JOSÉ ADRIÃO . Pedagogia e Prática . 2ªparte

 

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Nas aulas que dás aqui na UAL também proporcionas aos alunos a experiência da viagem.

O Juan Herreros explicou uma vez um projeto que fazia com os alunos, na escola de Madrid. Combinava encontrar-se com eles algures em Marrocos. O programa era criar um albergue que deveria abrigar um viajante que ia da Europa em direção ao sul do continente africano, e um africano vindo do sul a emigrar para o norte. Estas duas pessoas iam encontrar-se num sítio específico, e - nessa altura - iriam ter exatamente as mesmas necessidades: comer, descansar, refrescar-se, tomar banho, etc. Este albergue devia ter a função de poder receber, de uma forma confortável, estas duas pessoas. Um exercício excelente não é? Nós, na impossibilidade de irmos para Marrocos, ou para mais longe, começámos por um exercício na Ilha de Faro e depois repetimos em Sagres, Arrifana e Porto Covo. A ideia principal é tirar os alunos da sua zona de conforto, que é a cidade onde vivem, e ir para sítios que são, para a maior parte deles, desconhecidos. Assim conhecem-se uns aos outros. Estão lá um fim-de-semana, a dormir, a passear, na praia. Depois, quando voltam, têm de fazer uma apresentação do sítio de uma forma muito intuitiva. O exercício tem a ver com essa deslocação, estar num sítio estranho, num sítio que não faz parte da rotina. Numa fase seguinte começamos com a análise e então o entendimento do território começa a revelar-se.

 

Neste momento o terceiro ano tornou-se um ano marcante, e vocês fazem muito por marcar essa passagem do terceiro para o quarto ano, reforçam muito a importância do terceiro ano…

O terceiro ano com o Ricardo Carvalho, e agora também com o Rui Mendes, é o final de um ciclo e por isso tem de haver uma espécie de síntese. Nesse sentido propomos exercícios específicos que evoluam de uma escala territorial para uma escala mais íntima do habitar. Sítios como a Arrifana, Sagres, Porto Covo, a Ilha de Faro, são muito assimétricos. Têm os períodos de verão, extremamente intensos, e os de inverno, ondemuito pouco acontece a não ser esperar pela próxima temporada alta. São lugares maravilhosos, com paisagens extraordinárias, mas cheios de problemas, com planeamentos equivocados, com construções mal feitas. Por exemplo, na Ilha de Faro e na Arrifana, as casas ilegais, construídas de uma forma precária, estão muito mais em consonância com o lugar do que as casas legais, de fundações em betão, paredes de tijolo, paredes duplas, piscinas, essas coisas todas. Mas, muitas vezes, essas construções ilegais, mesmo sendo frágeis, põem em causa o território onde foram construídos. Na Ilha de Faro tiveram de ser demolidas, porque o território está em erosão séria e alguma coisa tem de se fazer.

No início, não existe um programa definido de projeto. Vamos aos sítios para descobrir quais são os temas e as questões relevantes para abordar. Há uma primeira fase bastante intuitiva, que é aprender a olhar para as coisas. Chegamos ao sítio, por exemplo a Arrifana, passeamos, e somos confrontados com uma paisagem escassa, rarefeita, rude, ventosa. Depois, quando começamos a estudar a flora, a fauna, a geologia percebemos que há dezenas de espécies protegidas, únicas no mundo, e passamos a ter de repente imensos dados para projeto que necessitamos de selecionar e hierarquizar. E não são só as várias camadas de vegetação, fauna e geologia, mas também os de uma ocupação humana milenar. Há caminhos onde conseguimos imaginar que tenham por ali passado pessoas há três mil anos em direção ao sul, ou do sul em direção ao norte.

