Marluci Menezes . De que se fala quando se diz que um bairro é um bairro?

Resumo: A partir de uma perspectiva antropológica orientada para captar e compreender a cidade como um processo em contínua transformação, assinalo alguns dos conteúdos socioculturais e espaciais que, a partir de estudos realizados em bairros de Lisboa, se revelaram como importantes na construção de um olhar específico sobre os processos de transformação urbana. Seguidamente foco, em específico, o bairro da Mouraria e discuto sobre algumas características que me ajudaram a compreender como o bairro se inscreve no mapa social da cidade. E, no final, sugiro o interesse em compreender a Mouraria a partir da articulação entre três tempos e três escalas: o bairro herdado, o bairro presente e o projetado, acrescentando aqui o bairro virtual que se vai construindo num espaço cibernético. Especificamente, sugiro que a transformação operada pelo atual processo de intervenção urbana deve ser melhor analisada na compreensão da matéria e do simbólico que a noção de bairro engloba. E, na sequência, sugiro a necessidade de precaução em seguir caminhos, às vezes tentadores, de análise e compreensão que estabelecem uma oposição entre o bairro herdado e presente com o bairro projetado e virtualizado.

Palavras-chave: Mouraria, imaginários urbanos, bairro herdado, presente e projetado

 

Marluci Menezes, Geógrafa, Doutora em Antropologia, Investigadora do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC)

 

 

De que se fala quando se diz que um bairro é um bairro? O bairro da Mouraria em questão

 

1.  Observações iniciais

A partir de uma perspectiva antropológica, estou interessada em captar e compreender a cidade como um processo em contínua transformação. Assim, o interesse em compreender a cidade como uma articulação entre três tempos e três escalas: “a cidade herdada, a cidade habitada, ou a cidade do presente que se faz e desfaz continuamente; e por fim a cidade projetada, que se confronta constantemente com seu horizonte futuro” (Biase, 2013: 199). Este pressuposto de partida permite aproximar-me das questões associadas ao debate sobre o Bairro, fazendo particular menção ao interesse em compreender esta expressão material e simbólica do mundo urbano como algo em contínua metamorfose, cuja compreensão infere articular os tempos e as escalas acima indicados. Mas infere ainda capitar a cidade que se constrói num espaço virtual, cibernético (Haddock,2004; Menezes, 2012).


Introduzidos os pressupostos gerais de uma perspetiva de compreensão da cidade, o que apresento neste artigo é, antes de mais, um ponto de vista teórico-metodológico sobre a compreensão do processo de invenção continuada do Bairro, focando em especial o caso da Mouraria. A ideia não é definir o que é um bairro, nem tão pouco o que é o bairro da Mouraria, mas sim identificar e discutir alguns dos aspectos que, a meu ver, são úteis para compreender a invenção continuada do bairro.


No próximo ponto esquematizo um percurso pessoal de pesquisa sobre bairros em Lisboa. Assinalo alguns dos conteúdos socioculturais e espaciais que, a partir dos bairros da cidade, se revelaram como importantes na construção de um olhar específico sobre os processos de transformação urbana. Em seguida, discuto algumas das características que me ajudaram a compreender como a Mouraria se inscreve no mapa social da cidade. E, no final, sugiro o interesse em retomar algumas implicações da compreensão do bairro a partir da articulação entre três tempos e três escalas – o bairro herdado, o bairro presente e o projetado, acrescentando aqui o bairro virtual que se vai construindo num espaço cibernético. Especificamente, sugiro que a transformação operada pelo atual processo de intervenção urbana deve ser melhor analisada na compreensão da matéria e do simbólico que a noção de bairro engloba. E, na sequência, sugiro a necessidade de precaução em seguir caminhos, às vezes tentadores, de análise e compreensão que estabelecem uma oposição entre o bairro herdado e presente com o bairro projetado e virtualizado.


