é que é se constrói? Podem ser variadíssimas coisas – pode ser um edifício ou um espaço da cidade, pode ser a definição de um programa de usos de um espaço qualquer, podem ser milhares de coisas. Nós temos de tomar consciência dessa capacidade que temos e sermos mais intervenientes em várias áreas, nomeadamente noutra área que eu acho que é importantíssima, que é a Política. Os arquitetos têm de se por a jeito para, também eles, estarem presentes nas decisões políticas, porque essas decisões colidem, todos os dias, com aquilo que é o espaço onde nós vivemos. E os arquitetos fugiram muito, nos últimos anos, dessas atividades, coisa a que, no tempo do Portas, mais uma vez, não fugiam. Portanto, houve um momento em que as pessoas se dedicaram a construir, porque havia muito para construir também – isto não abona nem a favor nem a desfavor de ninguém, foi um contexto. Mas as pessoas dedicaram-se a isso e perderam, claramente, espaço em áreas profissionais onde os arquitetos são importantes. Algo que não aconteceu, por exemplo, com os engenheiros, porque são muito mais e têm mais força enquanto classe profissional, estão sempre a tentar encontrar formas de se posicionarem na sociedade e terem um papel importante e ativo em todas as áreas que lhes dizem respeito. Os arquitetos perderam essa capacidade e perderam, se calhar, alguma importância também. Eu olho para os arquitetos como o Nuno Portas, o Álvaro Siza, o Fernando Távora, o Manuel Tainha, são personalidades que as multidões param para ouvir! Eles não estão só a falar de arquitetura, estão a falar do mundo! E qual é a sua relação com o mundo? E a tentar serem interventivos no mundo que é o deles!

 

 

Se calhar, faz sentido tentar encontrar ideais novos por que lutar, não é?    

 

Faz. A arquitetura confronta-se também com um problema gigante que é a perda de importância do ser humano. E nós trabalhamos para o ser humano. Nós construímos para as pessoas. Se as pessoas deixam de ter importância, a arquitetura deixa de existir. E isso é, talvez, a crise maior que nós temos neste momento. Nós temos de continuar a lutar para que o mundo exista para todos os Homens que habitam em cima dele.

 

 

Nos projetos que tens neste momento, já vês algumas mudanças, há esperança?

 

Eu acho que há imensas mudanças. Nós temos experiências, vindas da América do Sul, para os quais olhamos com grande entusiasmo. Mas também não podemos dizer que as grandes figuras da arquitetura, mediáticas e importantes no mundo da comunicação, não fazem o seu papel e não ajudam a que a arquitetura continue a ser discutida e a ser ouvida. Portanto, não radicalizemos as posições!

Há uma coisa que as pessoas, hoje em dia, quando saem dos cursos têm de fazer: têm de encontrar um espaço para trabalhar. Têm é de ter abertura para que o espaço que venham a encontrar seja bastante diferente daquilo que imaginaram; mas, têm de conseguir usar a sua formação para fazer um trabalho que pode ir desde estar a fiscalizar uma obra, a trabalhar numa câmara municipal e discutir problemas importantíssimos, na politica, num museu, no seu atelier, onde for… têm de ter capacidade de usar o conhecimento que adquiriram e que ainda venham adquirir em prol de um mesmo objetivo, que é que se continue a refletir, a construir e a usar os espaços da cidade que temos da melhor maneira. Desde que a postura seja essa, eu acho que tudo é possível. Não há trabalhos melhores e trabalhos piores. A arquitetura tem também esse aspeto bastante interessante que é atuar em milhares de contextos, não atua só num. Ser arquiteto é uma atividade bastante complexa e que pode ser muito diversificada. Até em áreas em que não somos a figura principal! É outra coisa que os arquitetos têm pouca capacidade para fazer. Imagino que o arquiteto possa estar a trabalhar com uma equipa que desenvolve um avião, onde não seja a pessoa fundamental, ou que possa estar a trabalhar numa equipa que está a fazer uma reflexão sobre uma comunidade que se desloca e passa a habitar um país qualquer e que as figuras principais sejam um antropólogo ou outra profissão qualquer… nós temos pouca capacidade para trabalhar dessa maneira. O que é pena. Temos sempre uma certa tendência, de formação, para liderar! O que vai deixar de acontecer…

 

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Nessa abertura da disciplina que tem de existir, e que devia ter sempre existido, como é que vê a importância da investigação e a relação que esta pode ter com a prática?

