Entre margens

 
 
Cristina Reis 
cristinamreis1@gmail.com 
Mestre pela Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal 
 
 
Para citação: REIS, Cristina – ENTRE MARGENS. Estudo Prévio 13. Lisboa: CEACT/UAL - Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa, 2017. ISSN: 2182-4339 [Disponível em: www.estudoprevio.net]. DOI: https://doi.org/10.26619/2182-4339/13.4 
 
Artigo recebido a 15 de maio de 2018 e aceite para publicação a 20 de julho de 2018. Creative Commons, licença CC BY-4.0: https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ 

 

 

 

Resumo

 

“Un atlas de imágenes suele caracterizarse por la coexistência, en la misma lámina, de maneras diferentes de representar un lugar: el paisage se ve entonces “criticado” por la cartografia, y el próprio mapa “criticado” por un montage de detalles fotográficos inesperados. Es una manera de ver el mundo, de recorrelo según puntos de vista heterogéneos associados unos com otros” (Didi-Huberman, 2011).

 

É através do conceito de atlas que o presente ensaio se constitui, ou seja, sob “uma forma visual de conhecimento” nas palavras de Didi-Huberman (Atlas: Cómo llevar el mundo a cuestas? 2011). A partir de um conjunto de elementos gráficos, como mapas, desenhos e fotografias, realizámos e adquirimos diferentes leituras em torno de um tema central, que tudo incorpora, o território.

 

A concretização deste ensaio emerge de um trabalho de análise, compreensão e interpretação das distintas camadas de história inscritas no território português e na sua leitura como palimpsesto. Esta leitura e consequente reflexão permitir-nos-á, olhar e entender o território que nos envolve, percecionar o que o identifica, o que o caracteriza e o transformou. Analisar o território enquanto palimpsesto, no discurso da arquitetura, significa compreendê-lo em toda a sua plenitude, conhecer cada camada que faz dele aquilo que vemos à superfície. Enquanto ferramenta de análise de um dado lugar, permite-nos entender de que forma podemos usar o conhecimento obtido, no desenvolvimento de estratégias de intervenção e produção de arquitetura. O território contém registada a presença do ser humano sobre um lugar, este conhecimento dota o arquiteto de um maior domínio sobre o que existiu e o que existe. Através da arquitetura, pode estabelecer-se uma relação de continuidade entre o passado e o presente, ao revelar aspetos do lugar que foram obliterados pelo tempo ou pela ação humana. A arquitetura pode ser assim, um meio para a qualificação ou regeneração de um lugar. O termo território assume, por isso, um lugar de destaque. Procurou-se entendê-lo nas suas diferentes dimensões, como o construímos, como o representamos, como nos relacionamos com ele e como o percecionamos. Paralelamente a esta compreensão do território português, foi possível ver outras abordagens de autores diferenciados, que viram na viagem, formas de entender e conhecer os distintos valores naturais e culturais presentes no nosso país, pois foi a viajar que sobre ele se escreveu, se fotografou, se retratou e se divulgou. Estas formas de recolher e difundir informação, foram instrumentos essenciais na revelação e eternização do território num determinado momento, foram as ancoragens preliminares para a compreensão do espaço português e, permitiram, em última análise, a realização do presente ensaio.

 

Palavras-Chave: Território; Paisagem; Palimpsesto; Memória; Viagem.


 

 

A leitura do território. Palimpsesto

 

Território e Paisagem


Figura 1 e 2 – O território primitivo e o território construído. Alto relevo e Carta de Portugal Continental.