Quando começam a aparecer estas camadas todas, as coisas começam a ser muito interessantes. Pensamos que a experiência que os alunos devem ter neste terceiro ano é aprender a construir um projeto a partir de uma estratégia muito clara que consiga identificar os problemas e que não crie outros problemas. Quando começamos a trabalhar não há programa e, aos poucos, com a evolução do trabalho detetamos os problemas ou os eventuais programas que estão em falta naqueles lugares. Pode ser um centro social, pode ser um pequeno albergue, pode ser um surf camp. Normalmente é com base na análise elaborada pelos alunos que decidimos o que se vai fazer.

No terceiro ano queremos que os alunos aprendam a construir o projeto desde uma grande escala até ao detalhe, sempre seguindo um raciocínio que deve estar em sintonia, do início ao fim. Quando as estratégias definidas têm como base o território e as questões são reais, os projetos tendem a ter uma simplicidade e uma naturalidade que está próxima do evidente eisso, nestafase, pode ser interessante. Todos os projetos têm de conter raciocínios claros e precisos.

Queremos que os alunos consigam explicar bem as suas opções. Por isso, desde o princípio, a apresentação dos trabalhos é sempre feita em partilha perante os professores e perante a turma. Os alunos chegam ao fim dos semestres e, peranteo júri final, sabem explicar coerentemente um raciocínio. Dizer exatamente as frases certas no momento certo, de acordo com um texto elaborado que faz a síntese do projeto, e isso é muito gratificante.

Na minha formação, ao longo dos seis anos de estudo em Lisboa e no Porto, creio que apresentei duas vezes um projeto perante uma plateia. Foi algures no segundo ano em Lisboa, e na apresentação da tese final perante o júri no Porto. Acho difícil que um aluno, que vai ter como profissão explicar constantemente as suas ideias e raciocínios a outros, fique preparado desta forma. Penso que os alunos agora saem mais bem preparados da universidade do que eu saí.

 

 

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Muitos dos nossos alunos estão a trabalhar em Angola, ou na América do Sul, partem para um contexto muito diferente do europeu, de que falavas inicialmente. Será que este tipo de exercício também os prepara para trabalhar nestes países?

       A preparação nas escolas portuguesas, em geral, é boa. Com o curso da UAL adquirem instrumentos e ferramentas de trabalho que, em comparação com muitas universidades que já conheci, são de um excelente nível. Adquirem uma coisa que é fundamental: saber pensar, eraciocinar, dentro de um âmbito disciplinar. Conseguem criar raciocínios e esses raciocínios podem ser aplicados a escalas pequenas ou a escalas maiores. Penso que um aluno, a partir do momento que começa a saber encadear e desenvolver, através de projeto, uma estratégia de trabalho coerente, cria um método que pode aplicar em diferentes situações. É preciso identificar bem os problemas, as necessidades de um determinado sítio ou lugar, é preciso resolver as questões de uma forma justa e acertada e é preciso simplificar. As ferramentas e os instrumentos que adquirem na universidade são sempre úteis, seja para trabalhar em Angola, seja para trabalhar num instituto de conservação da natureza, seja para trabalhar em planeamento, seja para trabalhar em urbanismo, ou simplesmente como cidadãos.

Os alunos descobrem a arquitetura e o prazer da arquitetura em momentos diferentes: alguns no primeiro ano, outros no segundo, outros no terceiro. Acontece termos alunos que por alguma razão estão desmotivados, ou que ainda não perceberam o sentido das coisas. Por vezes descobrem connosco que o que estão a fazer na universidade pode ter sentido e que podem obter imenso prazer com isso. Há alunos que repetem anos, que chumbam, e depois são alunos brilhantes. O que é preciso é ter calma e saber que, na universidade, é preciso estar completamente atento. Li uma vez num sítio qualquer “Diz-me que professores tiveste, eu dir-te-ei quem és”. Esta frase tem sentido para mim. O contrário, é passar ao lado de cinco anos fundamentais e, eventualmente, ser um profissional medíocre.        