 

Penso que a arquitetura é uma disciplina muito nova nessa área. Se formos para as áreas como a Biologia, a investigação é o motor da disciplina. Na arquitetura, a prática profissional dos arquitetos foi mais o motor do que a investigação. A investigação sempre foi uma coisa paralela e, muitas vezes, as pessoas que estão na prática não são as pessoas que investigam. Acho que isso também devia mudar. Eu tento que aquilo que eu faço seja também investigação. Tive a oportunidade de fazer uma série de trabalhos, que foram muito difíceis de fazer porque não estava na área de investigação – e tive de “torcer” o atelier ao contrário para dar resposta a outro tipo de trabalhos. Ultimamente, tenho estado a desenvolver um trabalho para a CML sobre a colina de Santana. Que é um trabalho de investigação – é olhar para aquele pedaço de cidade, onde já há uma série de arquitetos a trabalhar, e fazer uma reflexão sobre o que ela pode vir a ser, com a intervenção daqueles arquitetos todos, quais são as outras hipóteses que tem e porque é que se deve mudar. Para fazer isto, tive de andar não-sei-quantos anos para trás e fazer uma investigação sobre aquele pedaço de território ao longo dos tempos, tive de equacionar programas e fazer um trabalho que, no fim, é um livro com quatrocentas páginas de projeto – que, se quisermos olhar de uma forma conservadora, de projeto tem muito pouco. Mas que é um grande projeto! Portanto, a investigação que me interessa é esta. Como podes imaginar, tem-me passado muitas vezes pela cabeça - e é uma questão que se coloca muitas vezes aos arquitetos da minha geração – se vou fazer o Doutoramento ou não. E, realmente, não tenho tido tempo para fazer doutoramento nenhum, e, como a prática no atelier é intensa, põe de lado esta questão da investigação. Eu não sinto necessidade de ir fazer o doutoramento porque passo os dias a estudar!

Na altura em que se produziu mais investigação, voltamos outra vez à geração do Nuno Portas, as pessoas não se doutoravam. As pessoas faziam coisas e registavam as coisas. Não era um tema na prática, ou na vida profissional de um arquiteto, nem na vida de um arquiteto enquanto docente. Hoje em dia está mais do que provado que é importante, ou que é necessário – para se continuar a carreira de docente – passares por outras etapas que não só a Licenciatura ou, neste momento, o Mestrado. Tens de continuar a fazer esse percurso. Eu, se não precisar de fazê-lo…vou fugir dele a sete pés! Mas estou a arriscar, evidentemente. Não tenho lugar em nenhuma universidade pública, não tenho doutoramento e não estou disposta a ir a correr fazê-lo. Também acho que isto, infelizmente, tem sempre a ver com fenómenos economicistas – que é ganhar dinheiro com isto e com aquilo e esta coisa dos doutoramentos é claro que tem a ver com uma questão económica… há momentos em que está tudo atrás destas coisas mas depois acalmam outra vez. Acho que o tempo dirá como é que as coisas se vão passar na realidade. Agora, que a investigação é uma atividade crucial para o desenvolvimento das disciplinas, eu acho que sim e acho que há uma área enorme em que os arquitetos se deviam dedicar mais, mas dedicar-se cruzando com a prática, que é o que se faz nas outras áreas – pelo menos nas áreas que a mim mais me fascinam, que são as áreas das ciências em que a aplicação da investigação é direta e permanente. A investigação está ao serviço da prática. E só pode ser assim.

 

 

No universo da nossa universidade, és a única mulher com uma atividade que continua a ser predominantemente masculina. Aliás, dos nomes todos que referiste, salvo erro, só disseste uma mulher também, não foi?Achas que faz diferença, ou trabalho é trabalho…

 

O problema das mulheres existe, e continua a existir, claramente. No outro dia, recebi uma distinção, pela Secretaria de Estado da Cultura, e o diretor-geral das artes dizia algo com que eu concordo plenamente que era: “O que era bom era nós não termos de estar a dar estas distinções…” Porque é que se hão-de distinguir as pessoas por sexos? Não se deviam distinguir. No mundo do trabalho deviam distinguir-se por aquilo que fazem.

Porque é que isso não acontece e está longe de acontecer? Por variadíssimas razões. Muitas têm a ver com questões culturais e de educação, que estão enraizadas há séculos na nossa sociedade, como as raparigas serem educadas de maneira diferente dos rapazes, nós temos a tendência para educar os nossos filhos com o que trazemos de trás. Isso é uma coisa que constatamos rapidamente, e que é arrepiante, mas é verdade.