 

“Nuvens sopradas pelo vento, sombras projetadas, uma fina superfície de solo que se desloca lentamente sobre uma esfera interior de magma, uma topografia irregular e de matéria diversa, rios e oceanos. Sobre um mundo que fomos compreendendo no decurso de um tempo longo, erguemos construções, modelos, desenhos de arquitetura onde se joga no intervalo sensível entre espaço e tempo, desenhos, fotografias, textos. Projetos. Imagens de representação do território, rastos deixados por um olhar reflexo e perplexo de quem não pode deixar de se surpreender com o seu próprio labor na construção da grande cidade infinita.” (Duarte Belo, 2012)

 

A fina superfície de solo que pisamos, a que chamamos superfície terreste, é a primeira camada a ser transformada pelas nossas ações, como é o simples ato de caminhar. Sob as nossas pegadas, e fora do nosso olhar, o solo é constituído por várias camadas de sedimentos geológicos e por vestígios da atividade humana, armazenadas na sua estrutura que foi submersa pelo tempo, ou que são ainda visíveis à superfície, na face da terra que a ação humana e a natureza não alterou. A este conjunto de constituintes e ações, exercidas sobre o solo, e ao espaço que habitamos, chamamos território.

 

Figura 3 – Transformação do Território. Evolução urbanística de Manhattan: 1664, 1774, 1880 e 1930.

 

A palavra território engloba em si diferentes denotações consoante a área onde esta se aplica. Este resulta de diferentes processos e abordagens: modifica-se naturalmente devido à instabilidade da morfologia terrestre, quer seja por fenómenos como o deslizamento de terras, erosão das praias e linha costeira, o avanço e recuo das florestas, os tremores de terra, entre outros. Está ainda sujeito às intervenções humanas: construção de estradas, aterros, pontes, barragens hidroelétricas, perfuração de túneis, agricultura, entre outros. Juntos, tornam o território num espaço incessantemente modelado e remodelado, face às nossas necessidades. Quando o território é ocupado, estabelece-se uma ligação que se formula através da planificação e organização de um povo; “o território é o objeto de uma construção. É uma espécie de artefacto.

Desde logo, constitui igualmente um produto” (Corboz, 1983). Este território que foi ocupado e qualificado é por norma, uma apropriação que não só é de natureza física, como também política. Pode se referir geograficamente às fronteiras naturais, como também, referir-se às populações que nele residem.

 

Devido à sua natureza, o território assume diferentes formas, quer geométricas - trabalhadas pelo homem - ou mais naturais - na sua forma primitiva. Um dos exemplos da forma geométrica a que o território é submetido, advém da agricultura, sendo que alguns dos exemplos da transformação do território mais marcantes são referentes aos campos de arrozais, à vinicultura, (exemplo das vinhas construídas em socalcos no Douro), ou ainda o olival (os olivais construídos em calçadas de xisto, nas encostas do Rio Tejo). Existem outras transformações, relacionadas ainda com a transformação do território, sem que, no entanto, modifiquem o mapa topográfico, mas sim, a aparência dele: as alterações da cobertura vegetal de um local, ou a supressão total dela.

 

Torna-se difícil definir ou qualificar o território através de um só critério, pois incorpora uma série de agentes, cujo sentido varia consoante a sua aplicação e onde a história com o passar do tempo a misturou.

 

“O território é um “projeto” a relação entre uma superfície topográfica e a população estabelecida nele, permite afirmar que ‘‘não há território sem a imaginação do território; no entanto enquanto projeto, ele adquire um significado, ganha um nome e juntando-lhe todas as expressões de várias temáticas, transforma-se num tema.” (Corboz, 1983)

 

Hoje interpretamos o território que habitamos, através da nossa cultura e do conhecimento que dele fomos adquirindo; quanto mais o conhecemos, mais ele nos mostra como a natureza e a ação do homem nele atuaram, até chegar ao seu carácter presente.

 

Figura 4 – Campos de cultivo em redor das vilas de Novo Selo Rock e Sivica em Medimurje, Croácia.