2. Captando a transformação da cidade a partir dos seus bairros

O que são esses bairros que fazem Lisboa ser Lisboa? Como captar e compreender essas realidades sociais e espaciais que, à partida, se manifestam de forma singular, numa cidade que se coloca no plural? O que distingue um bairro do outro? Como se inscrevem estes bairros no mapa social da cidade mais ampla? Como dialoga a singularidade destes bairros com os processos de transformação urbana?


Em princípios dos anos de 1990, iniciei um percurso de trabalho que, pouco a pouco, me aproximou destes contextos socio-ecológicos de Lisboa que se apresentam como Bairro. Casal Ventoso e Quinta da Casquilha foram os primeiros bairros que estudei[1]. Mas, ainda que ambos contextos não fizessem necessariamente parte do que mais usualmente é abarcado pela expressão “Lisboa são seus bairros”[2], já que são bairros semiperiféricos relativamente à cidade consolidada, o conhecimento adquirido permitiu identificar alguns aspectos que, no seguimento das pesquisas que viria à realizar, se revelariam essenciais para aprofundar o conhecimento acerca destas construções socio-simbólicas e espaciais. Estes aspectos respeitam sobretudo às múltiplas influências que o modelo físico de arranjo espacial, o grau de abertura ou fechamento socio-urbanístico dos contextos, as relações entre espaço exterior e interior, as práticas e a visibilidade dos grupos em presença exercem sobre as configurações socio-espaciais.


Após essas primeiras experiências de pesquisa, realizei uma pesquisa antropológica no bairro da Madragoa. O objetivo da pesquisa foi a realização de uma etnografia circunstanciada da relação casa, rua e bairro, tendo analisado os aspectos socio-espaciais que eram mais valorizados pelos moradores na construção de uma ideia de bairro (Menezes, 2002). No entanto, um dos principais veículos de mudança na organização social e espacial do bairro relacionava-se com as dinâmicas de reabilitação urbana que decorriam na Madragoa, o que me levou a discutir duas questões centrais na compreensão do bairro. Uma delas é de âmbito disciplinar, já que ousava pôr em prática um projeto de pesquisa que permitisse aprofundar o conhecimento da relação entre organização do espaço e organização social. A outra questão é de ordem conjuntural, pois ao tomar como pressuposto de partida a ideia de espaço como o mundo habitado, organizado, apropriado, usado e representado, era significativo o facto do grau de intensidade de uma intervenção influenciar uma dada organização socio-espacial. Fui, então, para campo com as seguintes perguntas: quais são os aspectos socio-espaciais que os moradores mais valorizavam no processo de construção de um sentimento de pertença territorial? O que se constituía como valor sociocultural em termos do espaço residencial? Qual a relação entre o espaço físico-residencial e as suas representações? Com este estudo verifiquei, entre outros aspectos, que paralelamente à afirmação e preservação da identidade socio-espacial, conforme pronunciadas por uma espécie de bricolage do quotidiano – onde as imagens passadas, as presentes e as perspectivas futuras eram constantemente postas em relação –, dava-se uma mudança nos valores socioculturais locais de organização e arranjo do espaço, permitindo inferir a existência de um processo constante de reformulação socio-espacial que enriquecia o campo das significações imaginárias do bairro.


Finalizada a pesquisa sobre a Madragoa senti a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre como a relação entre determinados símbolos urbanos, valores socioculturais, arranjo formal do espaço, representações, práticas e as experiências dos indivíduos se articulavam com os processos de reformulação socio-espacial e o campo de significações imaginárias da cidade. Comecei, então, a configurar uma proposta de pesquisa que permitisse aprofundar o conhecimento da relação entre casa, rua e bairro. O objetivo era analisar como essa relação contribuía para a reconfiguração da imagem da ideia de bairro. Os trabalhos de Firmino da Costa (1999) – sobre Alfama – e Graça Í. Cordeiro (1997) – sobre a Bica – foram referências incontornáveis que, não esgotando novas perspectivas de abordagem, mostraram que, apesar da idealização e mesmo mitificação dos bairros tradicionais e populares de Lisboa, os seus universos socioculturais ainda eram relativamente desconhecidos. Considerei, então, que um eventual contributo poderia ser dado no sentido de enriquecer o conhecimento desses contextos, analisando e interpretando o quotidiano de um outro bairro que não Alfama, Bica ou Madragoa. Quanto mais caminhava pelos bairros populares da cidade, quanto mais sobre eles lia, um bairro, sobre todos os outros mostrou-se particularmente expressivo. Com muita má fama, poucos estudos de carácter sociológico, ainda que muito representativo do ponto de vista histórico, com muita mistura social e cultural, muito destruído nos anos quarenta, misto de atração e repulsa e objeto de reabilitação urbana desde 1985, a Mouraria mostrava-se um desafio (Menezes, 2004).