 

 

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De alguma forma enfatizas muito a importância dos saberes complementares à arquitetura, das outras coisas que uma pessoa vai descobrindo, quer seja em termos académicos, pelas viagens, pela música e pelos amigos…

A arquitectura pode ser feita de tantas formas, e há tão boa arquitetura e tão diferente! Há uma coisa que me parece muito interessante: quando as coisas são genuínas. Quando há arquitectos que têm um discurso genuíno sobre as coisas, isso nota-se. Quando o Ricardo Carvalho e eu fomos diretores do Jornal dos Arquitectos, entre 2006 e 2009, fizemos entrevistas a diferentes arquitectos - Álvaro Siza, Aires Mateus, Souto Moura, Gonçalo Byrne, Jean Philippe Vassal, Carrilho da Graça, Juan Herreros, Manuel Graça Dias, Manuel Salgado, Paulo Mendes da Rocha, os Promontório e Zumthor. Cada um deles expôs a sua maneira de se relacionar com o mundo. A arquitetura que produzem transmite isso. Creio que das diferentes combinações entre a nossa maneira de fazer, a nossa forma de sentir e de nos posicionarmos no mundo como cidadãos e profissionais, podem resultar coisas incríveis. Mas as coisas só se tornam interessantes e só conseguem ser realmente úteis para os outros quando são genuínas. Mesmo contendo contradições e não sendo lineares. Por isso, o que dizemos aos nossos alunos é: “Percebam quais são os vossos interesses, percebam como é que querem estar no mundo e, depois, apresentem-nos uma visão de como é que isso se pode transportar para a arquitetura”.

Gosto da diversidade, da heterogeneidade. Gosto de ver as pessoas a pensar de maneira diferente, gosto de ser confrontado com o desconhecido. Aliás, a viagem é isso mesmo,confrontarmo-nos com o desconhecido.

Em relação aos alunos, às perspetivas de trabalho que eles podem ter no futuro, creio que a nossa profissão está em transformação, o mundo está em transformação. O Gianni Vattimo, que é um filósofo, diz: “A vida é bela porque muda.” Nós não sabemos quando vai mudar, não sabemos para onde, mas sabemos que muda; e os arquitectos vão ter de encontrar novas formas de fazer. Mas isso não é novidade. Já sabíamos disso. Desde o início da História que as coisas estão sempre a mudar.

Quando a minha geração saiu da escola, ao contrário do que era comum, fizemos uma coisa que foi interessante e quase geracional. Perante a complexidade da profissão, perante a nossa inexperiência, resolvemos a trabalhar em duplas. O Pedro Pacheco e eu formámos dupla, a Inês Lobo começou a trabalhar com o Pedro Domingos, o Ricardo Bak Gordon com o Carlos Vilela, Cristina Veríssimo e o Diogo Burnay, o Pedro Ravara e o Nuno Vidigal, em Lisboa. Mais tarde também os Aires Mateus, os ARX e o Ricardo Carvalho com a Joana Vilhena. Também, no Porto, a Cristina Guedes e o Francisco Vieira de Campos, o Luís Tavares Pereira e a Guiomar Rosa, o João Pedro Serôdio e a Isabel Furtado, juntaram-se em duplas. Foi a nossa forma de responder perante as coisas que estavam a acontecer. Houve também outras formas, por exemplo os Promontório, que criaram um corpo maior. Penso que o que vai acontecer é que as gerações depois de nós vão encontrar novas formas de se relacionar a nível de trabalho e de criar oportunidades de trabalho. Vão juntar-se ainda mais, vão juntar-se menos, vão juntar-se de forma diferente? Nós juntámo-nos em duplas de arquitectos, mas porque não se formam grupos de arquitectos e engenheiros, ou arquitectos e agentes imobiliários ou arquitectos e construtores? Porque é que as coisas são estanques? As próximas gerações vão encontrar de certeza uma resposta para o que está a acontecer neste momento. Como? Não se sabe. Nós fizemo-lo à nossa maneira, eles vão ter de fazer da forma que encontrarem.