 

Nas distintas formas de nos relacionarmos com o território, houve duas que sobressaíram: o mapa e paisagem natural. Estas duas formas, ainda que diferentes nos seus propósitos, correspondem a concepções da Natureza. A ideia principal de um mapa, é termos a possibilidade de vermos em simultâneo um vasto território, que não nos é possível observar na sua totalidade na realidade. O mapa é uma redução das dimensões e dos elementos que compõem o espaço real; ele mostra de uma forma geral, todas as relações entre os diferentes pontos nele representados (a distância e a localização entre cidades por exemplo), sendo que visto de outra perspetiva mais abrangente, ele enquadra-se como território, pois as ações que ele representa e sobre ele foram pensadas, foram elaboradas sobre o território. No entanto, há que ter sempre presente uma representação mental do território, para o podermos compreender na sua plenitude - desde as distâncias entre pontos, às dimensões de uma localidade, e à região onde se inserem – no quotidiano de uma viagem, onde questionamo-nos sobre o próximo passo a dar ou a direção a seguir, na tentativa de formalizarmos um caminho.

 

Sem uma representação do território - mapa - a nossa compreensão do território seria menor. Foi esta a necessidade, que levou no passado, à formalização destes processos de interpretação do território. Era necessário representá-lo na sua totalidade com precisão, foram-se executando pouco a pouco métodos que representavam o território com maior rigor, desde a criação de uma simbologia, representação gráfica, sistemas de triangulação, entre outros. A representação da topografia, só no século XIX encontrou uma formalização mais precisa através do sistema de traços com medidas corretas e curvas de nível.

 

Nas abordagens acima referidas, o que se pretendia não era uma reprodução do território, no entanto todos os esforços levavam nessa direção: “porque o território contém muito mais do que aquilo que o mapa quer mostrar, ao passo que o mapa permanece, apesar de tudo, aquilo que ele é: uma abstração. Falta-lhe aquilo que por excelência caracteriza o território: a sua extensão, a sua espessura e a sua perpétua metamorfose.”(Corboz, 1983). Representar o território, não é só fazer um decalque do mesmo, é uma construção. O mapa representa um território mais puro e que se encontra sujeito à nossa vontade, funcionando como um filtro: não representa a sociedade que habita em certo local, nem demonstra a renovação constante da Natureza. É uma ferramenta que nos permite olhar de cima para todo um território abaixo, no entanto esta vista privilegiada necessita de constante atualização.

 

 

Figura 5 – Veneza, Itália.


 

 

A paisagem, ao contrário deste último, mostra-nos um lugar de cada vez; também ela adquire - assim como o território - diversas ideias conceptuais consoante a área onde a estudamos. A maneira como olhamos para a paisagem, seja em que campo for, não limita a nossa perceção do território ao nosso primeiro olhar sobre ele, a paisagem tem significados diferentes, consoante o observador que a vê e a perceciona. Quer seja a contempla-la a partir de um miradouro, ou a percorre-la de transportes, apreendemo-la de maneiras distintas: o miradouro, constitui uma relação fixa de um determinado ponto no território e entre outros mais afastados e que podemos percecionar a partir deste. O miradouro reduziu uma paisagem a uma figura, a um enquadramento, onde o nosso olhar nos leva sobre uma vastidão de território e nos leva a percecionar a nossa escala face ao território onde nos encontramos. As vias de circulação viária proporcionam-nos uma experiência semelhante à dos miradouros, especialmente aquelas que atravessam topografias exigentes como as montanhas: a experiência que temos no carro relaciona-nos com pontos distantes.

 

A paisagem aqui passa a desenvolver-se à velocidade do homem. O comboio oferece a mesma experiência; já o avião ou o helicóptero abarcam uma relação com o Território diferente: ambos têm uma relação mais imediata com este, o helicóptero faz variar a escala, aproximando-nos ou afastando-nos deste, dando-nos a liberdade de irmos para um local sem que tenhamos que responder a um percurso ou estrada, realizando um caminho desconectado dos percursos presentes no solo. Cada um destes instrumentos de percorrer o território, produzem cada um, um território único, este deixa de ser constituído por extensões e obstruções, e sim por fluxos e eixos.

 

No entanto o confronto mapa-paisagem, não se sustêm se olharmos através de outros instrumentos como as fotografias ou os satélites: estes permitem-nos ver uma imagem contínua do planeta, atualizada e real. “A omnipresença está, de hoje em diante, ao alcance seja de quem for.” (Corboz, 1983).

