JOSÉ ADRIÃO . Formação . 1ªparte

© João Carmo Simões .com - Todos os direitos reservados
 

Conta-nos como foi o teu percurso académico como aluno, como foi o curso de arquitetura, que professores ou exercícios marcantes tiveste, as experiências que foram construtivas para o percurso como arquiteto.  

Entrei para a universidade em 1984, para o curso da Universidade Técnica de Lisboa. Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que entrei para a Escola de Belas Artes, sair do metro no Rossio e subir a Rua Garrett. Estudar no Chiado foi um privilégio.

Durante os três primeiros anos na universidade em Lisboa, a aprendizagem foi feita essencialmente com os colegas. O ambiente na escola era muito intenso. A cidade estava a passar por uns momentos incríveis, os anos 80. A ESBAL era um sítio cheio de energia, tinha, para além de arquitetura, os cursos de pintura, escultura, design. Havia imensos músicos, pessoas que faziam moda e os estudantes de arquitetura estavam imersos nesse ambiente fervilhante de ideias. O “Bairro Alto” estava a começar.

Andávamos em investigação, a descobrir, a passear. As nossas aulas prolongavam-se para a rua, para a cidade e para as viagens que fazíamos pelos arredores de Lisboa. Depois procurávamos ver tudo o que havia para ver: cinema, exposições, concertos. Vivemos a cidade com muitas ganas, participando ativamente - e no entanto sem a consciência que o estávamos a fazer – num dos momentos mais estimulantes que Lisboa viveu nestas últimas décadas.

Depois pedi transferência para o Porto. Na altura só havia duas escolas, Lisboa e Porto. Sentia que as pessoas que vinham do Porto estavam mais bem preparadas. O curso era realmente muito mais exigente. Os professores marcavam e transformavam a vida dos alunos. Havia sempre as conversas sobre “os do Porto e os de Lisboa”. Na altura pensei “Não vou ter esta conversa toda a minha vida!” e mudei-me para o Porto. Pedi transferência do terceiro para o quarto ano.

 

A arquitetura foi uma primeira escolha, ou foi uma descoberta progressiva?

Não tive a certeza desde o início de que queria ser arquiteto. Não foi uma revelação na minha vida. Foi uma coisa já tardia, por volta dos vinte anos. Acho que o que me fez escolher a arquitetura foram as descobertas que comecei a fazer nessa altura. No entanto tinha também a vontade de aprender cinema. Nasci e, até ir para o Porto, morei sempre em Alvalade, no cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida Estados Unidos da América, nos edifícios do José Segurado e do Filipe Figueiredo (01). Alvalade, na altura, era uma zona muito ativa, haviagrupos de música eimensos artistas. A casa onde vivia era por cima do café “Vá-Vá”(02) e por isso sempre estive rodeado daquela energia.

 

 

© João Carmo Simões .com - Todos os direitos reservados

 

Como foi o Porto?

Quando fui para o Porto tinha vários objetivos: o primeiro era a escola do Porto. Mas também queria ir viver sozinho e a única possibilidade de conseguir isso era mudar de cidade. Depois queria ser aluno do Souto Moura. Então fui falar com o Souto Moura e disse-lhe: “- Gostava de ser seu aluno.” Ele respondeu-me que sim. Foi marcante tê-lo como professor. É uma pessoa inteligente e muito disponível. Lembro-me perfeitamente das aulas. O Souto Moura percorria os estiradores em sequência para falar individualmente connosco sobre os trabalhos, sempre com um lápis grosso. Riscava sobre os desenhos e fazia críticas muito boas. Normalmente havia alunos que o acompanhavam nas conversas em quase todas as mesas, eu era um deles. Tinha realmente um enorme prazer. Recordo-me que procurava sempre desenvolver as bases dos projetos que os alunos apresentavam e via distintos interesses em quase todos. Ativava as possibilidades de cada um. Dizia-nos, muitas vezes: “- Para desenvolver este projeto tens de ir ver isto e aquilo, aquele arquiteto, ou aqueleprojeto do Alvar AAlto”. Depois, mudava de estirador, dizia: “- Para este projeto tens de ir ver o Mies van derRohe…”. Apresentava como referências trabalhos e arquitetos muito diferentes, o que tornava as coisas interessantes e complexas. As direções distintas agradavam-me bastante. Foi realmente um professor extraordinário. Foi fundamental na minha formação e só por isso, ter mudado para o Porto, valeu a pena.