 

Os projetos que estão a fazer refletem essa mudança?

Está tudo mais flexível, muito mais rápido, mas já na nossa altura também era muito rápido. A nossa profissão mudou muito, em vinte anos. Cada vez mais os arquitetos vão ter de estar desde o princípio do processo. Como exemplo dou um trabalho, que foi a recuperação de um edifício na Baixa Pombalina, o “Projeto Fanqueiros”(05). O ateliê trabalhou com o cliente desde o princípio. O cliente queria investir em Lisboa, queria comprar um edifício antigo, porque gosta muito de Lisboa e da arquitetura do centro da cidade. O ateliê fez o contato com agências imobiliárias para encontrar edifícios para recuperar que servissem os interesses do cliente. Montámos todo o processo de concurso com as empresas de construção, com as empresas de fiscalização, procurámos eventuais apoios de entidades estatais, fomos à procura de dinheiro disponível emfundos europeus. Os arquitetos têm, cada vez mais, de estar dentro de todo o processo. Já não podem estar só a fazer projeto no ateliê, têm de ser agentes ativos de uma forma muito mais alargada.

 

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Há pouco dizias que gostavas de diversidade. Gostava de saber se isso se reflete no ateliê, nos colaboradores, no vosso processo de trabalho. …

No ateliê somos um grupo pequeno, decinco, e as coisas processam-se de uma forma muito normal. O método e a maneira de trabalhar vão variando um pouco de acordo com as pessoas que entram no ateliê e com a especificidade de cada trabalho. No ateliê, cada projeto tem um colaborador responsável que é o chefe de projeto. Eu assumo o papel de coordenador geral. Em conjunto tomamos decisões.

Temos determinadas preocupações, que se espelham também na forma como dou aulas, que é tentar perceber com a maior profundidade possível o sítio onde estamos a trabalhar, fazer críticas ao programa e depois construí-lo da forma mais rigorosa e clara que conseguirmos.

Penso que a arquitetura começa no programa e que todas as opções devem ser equacionadas. Normalmente temos a necessidade de por em dúvida os programas que nos dão para desenvolver porque muitas vezes confrontamo-nos com opções que pensamos nãoserem as mais acertadas. Fazer arquitetura, desenhar, construir, é um processo muito longo, trabalhoso e caro. Não há muita margem para falhar. Deve-se desenhar o necessário e pensar se o necessário também o é daqui a cinco anos. Porque, como já constatámos, as coisas mudam rapidamente. Depois é um trabalho em equipa. E por vezes temos a sorte de toda a equipa ser boa, inclusivamente o cliente e o construtor. Fazer arquitetura é realmente um trabalho em equipa.

 

Que tipo de trabalho estão a fazer neste momento?

Este ano trabalhámos essencialmente em reabilitação. Lisboa tem um tecido urbano muito interessante e há muitas coisas que estavam para ser demolidas mas que felizmente, com esta crise, vão permanecer. Estamos também a trabalhar na Mouraria e na Junqueira.

Há zonas em Lisboa que têm edifícios ou conjuntos urbanos com imenso valor quer a nível tipológico, quer a nível construtivo. Houve uma altura que tive ateliê na Rua da Padaria, na Baixa Pombalina. Aí fui confrontado durante tempos com contentores à porta dos prédios repletos de caixilharias, portas e portadas com duzentos anos, como se não valessem nada.

Neste momento percebemos que aqueles elementos construtivos podem ser preservados, que são eventualmente imperfeitos, mas que não deixam de ter valor por isso.

Outra questão importante é que as reabilitações permitem trabalharmos com tipologias que não são as convencionais. Nas últimas décadas construiu-se em Portugal edifícios de apartamentos que repetiram a tipologia dos T até à exaustão. Por exemplo, a tipologias dos T - que pensamos ser universal mas que é tipicamente portuguesa - têm invariavelmente uma zona da casa com os quartos e uma zona com a zona social. Quando entramos em casas desconhecidas com essa tipologia sabemos exatamente onde estão a casa de banho, a cozinha, etc., porque etsão sempre no mesmo sítio. Na Baixa Pombalina as casas, mais do que quartos e salas, têm espaços, que se podem transformar no que for necessário, durante um período de tempo específico.