 

 

Palimpsesto

 

‘’Even now, when i try to remember…, the darkness does not lift but becomes yet heavier as i think how little we can hold in mind, how everything is constantly lapsing into oblivion with every extinguished life, how the world is, as it were, draining itself, in that the history of countless places and objects which themselfes have no power of memory is never heard, never described or passed on.’’ (W.G. Seralb, 2003)

 

O território e a paisagem são entidades mutáveis, que se alteram na consequência da ação do homem e da natureza. Elas são o suporte físico sobre o qual a humanidade, no seu processo de desenvolvimento cultural, deixou as suas marcas. Em ambas contemplamos vestígios do passado que narram a história dos lugares, são traços e marcas de uma morfologia que foi desaparecendo, ou ocultada, ao ser sobreposta pelos traços contemporâneos do presente. Em conjunto, ambos tecem um único panorama, expresso naquilo que hoje vemos e nos rodeia. O território carregado de vestígios e leituras antigas assemelha-se a um palimpsesto.

 

 

 

 

 

Figura 6 – Fragmentos. Il Grande Gretto (1984-89) - Alberto Burri.

 

Este termo, referente à escrita nos pergaminhos, representa a ideia do pergaminho que foi reciclado; sobre ele foram escritos textos, que mais tarde foram sobrepostos por outros, criando assim várias camadas de informação em cada documento, onde uma leitura sobre o mesmo, revela inúmeras camadas de texto que são reencontradas e reinterpretadas.

 

Relacionado inicialmente com o ato da escrita, este termo é agora aplicado na análise de um lugar no âmbito do discurso da arquitetura e do urbanismo. Usado metaforicamente para descrever a, da sucessão de diferentes camadas que possuem informação histórica de dado lugar, e que são subscritas por outras novas, alterando a sua morfologia. Através da sua leitura, podemos compreender a génese do lugar, revemos o passado e a sua formação até aos nossos dias; o conceito de palimpsesto, reverte assim, para descrever ou intervir no território, com base no conhecimento das camadas intrínsecas do lugar.

 

Figura 7 – Layers. Detalhe de obra do Atelier Freiluft. Suiça. © David Aebi

 

 

De forma a implementarmos novos equipamentos, de forma a explorarmos novas terras, é necessário por vezes modificar a sua substância de modo irreversível. Contudo o território não é uma “embalagem perdida nem um produto de consumo que se repõe” (Corboz, 1983). Cada um é único, daí a necessidade de se remexer uma vez mais e reciclar, o que os homens inscreveram nos solos, a fim de depositar uma nova que responda às necessidades do dia-a-dia antes de ser anulado quando chegar a sua vez. Não só adicionamos, como também apagamos. Há determinado estratos suprimidos voluntariamente, como outros obliterados pelo uso. Quer olhemos um mapa ou uma paisagem, com o intuito de o analisarmos ou de intervirmos, a nossa relação com estes nunca é completa e contínua, pois estes sempre em constante modificação alteram sempre o que percecionamos deles e a forma de como os vemos: “o território estende-se além adiando aquilo que eu sei dele, perceciono dele, vejo dele.” (Corboz, 1983)

 

“ (…) esta metodologia de investigação do território não se restringe portanto  a uma perspetiva passiva, meramente analítica, entendida como um fim em  si mesma. Faz sobretudo parte de uma metodologia projetual, de ação, permitindo uma síntese do existente, distinguindo o elementar do acessório, tendo em conta a sua espessura histórica (…)”. (Carrilho da Graça, 2015)

 

Através desta descodificação das camadas que constituem o território, entendemos a sua formação e compreendermos as suas alterações, nele encontramos registada a nossa presença sobre um lugar; ‘’ o território é o verdadeiro património’’. (Carrilho da Graça, 2015) é este processo, de leitura sobre o que nele se encontra inscrito, que nos permite descobrir pequenos fragmentos de história extinguida pelo tempo, estes podem vir a ser reproduzidos ou implementados novamente no presente, através de um novo gesto de arquitetura.