 

E que relação tiveste com a cidade?

Cheguei ao Porto em 1987, foi outra fase muito importante na minha vida. Primeiro comecei a viver sozinho; depois, foi a descoberta de uma cidade que eu não conhecia e de uma escola extraordinária, com um ambiente muito intenso. Os meus colegas do quarto ano já estavam juntos há três anos, tinham crescido e aprendido juntos, e eu procurei acompanhá-los. Tive a sorte de ir para um ano e ter colegas que realmente estavam a aproveitar ao máximo o tempo de escola. No meu quarto ano estava um ótimo grupo entre os quais o Guilherme PárisCouto, o Nuno Grande, o João Pedro Serôdio e a Isabel Furtado dos SeródioFurtado & Associados, o Francisco Vieira Campos e a Cristina Guedes dos “Menos é Mais”, o Luís Tavares Pereira e a Guiomar Rosa, dos [A] Ainda Arquitectura, o Pedro Mendes, o Pedro Cortesão, o Paulo Seco e outros também muito bons. Por outro lado, conheci os alunos que tinham acabado de entrar no primeiro ano e que estavam também a descobrir a cidade, comoo Rogério Gonçalves com quem mais tarde fiz uma revista que se chamava DA -Documentos de Arquitectura (03) e o Pedro Reis. Um ano excelente, cheio de pessoas que continuam hoje empenhadas e comprometidas como arquitetos, professores, críticos e cidadãos.

Logo no início do ano resolvemos, por iniciativa do Paulo Seco, arrendar um espaço de trabalho na Rua dos Almadas. Éramos cinco, os que partilhavam espaço ao qual chamávamos Almadas: o Luís Pereira, o Paulo Seco, o Pedro Cortesão, o Vasco Mendia e eu. Havia ainda noutra sala um ateliê de escultura. Fazíamos daquele lugar a nossa casa. Estávamos lá sempre a trabalhar desde que saíamos das aulas até de madrugada. Quando fui para o Porto, fui viver para uma pensão, a pensão Mondariz. Era uma pensão de uns Galegos, na Batalha onde unicamente ia dormir. A nossa vida era basicamente: escola, Almadas e as saídas necessárias, com a energia toda de estudar e estar numa cidade nova.

Toda a gente dizia: “- Tu vais para o Porto no quarto ano, que é o ano mais difícil, vai ser impossível” ou “ - Tu vens de Lisboa onde a escola é péssima.” Fiquei um pouco assustado. Naquela altura fui o primeiro aluno a pedir transferência de Lisboa para o Porto a meio do curso. Frequente era fazer o contrário, do Porto para Lisboa. Mas correu muito bem, consegui ter uma nota razoável. Depois, fui viajar.

No verão já tinha por hábito andar pela Europa, à boleia. Nesse ano a minha viagem acabou por se prolongar mais tempo. Fui para a Suíça, arranjei trabalho numa marcenaria, depois num ateliê de arquitetura e fiquei uns meses. Decidi não voltar para o Porto e continuar um ano a viajar e a ganhar experiência. Penso que os cursos não precisam de ser feitos de rajada. Cada aluno tem o seu tempo. Na altura achei que não tinha maturidade para voltar e ir logo para o quinto ano, apesar do quarto ano me ter corrido bem. Trabalhei então num ateliê em Montreux, na Suíça. Tinha toda a Europa central ao alcance de umas horas de viagem: Itália, Bélgica, França, Amesterdão, Berlim - vi imensa arquitetura. Quase todos os fins-de-semana aproveitava para viajar. Depois decidi ir para Londres onde conheci a Teresa Novais e o Jorge Carvalho, dos aNC, que estavam já a fazer o sexto ano de estágio pela escola do Porto. Enviei currículos e consegui trabalho. Fiquei lá um ano.

 

 

© João Carmo Simões .com - Todos os direitos reservados

 

Quando regressaste ao Porto, perdeste a turma que tinhas no quarto ano, que tinha sido muito boa...