Reabilitámos também um apartamento popular em Alcântara onde os dois quartos se situam em lados opostos da casa. No meio está a zona social. Deste modo o apartamento pode ser partilhado por amigos mantendo a privacidade. As tipologias que temos encontrado nos edifícios que estamos a recuperar sugerem outro tipo de habitar, mais flexível e talvez mais adequado ao momento atual. Por não estarem sujeitos às normativas, muitas vezes absurdas, a que estão sujeitas as novas construções, podemos explorar outras combinações que não estão de acordo com o standard, mas que no entanto revelam grandes possibilidades.

Criam-se espaços atípicos, menos convencionais, inesperados e por vezes imperfeitos e isso interessa-me muito na arquitetura.

Há um tipo de arquitetura que convoca e incorpora essa imperfeição. Estou interessado em coisas que emanem e que incorporem o real, o imperfeito, e que sejam de algum modo incompletas e provisórias. É isso que nos faz mover.

Nos últimos anos, os ateliês que mais me estimulam são os que têm este tipo de estratégia perante o projeto. O Herzog & de Meuron desde a universidade que me interessaram muito. A Casa de Pedra é um exemplo disso. Conseguem transformar coisas simples e banais em coisas extraordinárias, e as estratégias de projeto variam sempre muito de programa para programa. Por exemplo, falando da Tate Modern, ou do Rehab Center, são dois edifícios excecionais que se desenvolvem a partir de um reequacionamento do programa. A Tate revolucionou na altura tanto o que era a reabilitação de um edifício industrial, como a noção de museu. O Rehab foi um dos edifícios mais comoventes que alguma vez vi. É uma unidade pós-traumática, para vítimas de acidente. O edifício emana um conforto e uma delicadeza enorme. Madeira, vidro, cortinas brancas, luz e água. Estas duas obras são feitas quase em simultâneo e as estratégias – e consequentemente os materiais de que são construídas – mudam, para responder acertadamente ao programa. Estes edifícios são mesmo feitos para as pessoas. Só adquirem significado, ou só são realmente arquitetura, com pessoas. Há muitas obras de arquitetura que dispensam pessoas. São de tal forma completas e de tal forma perfeitas que se tornam num sistema fechado. Estar ou não estar alguém dentro dos edifícios é, nestes casos, totalmente indiferente. A pessoa que usa o edifício é remetida simplesmente para um papel passivo de espetador. Gosto de obras de arquitetura que se completam com as pessoas, que motivam as pessoas a participar no edifício e a completá-lo. É assim que gosto de fazer arquitetura.

 

 

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Então a arquitetura não é afinal para fazer o mundo perfeito…

Creio que não. Prefiro as coisas normais. Existe uma naturalidade que o belo e o perfeito não conseguem conter.

 

 

 

 

 

01 Filipe Figueiredo e José Segurado projetam em 1952 o cruzamento das duas mais importantes avenidas do bairro de Alvalade com 4 grandes blocos de 13 pisos dispostos na perpendicular, contrariando a praça prevista no plano. O programa funcional apontava, igualmente, para uma solução típica de "unidade de habitação": galerias interiores, habitações mínimas, duplex, terraços utilizáveis. O sétimo piso, situado ao nível central do edifício, é tratado formalmente como uma alheta de separação que marcava o piso comercial, terciário e de serviços. A execução transformá-lo-ia, porém, num programa tradicional de habitação, anulando o piso central de serviços e remetendo para o piso térreo o comércio. A vibrante expressão formal desenvolvida com um rigoroso profissionalismo, seria contudo mantida vincando-se a alheta separadora dos dois volumes, o colorido vibrante do magenta, a profusa variedade de materiais e texturas, o escultórico desenho das varandas como caixas salientes da fachada. Ana Tostões in: Conjunto Urbano Vá-Vá, La Vivienda Moderna”, 1925-1965. Registro DOCOMOMO Ibérico.