 

Figura 8 – Maquete Conceito – Palimpsesto. Autor desconhecido.

 

Esta metodologia de análise, dota o arquiteto com um profundo conhecimento sobre o passado, e um maior domínio sobre o existente, com este conhecimento pode criar “uma relação de continuidade ou de rutura com o que existe” (Carrilho da Graça, 2015). O seu desenho, também deve ser fundamentado através dos conhecimentos de outras disciplinas, como a Geografia ou a Antropologia, de forma a adequar o seu gesto, ao território onde se insere e à comunidade a que se dirige; este também pode restituir a memória de um local e contribuir para o seu desenvolvimento.

 

A arquitetura é um gesto contínuo da transformação do território, pode ser também um processo de descodificação e interpretação do mesmo: pode levar à qualificação dos lugares, conferindo e restituindo identidade. Por vezes é a existência de um novo elemento contemporâneo, que desperta o interesse sobre um lugar e incita à sua descoberta, como aconteceu com a construção dos projetos do Centro Interpretativo das Gravuras de Foz Côa, o Fluviário de Mora e o Centro de Alto Rendimento de Remo do Pocinho. Ambos os projetos – descentralizados – revitalizaram, e impulsionaram, o desenvolvimento destas regiões. Procuraram através de um gesto contemporâneo, repercutir a essência e a memória do local onde se inserem, quer a partir da sua materialidade ou da sua forma; todos adicionam uma nova camada de história ao território.

 

 

O território português

 

“O território é o elemento permanente da nossa identidade.” (Matoso, 2010)

 

Portugal é um território vasto e singular, em toda a sua extensão. Desde a sua superfície continental até às ilhas do Atlântico, mostra uma diversidade de paisagens, e de gentes, que produziram este território que hoje pisamos. Nele testemunhamos uma narrativa, na qual ainda se inscrevem novos capítulos: ainda que presenciemos um presente em constante mutação, e um futuro indefinido, é o passado, representado por diversas marcas edificadas, ou a memória de algumas, que nos contam a história.

 

Figura 9.Santuário de Nossa Senhora da Lapa. Soutelo. Vieira do Minho. 2003 © Duarte Belo

 

As diferentes unidades de paisagem que compõem o território português, tornaram-no detentor de características, que influenciaram diferentes formas de povoamento e ocupação. A construção de uma paisagem litoral densamente povoada e alterada, contrasta com uma outra interior, menos povoada e que preserva uma paisagem quase primitiva. A arquitetura edificou o território; também ela reveladora de contrastes, caracterizou e identificou lugares através da sua tipologia e da sua materialidade.

 

Falar do território nacional e dos aspetos que o tornam singular e o identificam, é debruçarmo-nos sobre a história do país e sobre a obra de alguns autores que o caracterizaram, percorrem-no de Norte a Sul, e o retrataram como ninguém; ainda que sejam retratos de um país de outros tempos, estes serviram para uma compreensão preliminar sobre o país, e de ancoragem para o desenvolvimento deste trabalho.

 

“Em termos de «identidade», porém, nada é simples. Vamos abandonar o nosso território? Vamos esquecer a terra? É nela que nos apoiamos, dela que nos alimentamos, ela que configura o nosso espaço, ela que condiciona as nossas comunicações físicas. Nela moraram os nossos antepassados. Marcados pelo território, transmitiram-nos as estruturas sociais com que nos organizamos, as técnicas agrícolas que em parte a dominam, e tudo o mais que foi moldando as nossas comunidades até hoje. Território é o elemento permanente da identidade. (…) Por outro lado, há uma história nacional que só se compreende devidamente quando se tem presente a diversidade de comportamentos próprios das regiões, e a influência que estes tiveram nas alterações do rumo do país.” (Matoso, 2010)

 

Através da leitura do território e dos elementos que o compõem, fomos procurando definir a sua identidade. Como refere o historiador José Matosso3, o território é o elemento permanente de identidade, é a base do nosso desenvolvimento e daquilo que representamos e, nos identifica. A identidade também ela passou por diversas fases históricas, até encontrar a expressão que hoje lhe conhecemos, também se transformou como o território. Nele construiu-se e habitou-se de formas distintas, que lhe conferem um estatuto único, uma identidade própria a nível regional, e nacional. Na obra - Portugal o Sabor da Terra - um retrato histórico e geográfico por regiões, encontram-se retratadas as distintas identidades regionais, que caracterizam e constituem o território nacional.