Perdi a turma excelente que tinha, mas sabia que ia apanhar alunos que já conhecia e gostava. Entre eles o Pedro Pacheco. Quando voltei vinha com uma nova experiência de vida, e fiz o quinto ano com o Carlos Prata. Nesse ano aconteceram coisas muito boas: houve o ciclo de conferências “Discursos sobre Arquitetura” (04), foram ao Porto muitos arquitectos que estavam a começar a consolidar as suas experiências nessa altura - o Herzog e de Meuron, o Peter Zumthor, o David Chipperfield.

Foi também o Josep Llinás, de Barcelona, que me fascinou. No fim da conferência, fui falar -lhe e disse que gostaria de trabalhar com ele. Já estava a prever que o meu sexto ano ia ser uma experiência prática de ateliê. Queria ir para Barcelona, que já conhecia das minhas viagens pela Europa, e ele disse que sim. Quando acabou o quinto ano, o Pedro Pacheco e eu fomos então trabalhar para Barcelona com o JosepLlinás. Pedimos ao Souto Moura para ser o nosso orientador de estágio e ele aceitou. Ter um orientador de estágio como o Souto Moura, voltou a ser um privilégio. Totalmente disponível, com umas críticas e com umas orientações realmente muito boas e atentas.

Passei um ano em Barcelona a trabalhar, a viver, a descobrir outra cidade. Barcelona ainda não era o que é agora. Antes dos Jogos Olímpicos de 1992, Barcelona era uma cidade muito mais dura, com umas ramblas selvagens que tinham um ambiente típico de porto, marinheiros e prostitutas. A Barcelona que conhecemos hoje em dia não tem nada a ver com a Barcelona daquela altura. Nem sequer era uma cidade desejada. As pessoas conheciam razoavelmente Madrid, mas Barcelona não.

Vivíamos no Borne, ao pé de Santa Maria do Mar, nessa altura um bairro mal-afamado que hoje se transformou num bairro caro e turístico.

A minha relação de proximidade com Barcelona continuou ao longo dos anos. Em 1996 comecei a fazer o Mestrado organizado em simultâneo pela Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) e pelo Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) que era coordenado pelo Manuel de Solà-Morales. Esse mestrado, por uma série de razões, parou. Por esse motivo inscrevi-me no Mestrado Metropolis, coordenado pelo Ignasi de Solà-Morales. Os professores eram bastante bons, havia aulas e conferências ótimas. O Ignasi era uma figura ímpar e um intelectual brilhante. Falava sem medo sobre assuntos bastante polémicos e delicados, tanto de arquitetura como de política, como a questão basca e catalã. Era corajoso e não tinha problemas em ser politicamente incorreto. Muitas vezes, isso, na academia e nas instituições perde-se, com prejuízos óbvios para pluralidade da investigação. A parte curricular do mestrado era dada no CCCB, por isso continuei no meio da cidade. Isso fez-me assistir toda a evolução de Barcelona tal como a conhecemos hoje e perceber que o que se passou em Barcelona durante duas décadas, de 1992 até agora, foi fruto de planeamento e de muito trabalho, com uma grande antecipação e com muitos arquitectos envolvidos.

 

Na altura em que fizeste o curso, a Europa era o destino por excelência de quase todos os jovens portugueses. Hoje em dia estamos a assistir a um outro tipo de viagens, para fora deste continente. Há outro tipo de interesses…

A viagem, naquela altura, era uma coisa muito importante. A minha geração, dos anos oitenta, passou uma fase importante de descoberta. Depois do 25 de Abril as coisas começaram a mudar muito rapidamente. Líamos livros como o Jack Kerouac, “Pela estrada fora”, e víamos filmes como o “Subway Riders” do Amos Poe e o “Stranger than Paradise” do Jim Jarmush. Havia um apelo à viagem. Na Europa, junto àssaídas das cidades havia uma multidão de miúdos a apanhar boleia. Lembro-me uma vez numa saída de Paris, éramos quase uma centena. Havia uma população que realmente viajava e que o fazia com naturalidade e prazer, e que apreciava imenso essa liberdade. Quando saíamos em viagem não tínhamos destino fixo. Íamos viajar por viajar, com pouco dinheiro, e quanto mais tempo ficássemos, melhor. Ia-se parando para ganhar algum e continuar a viagem, mas o principal intuito era viajar. Agora viaja-se de uma maneira diferente. Na altura era impensável apanhar um avião, porque era muito caro. Ia-se de comboio. Mas, muitas vezes, para poupar o dinheiro do inter-rail, e porque era mais divertido, ia-se à boleia.