Considerei o bairro da Mouraria como um contexto particularmente interessante para analisar os processos de reformulação socio-espacial. O objetivo inicial era perceber como tais reformulações se repercutiam na imagem identitária do bairro. De modo que, ingenuamente acreditei que a Mouraria poderia ser um contraponto com as informações que dispunha relativamente ao bairro da Madragoa[3]. De modo que, fui para campo com a seguinte pergunta de partida: a partir da relação entre a casa e a rua, quais são os aspectos socioculturais que atualizam a ideia de bairro?Mas, conforme o trabalho se desenvolvia e consoante as leituras que efetuava sobre o bairro, dei-me conta que a motivação de partida teria de ser enquadrada num outro tipo de problemática. À época, inquietava-me a seguinte questão: como é que as metáforas que faziam menção ao bairro projetavam imagens culturais e urbanas que ao mesmo tempo que viabilizavam a sua emblematização podiam segregá-lo e marginalizá-lo?


Não obstante a relação casa, rua e bairro se ter revelado importante para a compreensão das dinâmicas locais, cada vez mais, tornou-se relevante a análise das lógicas de dualidade, ambivalência e ambiguidade que constantemente interferiam no processo de construção de imagens identitárias do bairro. Estas lógicas tanto podiam distinguir a tipicidade e a tradição como imagem emblemática ou a multietnicidade como símbolo local, como realçar a marginalidade e a segregação socio-espacial a que o bairro, ao longo da sua história, parece estar sujeito. E, aos poucos, a problemática de estudo foi-se configurando em torno da percepção dos significados que estavam por detrás do que se mostrava como a sua imagem mais visível, pública. Assim, na compreensão do processo de construção de imagens identitárias do bairro, recorri a uma análise histórica e da sua geografia social, das suas narrativas e memórias, enquanto paralelamente realizei uma etnografia das práticas de uso e apropriação do espaço público local[4].


3. O Bairro da Mouraria como pretexto de compreensão da transformação da cidade: breve esquema de uma produção de conhecimento


História, tradição e geografia social

Explicitar os acontecimentos que contextualizam o surgimento das formas sociais, culturais e urbanas é fundamental para enquadrar as dinâmicas de permanência e mudança do bairro. Um breve esquema da constituição da Mouraria como bairro permite salientar o seguinte:

·      O seu pano de fundo articula uma invenção datada e instituída – foral de 1170 formaliza o “arrabalde da mouraria” – e com fronteiras visíveis, com uma invenção que – sem limites nem fronteiras visíveis – resulta de uma complexa rede de elementos culturais, sociais, históricos, urbanos e rurais, sonhos, representações e mitos – e que, de certo modo, permitem naturalizar o que foi historicamente produzido –, tendo aqui particular interesse a lenda do Martim Moniz – que assinala a antiguidade do contexto –, e sobretudo o mito da Severa, para explicar a sua invenção como bairro popular e tradicional, entretanto repleto de contradições, ambiguidades e ambivalências (cf. Quadros 1 e 2).

Quadro 1 – Esquema representativo da invenção da Mouraria (I)

 

Quadro 2 – Esquema representativo da invenção da Mouraria (II)

·      A sua invenção resulta de elaborados processos que permitem articular lógicas de estigmatização territorial com as de emblematização.


