editorial UM

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Por volta dos anos 80, em Portugal, seguindo uma tendência que já era observável em muitas cidades europeias, assistiu-se à mudança de paradigma de atração das cidades, passando da fase centrípeta (onde a cidade atraía as pessoas para o seu centro) para uma fase centrífuga (onde a cidade se expandiu num movimento horizontal e disperso).Desde então, até aos dias de hoje, verifica-se que muitos desses subúrbios cresceram sem plano e sem nenhuma ambição de ordenamento do território, o que resulta num território expandido, disperso e descoordenado.
Apesar do esforço de algumas iniciativas para a resolução de várias zonas periurbanas, a verdade é que a maior parte resultou em arranjos pontuais de algumas cidades médias e não apontou nenhuma resolução para a desconectividade dos vários polos suburbanos, ainda dependentes da cidade-mãe. A figura do planeador – seja ele urbanista ou arquiteto – está frequentemente distante de qualquer discussão sobre os subúrbios, resultando na produção de instrumentos de gestão territorial sem “conceito”, o que resulta numa sobreposição de instrumentos que não ajudam a resolver efetivamente os problemas, criando contradições crescentes. Mesmo em termos de produção arquitetónica, são poucos os arquitetos autores que recebem encomendas situadas nos subúrbios, gerando um mito profissional de que “não dá para fazer nada de jeito” sem ser nas cidades – excluindo, é claro, casas de férias ou de fim de semana, em espaços bucólicos.

Neste contexto, o alargamento da discussão, e a possível desmistificação dos subúrbios,é dificultado pela ambiguidade e dispersão que o conceito é capaz de assimilar. O subúrbio tornou-se uma palavra capaz de integrar e significar espaços completamente díspares como o bairro segregado(r), a periferia, os limites da cidade, os bairros-dormitórios, as zonas industriais, cidades-satélite, arrabaldes, garden-cities, cidade informal, não-lugar, ou, territórios peri-urbanos.

De um modo geral e aglutinador, podemos afirmar que a palavra subúrbio augura algo impreciso, em processo de se tornar tangível e reconhecível; algo que ao longo dos anos foi sendo utilizado para arrumar uma série de territórios indefinidos, ou que estavam a começar a ser entendidos; algo que é difuso e complexo. Porém, temos de enfrentar estes novos territórios, com uma proatividade positiva, procurando novos conceitos operacionais e aprofundando o nosso conhecimento das diferentes situações reais, para que possamos compreender melhor os vários tipos de subúrbios, e atuar sobre eles da melhor maneira possível.

Esperamos que este número UM do Estudo Prévio seja um começo para o debate em torno desta extensa problemática que vagueia no inconsciente de todos nós e que se consiga transformar os subúrbios em territórios férteis que promovem soluções para o “bem-estar e bem-ser” do ser humano.

 

 

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A revista ESTUDO PRÉVIO é uma publicação semestral do Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa (CEACT/UAL).

 
Com esta publicação queremos projetar um lugar novo onde a partilha do conhecimento pode ser feita com a naturalidade de uma conversa, com o rigor de um artigo técnico, com a apresentação de um livro ou ainda através o debate aberto na comunidade digital.

A proposta de criar mais uma revista de arquitetura foi, desde o início, um desafio para escolhermos um caminho um pouco diferente e por isso criámos uma linha editorial centrada nas condições reais que determinam a produção arquitetónica ainda antes de qualquer esquiço ou maqueta, ou mesmo ainda antes de sermos arquitetos.

A permanente Crise, as constantes Catástrofes Naturais, o desenvolvimento dos Subúrbios serão certamente temas que queremos aprofundar nesta publicação, mas também outros temas que condicionam e influenciam a arquitetura portuguesa como o número de arquitetos em Portugal a chegar aos 20.000, o número de arquitetos à beira do Desemprego e por outro lado a crescente diversidade de Novas Profissões onde os arquitetos conseguem dar o seu contributo.

Queremos que esta seja uma publicação que faça um ESTUDOPRÉVIOsobre o ensino e a prática em arquitetura e que amplie o debate sobre as condições e as condicionantes da nossa profissão, para que possamos continuar a evoluir através da partilha de experiências, de opiniões e de trabalhos de investigação. Só assim poderemos construir uma base sólida, aberta à procura de soluções para os novos problemas e desafios que o mundo enfrenta nos dias de hoje.

O núcleo desta publicação centra-se nas Entrevistas e no sistema aberto de Submissão de Artigos. As Entrevistas são focadas em gerar conversas que flutuam entre as práticas pedagógicas, de investigação e profissionais de cada entrevistado e podem ser lidas, em português e inglês, mas também podem ser ouvidas diretamente no site; os Artigos funcionarão em sistema de call-for-papers, selecionados pelo conselho editorial.

No mesmo projeto temos ainda espaço para promover o convite à leitura, fazendo apresentações de livros recentemente publicados, mas também de clássicos – livros que se tornaram importantes referências para a Arquitetura.
 
filipa ramalhete + joao caria lopes