 

Também se discursou sobre identidade através da arquitetura. Durante cinco anos um grupo de arquitetos percorreu o território nacional em busca do que “seria a verdadeira arquitetura portuguesa” (Roseta, 1988); dividiram o país em seis regiões, e delas procederam ao levantamento e compreensão do espaço português; não só elaboraram o retrato da arquitetura de cada região, como procuraram conhecer as suas gentes, “como vive e de que, entrar no espaço das suas casas e descobrir a ordem que lhes puseram, compreender os materiais dominantes sob as formas em que os talharam” (Roseta, 1988).

 

O país repercutido, no Inquérito à arquitetura Popular em Portugal, é um retrato genuíno da verdadeira arquitetura vernacular portuguesa, uma arquitetura produzida não por arquitetos, mas sim, pelas gentes que ao longo de gerações adaptaram o território e a arquitetura às suas necessidades. No Inquérito imortalizou-se através da fotografia, da escrita, e do desenho, conspectos da arquitetura e do espaço português que poucos conheciam; estes elementos mostram agora, a produção de um espaço, e as distintas leituras realizadas, sobre um território atualmente modificado.

 

Figura 10 - Os Itinerários de Portugal. Mapa desdobrável. Portugal Continental. Produzido por J. Salazar, 1923. Publicado no Guia de Portugal de 1923 – editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

 

A viagem sempre foi um meio essencial, para o conhecimento de um dado lugar. É na descrição pormenorizada, de diferentes propostas de viagem idealizadas pelo país, e a procura de dar reconhecimento a lugares, que passam despercebidos e, de outros quase desconhecidos do panorama nacional, que o Guia de Portugal - publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1923 – se constituiu. Este difere dos guias tradicionais, por não evidenciar somente os lugares mais atrativos e conhecidos de cada região, mas sim, por contar as histórias, falar das pessoas, e mostrar os percursos que nos levam até eles; através de diversos mapas, e de comentários precisos sobre as indicações a tomar, seguidos de uma descrição exaustiva do espaço que atravessamos, alerta-nos para pequenos detalhes que poderiam escapar ao olhar do viajante menos atento, contribuindo assim para uma leitura mais atenta, na redescoberta do território.

 

A viagem, a fotografia e o desenho, foram instrumentos essenciais na revelação, compreensão e eternização do território, num determinado momento. Foram ferramentas indispensáveis, para a composição do trabalho do geógrafo Orlando Ribeiro, que representou e estudou, todo o território nacional nas inúmeras viagens que realizou. Estas encontram-se relatadas, nos seus cadernos de campo, que se revelaram essenciais na compreensão e estudo, do território nacional. Neles encontramos descritas as viagens, e as primeiras impressões dos locais que visitou, sob a forma de apontamentos, desenhos e fotografias; estes registos são agora, documentos únicos que retratam e “falam de um mundo tão próximo e tão afastado de nós” (Siza, Gaspar, Daveau,1994).

 

As fotografias que Orlando Ribeiro captou, nas viagens que realizou, durante cinquenta anos, foram o mote para o desenvolvimento da obra Portugal - Luz e Sombra, O país depois de Orlando Ribeiro, da autoria do fotógrafo e arquiteto Duarte Belo. Nesta obra, confrontam-se fotografias de um mesmo local, registadas em dois momentos distintos: o passado captado pela objetiva de Orlando Ribeiro, nas viagens que realizou; e a viagem realizada em 2011, por Duarte Belo. As fotografias do geógrafo retratam um “Portugal de pobreza, de fracos recursos, mas simultaneamente, da persistência e da luta ancestral pela sobrevivência.” (Belo, 2012). As fotografias captadas pelo fotógrafo, espelham as transformações profundas que o território, a paisagem e a arquitetura comportaram, mas também, a contínua evolução de um povo e da sua identidade, “estas fotografias dão-nos conta, com fascínio e inquietação, do poder avassalador do tempo e das imparáveis construções humanas na modelação da identidade de um povo” (Belo, 2012)