Em Lisboa, quando tinha quinze ou dezasseis anos, todos íamos para a praia à boleia. As pessoas iam para a Praça de Espanha e estendiam o braço: parava um carro e levava-nos para a praia. Agora não, agora os miúdos vão quando têm carro. Há o problema da insegurança - que às vezes é mais ficcionado do que real. Quer dizer, todos nós então fomos confrontados com situações de perigo real, mas sabíamos enfrentar e resolver essas situações.

 

 

José Adrião - Todos os direitos reservados

 

A viagem é um complemento direto de formação essencial. Os arquitetos têm a necessidade de ir ver coisas. Quando o Souto Moura dizia “Vão ver este projeto”, vocês queriam era mesmo ir lá ver, não é?

Claro! Íamos ver o Adolf Loos, no bairro mais periférico de Praga, ou o J.P.Oud nos subúrbios de Amesterdão. Conseguíamos chegar lá: tínhamos ido, tínhamos visto. Essa experiência, para nós, era muito importante. Acho que é fundamental ver onde é que as coisas estão, perceber a sua relação com a envolvente, perceber o cheiro, a textura. Mais tarde, o Ricardo Carvalho e eu (mais o Ricardo que eu) começámos a organizar umas viagens com um grupo de alunos, professores arquitetos e amigos. Éramos vinte ou trinta, e fizemos viagens memoráveis. Fizemos uma que, para mim, foi determinante. Fomos a Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, em doze dias. Tínhamos os dias totalmente programados - claro que estas viagens são completamente diferentes das outras viagens - estas viagens têm um objetivo muito específico, que é ver arquitetura, e realmente há coisas que se não forem planeadas não se conseguem fazer.

Houve um dia em que vimos a Marquise, do Oscar Niemeyer, o SESC Pompeia, da Lina Bo Bardi, a FAUUSP, do Vilanova Artigas e o MUB do Paulo Mendes da Rocha. Foi determinante. Conhecia as obras da Lina Bo Bardi de publicações, mas as suas obras (como quase todas) não se podem entender se não forem experienciadas. Coisas assim, nunca tinha visto, nunca tinha sentido. Intuía que havia aquela forma de fazer arquitetura, mas nunca a tinha visto construída. O Vilanova Artigas fala da “espacialização da democracia e da liberdade, onde todas as atividades são lícitas”. Realmente chega-se à FAUUSP, e percebe-se que aquele edifício tem uma estratégia e um programa muito claro na construção da arquitetura. Entra-se no recinto do campus universitário e depois chega-se a um edifício que é a escola de arquitetura. Esse edifício não tem portas na entrada. Não tem literalmente portas. Há um átrio gigante, iluminado com luz natural que dá acesso a umas rampas enormes que vão dar às salas de aula. Nesse trajeto não se passou por uma única porta. São espaços que estabelecem uma relação total entre eles. É muito potente.

Há uma coisa que me fascina na arquitetura brasileira dos anos cinquenta, sessenta e setenta que é a construção programática da liberdade e da democracia. Os edifícios são muito generosos, muito fáceis de usar, muito simples. A Marquise do Niemeyer é exatamente isso: uma grande pala que protege do sol e da chuva e onde se podem fazer imensas coisas. Podemos estar por baixo da Marquise num dia de sol, e de repente começar a chover, como acontece muitas vezes no Brasil, e as pessoas param e ficam ali a olhar para a chuvada… Depois, a pala é uma cobertura gigante com umas gárgulas que recolhe as águas da chuva. Quando para de chover, as gárgulas continuam a deitar a água que a cobertura acumulou. As pessoas começam a andar de skate e de bicicleta e a passear de um lado para o outro e continua a sair água a jorros da cobertura pelas gárgulas, para pontos específicos do parque e do jardim. Quando a arquitetura consegue através de coisas muito simples, muito claras, com esta intensidade poética é realmente emocionante.