Eu tive a sorte de não ser educada assim! Tive a sorte de ter um pai e uma mãe que não me educaram como rapariga ou como rapaz. Devo aos meus pais o facto de ter sempre olhado para o mundo não pela minha condição feminina mas como pessoa. Depois há coisas que continuam a ser evidentes na nossa sociedade ou na nossa natureza feminina: as mulheres têm filhos, os homens não. Apesar de serem pais. Mas esta questão da maternidade é uma diferença enorme num determinado momento da vida de uma mulher. E há coisas onde não podem ser substituídas. As mulheres é que dão de mamar, não são os homens. Há ali um primeiro momento da vida das crianças em que a mulher tem um papel importantíssimo. E isso condiciona a sua atividade profissional? Condiciona. E a sociedade está preparada para isso? Não, não está. Eu consegui gerir as duas coisas porque tenho um atelier que é meu e que tem uma creche. Levámos as crianças todas para dentro do atelier – eu e as mulheres que lá trabalham e os homens também. Mas isto é uma coisa completamente contranatura e que implica um esforço enorme e que, muitas vezes, até pode nem ser a melhor situação, eu tenho essa possibilidade, mas eu não sou um exemplo. Continua a ser difícil, mas também acho que, pessoalmente, não me queria ver substituída, é a sociedade que se tem de adaptar um pouco mais a isso. E o mundo do trabalho está feito para que tu trabalhes das oito às oito e que tenhas disponibilidade permanente e estejas permanentemente disponível no telemóvel e isso não é compatível com o querer ser pai e mãe… é um problema que não se vai resolver já, nem ninguém está a tentar resolvê-lo.

 

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Como foi o seu percurso até montar o atelier próprio e que princípios/programas novos adicionou ao atelier de arquitetura?

 

Eu nunca tive a ideia de montar um atelier sozinha. Quando saí do João Luís, foi por razões várias. Questões que até tiveram a ver com questões pessoais e que me obrigaram a ter que arranjar uma outra forma de ganhar dinheiro, numa altura específica. E montei o atelier com o Pedro Domingos. Depois, acabámos por nos separar, por razões pessoais e não por questões de incompatibilidade de trabalho, e nessa altura voltei a montar um atelier mas tenho um sócio, que não é arquiteto, e que é uma peça crucial no meu atelier. Sem ele, aquele atelier não existia porque ele é uma pessoa que gosta de ter uma empresa, e eu não tenho grande vocação para isso. Esta conjugação é uma coisa maravilhosa. Mas, muito sinceramente eu nunca tive aquela vontade de “agora vou fazer um atelier!”; aliás, quando montei este atelier, colocou-se a questão do nome (e isto agora vai colar à pergunta das mulheres) e eu dizia “Pomos um nome qualquer…” e toda a gente disse “Não, não! O atelier vai-se chamar Inês Lobo Arquitectos porque isso de ser gaja dá imensa saída!”. De certa forma, foi uma visão oportunista do problema! 

 

 

 

Se pudesses escolher, sem constrangimento, o que irias fazer no próximo ano, o que escolherias?

 

Há duas coisas que, para mim, com o atelier que tenho e com o que tenho para fazer neste momento, são extremamente importantes: por um lado, continuar a poder construir – que é uma coisa que, a um arquiteto que está habituado a fazê-lo há não-sei-quantos anos, custa imaginar que vai deixar de ter essa possibilidade. Por outro lado, aquilo que eu gostava, também, era de dar continuidade a estes trabalhos que tenho desenvolvido na cidade de Lisboa. O que é interessante quando se faz um trabalho de investigação é que ele não acaba e, portanto, poder continuar a avançar naquilo que fiz até agora, para mim, era talvez o mais importante.

 

O que é que eu gostava mesmo? Gostava de continuar a manter o atelier que tenho! Que não sou só eu, é uma estrutura com várias pessoas, já há muitos anos. Continuar a conseguir que este conjunto de pessoas possa trabalhar, possa ter as suas vidas, é o mais importante. Temos conseguido, até agora – apesar de estarmos a atravessar um mau bocado…o atelier reduziu imenso. Mas, apesar disso, eu neste momento estou a fazer os trabalhos mais interessantes de sempre! Estou com trabalhos em mão que eu não imaginava que fosse possível. Não dão muito dinheiro, obrigaram-nos a reduzir o atelier, mas as propostas são talvez as mais entusiasmantes que já tive, desde que comecei a trabalhar. Tenho esse trabalho na Colina de Santana, estou a fazer uma Mesquita na Almirantes Reis, são trabalhos únicos e que são muito gratificantes. Se isto continuasse assim, já não era mau!