 

 

Figura 11 e 12 -1937. Rio Ponsul. Malpica do Tejo. Castelo Branco - Fotografia de Orlando Ribeiro | 2011 Rio Ponsul. Malpica do Tejo. Castelo Branco - Fotografia de Duarte Belo ©.

 

Ao longo dos séculos, fomos forjando um território fisicamente diversificado, onde cada cultura que o ocupou foi deixando os seus vestígios, da forma de como habitaram e ocuparam os lugares; agora somos nós, portugueses, que continuamos essa ocupação, e a modelação de uma terra que é una, mas que acarreta em si, múltiplas singularidades regionais e locais. O país registado nestas obras evidencia um território de contrastes, entre paisagens, entre gentes e a forma de como se habitam os lugares.

 

“Há um país que parecia eterno, aquele que associávamos a um passado lento e antigo, perene. De repente tudo parece ter-se alterado e, mesmo esse passado, parece estar a desaparecer.” (Belo, 2012)

 

Este marcado por diferentes tempos e leituras, assemelha-se a um palimpsesto. Se compreendermos o território e a sua morfologia, enquanto entidades primárias onde tudo se desenvolveu, foram necessárias uma série de ações, para que aquilo que hoje conhecemos existisse; desde cedo, soubemos tirar partido das suas condições naturais e o esculpimos, face às nossas necessidades e à imagem do nosso tempo.

 


 

Figura 13 e 14 - 1945. Praia da Mira. Coimbra - Fotografia de Orlando Ribeiro | 2011. Praia da Mira. Coimbra - Fotografia de Duarte Belo ©

 

“Gosto de imaginar que o território possui uma estrutura própria que constitui o sistema inicial de suporte da vida do homem neste planeta. E que sobre esse território – que também teve outras formas de natureza, como a sua própria natureza selvagem – fomos construindo, pouco a pouco.” (Carrilho da Graça, 2014)

 

É ao olhar para o passado, através da leitura das camadas que nele se inscreveram, que procuramos entender os processos que levaram à sua transformação e empregando este conhecimento - enquanto tema para o desenvolvimento de estratégias de intervenção e produção de arquitetura - e imaginamos o que poderá ser o seu futuro. Parafraseando Helena Roseta, “só se ama aquilo que se conhece. É também de uma história de amor que este livro trata: amor pela paisagem, amor pelo território, amor pela arquitetura nascida “deste chão ruim” de que falou Miguel Torga e que Orlando Ribeiro tão bem compreendeu. É desse amor que tem de nascer a vontade de imaginar um futuro para o passado.” (Roseta, 1988)

 

Um atlas é “un work in progress, sempre susceptible de abrirse a nuevos objectos, nuevos problemas, nuevos aperçus” (Didi-Huberman, 2011). O território está em constante modificação, daí este ser, um trabalho contínuo na composição dos elementos gráficos apresentados de um dado lugar, pois haverá sempre uma sobreposição de camadas, que adulteram a sua composição e aquilo que dele conhecemos.

 

Esta é uma pequena sinopse do material produzido e compilado sob a forma de um atlas do Tejo, que é agora um recurso, para compreender a história e o tempo, deste troço do território português até hoje, e onde a arquitetura, surge como um meio revelador da nossa história.

