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Durante a Guerra Fria, o mundo foi subdividido em três categorias diferentes que agrupavam países consoante a sua aliança: Primeiro Mundo (Estados Unidos, Europa Ocidental, Africa do Sul e Austrália), Segundo Mundo (União Soviética, Japão e Cuba) e Terceiro Mundo (Africa, Médio-Oriente e América do Sul). Esta denominação foi alterada com a queda da União Soviética para uma distinção económico-social que continuava a dividir o mundo em três partes mas agora como Países Desenvolvidos, Países em Vias de Desenvolvimento e Países Subdesenvolvidos. Atualmente, embora nenhuma destas divisões seja consensual entre as diversas organizações mundiais, todas se regem por diferentes indicadores estatísticos que estabelecem diferentes relações (económicas, sociais, humanas, politicas) entre países – o que inevitavelmente nos leva a significações como Países Desenvolvidos e Países Emergentes. Nos dias de hoje a lista de Países Emergentes do FMI (Fundo Monetário Internacional) incluí cerca de 150 países, desde a Etiópia e o Iémen à Croácia e ao Brasil.

 

Os países com economias emergentes são e serão sempre terreno fértil para novas propostas, novos projetos, possibilitando a concretização de muitas hipóteses teóricas e até projetos, que à partida, pareciam muito difíceis de viabilizar. Nos últimos vinte anos temos assistido, a nível mundial, ao desenvolvimento e crescimento económico de vários países – a China, os Emirados Árabes Unidos, e mais recentemente, Angola e o Brasil, entre outros – e acompanhando esse mesmo crescimento esteve sempre a possibilidade de se concretizar um sem número de projetos e propostas para um século novo…

 

Num momento em que maior parte dos nossos arquitetos estão a emigrar, ou a trabalhar a partir de Portugal para países emergentes, propusemos neste número abrir o debate  adiado sobre o tipo de atuação dos Europeus em países emergentes e também sobre o tipo de encomenda feita a partir de lá, ou seja, sobre o tipo de interesse, desses mesmos países emergentes na atuação dos profissionais emigrantes ou profissionais em modo de “controlo-remoto”. Para uma nova geração de arquitetos, liberta do passado colonial, o desafio pessoal de trabalhar em países, onde poderão ter até a língua em comum, alia-se à oportunidade profissional de ver os seus projetos construídos. No entanto, ainda que – tal como refere José Adrião na entrevista deste número – os jovens arquitetos se encontrem bem preparados, do ponto de vista técnico e conceptual, na hora do confronto com a realidade, surgem muitas dúvidas e questões: que arquitetura fazer nestes contextos e como? A atuação que é esperado do arquiteto é a de profissional “estrangeiro”, agente da modernidade, ou antes de um profissional que integra modelos e promove continuidades? Como se ultrapassam as barreiras existentes (linguísticas, culturais, técnicas e inclusive a própria escala dos territórios)? Como tirar partido de tudo aquilo que pode ser inovador e potencialmente interessante em territórios em construção?

 

Curiosamente, os artigos recebidos pela estudoprevio.net estão em sintonia e descrevem e refletem sobre um tipo de atuação mais participado e colaborativo como método de projeto. Tanto o arquiteto Luca Astorri, que atualmente colabora com ONG em países como o Brasil e a Nigéria, como o arquiteto Paulo Moreira, em Angola, e como a arquiteta Raquel Henriques defendem o trabalho de campo e a como a melhor maneira de conhecer realmente o território e os seus habitantes e veem nessa mesma atuação o melhor processo de projeto, ao contrário do normal procedimento, assente no processo plano urbanístico/arquiteto/projeto encomendado ou concursado.   

 

No final, teremos sempre territórios construídos. Resta saber como.      

 

filipa ramalhete + joao caria lopes

 

 

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A revista ESTUDO PRÉVIO é uma publicação semestral do Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/UAL).

 
Com esta publicação queremos projetar um lugar novo onde a partilha do conhecimento pode ser feita com a naturalidade de uma conversa, com o rigor de um artigo técnico, com a apresentação de um livro ou ainda através o debate aberto na comunidade digital.

A proposta de criar mais uma revista de arquitetura foi, desde o início, um desafio para escolhermos um caminho um pouco diferente e por isso criámos uma linha editorial centrada nas condições reais que determinam a produção arquitetónica ainda antes de qualquer esquiço ou maqueta, ou mesmo ainda antes de sermos arquitetos.

A permanente Crise, as constantes Catástrofes Naturais, o desenvolvimento dos Subúrbios serão certamente temas que queremos aprofundar nesta publicação, mas também outros temas que condicionam e influenciam a arquitetura portuguesa como o número de arquitetos em Portugal a chegar aos 20.000, o número de arquitetos à beira do Desemprego e por outro lado a crescente diversidade de Novas Profissões onde os arquitetos conseguem dar o seu contributo.

Queremos que esta seja uma publicação que faça um ESTUDOPRÉVIOsobre o ensino e a prática em arquitetura e que amplie o debate sobre as condições e as condicionantes da nossa profissão, para que possamos continuar a evoluir através da partilha de experiências, de opiniões e de trabalhos de investigação. Só assim poderemos construir uma base sólida, aberta à procura de soluções para os novos problemas e desafios que o mundo enfrenta nos dias de hoje.

O núcleo desta publicação centra-se nas Entrevistas e no sistema aberto de Submissão de Artigos. As Entrevistas são focadas em gerar conversas que flutuam entre as práticas pedagógicas, de investigação e profissionais de cada entrevistado e podem ser lidas, em português e inglês, mas também podem ser ouvidas diretamente no site; os Artigos funcionarão em sistema de call-for-papers, selecionados pelo conselho editorial.

No mesmo projeto temos ainda espaço para promover o convite à leitura, fazendo apresentações de livros recentemente publicados, mas também de clássicos – livros que se tornaram importantes referências para a Arquitetura.
 
filipa ramalhete + joao caria lopes