·      A invenção do seu espaço material e simbólico é produto de um processo de intervenção urbana. Higienização, embelezamento e as noções que, fazendo uso do prefixo “re” (reabilitar, revitalizar, reutilizar, renovar, requalificar, reurbanizar, enfim, reinventar) ditam aquilo que interessa “fazer pelo património urbano” (Portas, 2003), configuram uma gramática que organiza as transformações no território.


·      A configuração social do bairro resulta de um continuado e complexo processo de mistura social e cultural – que combina e descombina, sobrepõe, articula e desarticula, inclui e exclui – pobres e ricos, migrantes e imigrantes, moradores, empregados e desempregados, homens e mulheres, velhos e jovens, utilizadores e visitantes, sem-abrigo, prostitutas, traficantes e toxicodependentes, religiosos e crentes, estudantes e artistas …


Limites, fronteiras e percepções

Complexificar a discussão sobre as noções de limite, fronteira e de lugar, e identificar meios para a interpretação da singularidade, enquanto expressão plural e multidimensional, a par de uma certa descontinuidade, é fundamental para compreender como é que a Mouraria se inscreve no mapa social da cidade enquanto um bairro (Menezes, 2013). Uma sinopse destas questões permite observar o seguinte:


·      Na identificação do lugar Mouraria na paisagem urbana realçam elementos relacionados com a sua situação geográfica e administrativa, e com a organização do espaço, sendo ainda de considerar os indícios geográficos, urbanos e de interação social que permitem identificar a aproximação ao território do bairro (cf. Quadro 3).


·      O território do bairro não se define por um perímetro visível e objetivo, constituindo-se como uma mancha cuja elasticidade pode ser mais ou menos contida em função de uma pluralidade de referências sociais e espaciais, acontecimentos, visões de mundo ou da participação em determinados modos e estilos de vida.


·      As distintas demarcações socio-espaciais são atravessadas por relações e lógicas sócio-espaciais ambivalentes, ambíguas, de inclusão e exclusão.

 


·      A Mouraria tanto é percebida a partir de uma relação entre centro e arredores, como por uma extensividade territorial que tanto pode ser grande como pequena (cf. Quadro 4).

 

Quadro 4 – A plasticidade da extensão do território do bairro

 


·      O bairro é definido a partir de uma gramática reconfigurada continuamente, onde as demarcações espaciais se apoiam em lógicas complementares e de diferenciação, entretanto mais dependentes das relações sociais e dos valores em causa que de fatores de ordem geográfica, urbanística ou administrativa (cf. Quadro 5).

 

 

 

Quadro 5 – Da plasticidade do lugar à especificidade da gramática social do espaço

 

·      A elasticidade do lugar confere aos seus limites uma maleabilidade que é constantemente manipulada, concorrida, ativada, acionada, utilizada estratégica e contextualmente.


Experiências e ritmos socio-espaciais

As práticas e as experiências das pessoas alimentam as representações e as imagens criadas sobre o bairro. Captar como a experiência fenomenológica do lugar participa do processo de configuração continuada das imagens identitárias do bairro permite, assim, relevar mais alguns aspectos de uma singularidade socio-espacial que se expressa no plural. Trata-se ainda de compreender como é que no processo de construção e produção social do espaço, se dá a coexistência entre imagens que contribuem para a emblematização do bairro, bem como para a sua segregação e estigmatização. Um breve esquema das questões estudadas permite, por agora, assinalar o seguinte:


·      A visibilidade dos indivíduos e das suas práticas de uso e apropriação do espaço, aliada à organização física e arquitetónica do território, é um dos principais elementos constituintes das imagens culturais e urbanas do bairro.


·      A rotina de uso e apropriação do espaço público cria um indefinível número de atmosferas que estimulam a criação de metáforas urbanas que, projetadas como imagens, fazem parte do conhecimento que se tem do bairro como de uma determinada faceta da cidade.