 

 

 

 

 

 

 

 

Índice de imagens

 

FIGURA 1 e 2. O território primitivo e o território construído. Alto relevo e Carta de Portugal Continental http://www.igeo.pt/mapviewer/?wmsurl=http://www.igeo.pt/WMS/Cartografia/SC500K

Figura 3. Transformação do Território. Evolução urbanística de Manhattan: 1664, 1774, 1880 e 1930 http://1.bp.blogspot.com/-0b6tzZw-KOk/UPs6SvtdsNI/AAAAAAAAAts/AQPYKffVkJI/s1600/Evoluci%C3%B3n+Manhattan+copia.jpg

FIGURA 4.  Campos de cultivo em redor das vilas de Novo Selo Rock e Sivica em Medimurje, Croácia. http://www.dailyoverview.com/thirtyfour/

FIGURA 5. Veneza. Itália http://www.dailyoverview.com/allprints/venice

FIGURA 6. Fragmentos. Il Grande Gretto (1984-89) - Alberto Burri https://lab4season3mpaa.wordpress.com/category/casa-de-naipes-nivel-3/

FIGURA 7. Layers. Detalhe de obra do Atelier Freiluft . Suiça .  © David Aebi

https://cdn1.vox-cdn.com/uploads/chorus_asset/file/6745557/freiluft-barn-conversion_martin-klopfenstein_dezeen_936_7.jpg

FIGURA 8. Maquete Conceito – Palimpsesto. Autor desconhecido.

http://andrew-chard.tumblr.com/post/113635715797/year-3-semester-1-rotary-model

FIGURA 9. Santuário de Nossa Senhora da Lapa. Soutelo. Vieira do Minho. 2003 © Duarte Belo http://www.duartebelo.com/02-trabalhos/0202-trabalhos/0202_27-dbt0171-portugal_patrimonio/06-fi459250.html

FIGURA 10. Os Itinerários de Portugal.

Mapa desdobrável. Portugal Continental. Produzido por J. Salazar, 1923. Publicado no Guia de Portugal de 1923 – editado pela Fundação Calouste Gulbenkian

FIGURA 11. 1937 Rio Ponsul. Malpica do Tejo. Castelo Branco Fotografia de Orlando Ribeiro http://www.duartebelo.com/16-luz_e_sombra/161-paginas/303-ponsul.html

FIGURA 12. 2011. Rio Ponsul. Malpica do Tejo. Castelo Branco. Fotografia de Duarte Belo http://www.duartebelo.com/16-luz_e_sombra/161-paginas/303-ponsul.html

FIGURA 13. 1945. Praia da Mira. Coimbra. Fotografia de Orlando Ribeiro http://www.duartebelo.com/16-luz_e_sombra/161-paginas/311-mira.html

FIGURA 14. 2011. Praia da Mira. Coimbra Fotografia de Duarte Belo http://www.duartebelo.com/16-luz_e_sombra/161-paginas/311-mira.html

 

 

 

Bibliografia:

AA VV. - Arquitetura Popular em Portugal. Lisboa: Associação dos Arquitectos Portugueses, 1988.
BELO, Duarte - Portugal – Luz e Sombra. O País depois de Orlando Ribeiro. Lisboa: Círculo de Leitores/ Temas e Debates, 2012. ISBN 9789896441869
BELO, Duarte - Uma cidade desenhada por um rio – Superfície. In Lisbon Ground. Lisboa : Direção Geral das Artes, 2012. ISBN 978-989-8518-01-9.
CORBOZ, André - O Território como Palimpsesto. In Teoria e Critica de arquitetura – Século XX. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2010. ISBN 9789 896580650.
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DIDI-HUBERMAN, Georges - ATLAS ¿Cómo llevar el mundo a cuestas?. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, catálogo on-line da exposição. [Em linha], 2010 [Consultado em 09-12-2014]. Disponível na Internet: http://www.museoreinasofia.es/sites/default/files/exposiciones/folletos/2010021-fol_es-002-Atlas.pdf-GRAÇA, João Carrilho da - Carrilho da Graça: Lisboa, Porto: Dafne Editora, 2015. ISBN 978-989-8217-33-2HUYSSEN, Andreas - Present Pasts – Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Stanford University Press, 2003. ISBN 9780804745611
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Biografia:

 

Cristina Reis

Arquiteta. Mestre em Arquitetura pela Universidade Autónoma de Lisboa