 

02 Café Vá-Vá. Inaugurado em 1958, com assinatura do arquiteto e designer Eduardo Anahory. Com uma esplanada com vista para as novas avenidas de Lisboa (cruzamento entre as avenidas de Roma e dos EUA), tinha a presença habitual de gente conhecida e com capacidade de intervenção pública nas décadas que precederam o 25 de Abril de 1974. Havia o grupo do cinema, do chamado cinema novo, o António Pedro Vasconcelos, o Fernando Lopes, o Paulo Rocha, que morava no prédio do Vá-Vá [e que fez do café cenário para um dos filmes emblemáticos da história do cinema português, Verdes Anos] Lauro António. Havia o grupo dos músicos, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, muitos jornalistas, o Luís Villas-Boas (do jazz), pintores. Ir ao Vá-Vá era fazer oposição ao regime, quanto mais não fosse pelo simples facto de lá se falar mais ou menos abertamente de coisas que não se podiam murmurar sequer noutros locais.

Vinte anos depois, já com o país em liberdade, a todos estes juntava-se uma nova geração de músicos que queriam cantar rock em português. Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés, assume que a sua "fase de arrastar a vida nas esplanadas" foi passada no café do cruzamento da avenida de Roma com a avenida dos EUA. Zé Pedro lembra-se que os Sétima Legião ensaiavam ali perto ("até chegávamos a ouvir os ensaios da esplanada"), os elementos dos Heróis do Mar também marcavam presença. O Vá-Vá fazia parte do que Zé Pedro classifica como "a rota punk": era ali que a malta se juntava para depois ir aos bares, "as grandes noites loucas passavam sempre por lá". De dia, era ponto garantido de encontro com malta da música. Luis Francisco In: Público P2 “O que torna este café tão especial” 25-07.2007.

 

03 DA - Documentos de Arquitectura- Publicação com a direção de José Adrião e Rogério Gonçalves. Fizeram parte da equipa editorial Francisco Vassalo e Pedro Pacheco. Saíram 4 números desde o Verão de 1999. O primeiro número foi uma edição fotocopiada. Foram publicadas entrevistas a diferentes arquitectos tais como: José Gigante, Josep Llinàs, Josep Quetglas, Manuel Gallego e Vitor Figueiredo. A.E.D.A., Associação de Estudos Documentos de Arquitectura.

 

04 Discursos sobre Arquitectura – Foi um ciclo de conferências que reuniu, em 1990, no auditório da Escola Superior das Belas Artes do Porto, um conjunto notável de arquitectos. A Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto marcava assim a entrada na última década do século com uma iniciativa de grande alcance e ambição. Alguns nomes, então numa primeira fase da sua carreira, como Jacques Herzog e Peter Zumthor, seriam mais tarde reconhecidos com o Prémio Pritzker. James Stirling, uma figura central na arquitectura do pós-guerra, faria aqui uma das suas últimas conferências.

O ciclo Discursos sobre arquitectura foi organizado, em 1990, por Carlos Machado, Eduardo Souto de Moura, João Pedro Serôdio, José Bernardo Távora, José Paulo dos Santos, Manuel Mendes. Jorge Figueira in Discursos (Re)visitados - Ciclo de Vídeo. U.Porto, Faculdade de Arquitectura da Ubiversidade do Porto

 

 

05 Projeto Fanqueiros – Projeto de 2011 da José Adrião Arquitectos na Baixa Pombalina de Lisboa. O Projeto recebeu o Prémio Vasco Vilalva para a recuperação e valorização do património 2011 e o Prémio FAD Interiorismo/Opinião 2012.