·      A observação das microgeografias quotidianas de uso e apropriação do espaço público permite contrariar a reificação social que tende a estabelecer um antagonismo entre tradicional e moderno. Onde o tradicional se repercute na ideia de domesticação do espaço público como sala ou quintal dos seus moradores, e o moderno é atravessado por uma esfera mais pública, onde as lógicas de modernização e globalização são reveladas.


·      As situações extraordinárias e de ritualização (festas, cerimónias religiosas, falecimento de alguém, etc.) permitem a reinvenção da ideia de bairro, como que preparando para o reiniciar do quotidiano.

 


Narrativas e representações do lugar

Os discursos, as memórias, representações, visões e tipos de experiências vivenciadas ajudam a compreender determinadas imagens culturais do presente da Mouraria (cf. Quadro 6).Em termos de um esquema muito sintético é possível sublinhar os seguintes aspectos:


·      Muito embora, existam diferenças entre as pessoas, há certas experiências comuns que influenciam as representações e as imagens que se produzem sobre o bairro. Isto permite observar que essas experiências podem fundamentar e sustentar uma determinada visão do bairro, ainda que a mesma seja flexível e admita a mutabilidade. Assim, observa-se que endogenamente e, nomeadamente junto daqueles que se autoconsideram como “filhos do bairro”, existe uma espécie de flutuação entre a ideia de que o bairro é como uma aldeia, característico, típico e tradicional, bem como que é um bairro que está descaracterizado.

        


·      Apesar das narrativas e representações do lugar poderem ser de cunho endógeno ou exógeno, verifica-se uma relação de reciprocidade que se manifesta através de um processo de “redobramento simbólico” conduzido do exterior (Costa: 1999).


·      As relações produzidas a partir da reciprocidade entre referências endógenas e exógenas (sobretudo analisadas a partir de artigos de jornais e revistas), bem como entre o tempo de antes e o de agora, permitem a introdução de novos elementos no processo de construção de imagens identitárias, a par de elementos já existentes continuarem a ser reproduzidos, o que amplia o campo das significações imaginárias do bairro. Assim, a Mouraria tanto pode ser evocada como um bairro típico e tradicional, multicultural e multiétnico, e mais atualmente como bairro cultural, mas também como contexto repleto de liminaridades sociais e espaciais.


·      A ambiguidade como um valor estrutural para o processo de construção da ideia de bairro, permite considerar que o sistema pode ser aberto a leituras distintas, compensatórias, mas não-hegemónicas. Esta perspetiva possibilita observar uma intricada rede de relações de oposição, contradição, dualidade, ambivalência, complementaridade e simultaneidade. Aqui, as posições de determinadas categorias sociais ou itens socioculturais, ou ainda os significados de certas conceções ou práticas, devem ser abordados a partir de uma perspectiva que permita aproximar e relativizar, ao invés de uma que absolutize as oposições e contradições.


·      As metáforas e as imagens do bairro indiciam diversidade, heterogeneidade e complexidade, sugerindo também diferença e desigualdade. O que permite introduzir a ideia de multivocalidade (Rodman: 1992) e de cidade polifónica (Canevacci, 1993; Fantim, 2000).


4. Da Mouraria como objeto de estudo à mouraria.com do sentido time out do viver urbano contemporâneo: a contínua invenção do bairro no horizonte projetado

Passados alguns anos desde que, a partir do caso da Mouraria, realizei um estudo aprofundado para compreender determinados aspectos da transformação da cidade, recordo agora a difícil tarefa que foi traçar um caminho que me auxiliasse a compreender o bairro. Relembro que, a par da complexidade social, cultural, espacial e arquitetónica com que tive de lidar, um dos desafios que também se colocou foi descobrir que tinha de trabalhar com opiniões e mesmo representações muito críticas do bairro e, em parte, ao próprio sentido do que poderia ser um estudo naquele contexto. As inseguranças iniciais do trabalho de campo tornaram-se, muitas vezes, difíceis de ultrapassar devido a opiniões que me mereciam respeito, defrontando-me ainda com a falta de sentido que era estudar um contexto que, por um lado, “deixou de existir” face a intervenção promovida pela política urbana do Estado Novo e que destruiu o bairro quase por inteiro, apenas restando umas poucas ruas “sem expressão socio-urbanística” e, por outro lado, a insensatez de estudar um bairro que somente se manifestava por “exemplos negativos” ao longo da sua história. Se me valeu o estímulo de parte dos amigos, de cientistas sociais e dos técnicos de intervenção urbana que, à época, estavam a atuar no bairro. O que se afigurou como decisivo enquanto antropóloga foi uma espécie de postura subversiva através do qual a Mouraria continuava a afirma-se como um dos bairros que faz a cidade ser Lisboa.


Todavia, acompanhando as atuais dinâmicas de transformação do bairro a partir de um olhar mais distanciado, acredito que captar o presente da Mouraria de forma aprofundada, continua a ser uma difícil tarefa. Na verdade, considero que estudar os processos de transformação urbana, tendo presente o caso da Mouraria, mantém-se uma desafiante perspetiva de pesquisa, reflexão e compreensão da cidade.


Adrián Gorelik (2002) observa que:

 “(…) nunca se falou tanto de imaginários urbanos ao mesmo tempo que o horizonte da imaginação urbana nunca esteve tão enclausurado na sua capacidade projetiva. Assim delineada, resulta um mal-estar facilmente impugnável, já que a fórmula reúne duas dimensões de qualidade diferentes: os imaginários urbanos como reflexão cultural (em geral, académica) sobre as mais diversas maneiras através das quais as sociedades se representam a si mesmas nas cidades e constroem seus modos de comunicação e seus códigos de compreensão da vida urbana, e a imaginação urbana como uma dimensão da reflexão técnico-política (geralmente concentrada em um conjunto de profissões: arquitetura, planeamento urbano, planificação) sobre como a cidade deve ser.”


O que conduz ao interesse em complexificar um pouco mais a compreensão do campo das significações imaginárias relacionadas com o bairro da Mouraria, procurando-se conhecer mais aprofundadamente como a imaginação urbana tem contribuído para continuar a produzir uma Mouraria do século XXI, entretanto projetada no horizonte de 2020. Assim, em jeito de notas finais gostava de traçar mais algumas observações.


Uma primeira refere-se a atual disseminação – em cartazes colocados nas ruas, em sites, em jornais e revistas – sobre o“que vai mudar na Mouraria”, fazendo referência a uma espécie de futuro que se pretende presente (Gomes, 2011). Uma outra é a vibrante descoberta de queagora “há vida na Mouraria”[5], como se antes não houvesse. Observações que, entretanto levam a outras. Como por exemplo, a atual exposição da Mouraria como um bairro que está na “moda” e que oferece um variado conjunto de atividades (económicas, artísticas, de lazer, habitacionais, etc.), atraindo uma crescente e variada procura. Mas também a promoção da Mouraria como realidade, cada vez mais mediatizada e presente num espaço virtual, como se o bairro, analogamente, passasse a existir numa espécie de universo paralelo. Aqui parece-me útil o recurso a duas metáforas para explicar a ideia de universo paralelo antes referida: a Mouraria “time out”[6]e a “mouraria.com”[7]. Um universo que transforma a problemática social e urbana local em diversidade, convivência e animação cultural. O atual processo de intervenção urbana que decorre sobre o bairro tem influência na produção destas dinâmicas, entretanto desmultiplicadas numa série de outras. Como, por exemplo, o proliferar de associações e organismos do terceiro setor, o que me leva a questionar sobre quais os elementos socioculturais e simbólicos que são mobilizados por estas entidades na sua participação do complexo e continuado processo de elaboração de imagens identitárias do bairro, mas também da cidade?


De um ponto de vista analítico, julgo importante considerar que a compreensão das transformações urbanas que perpassam o presente do bairro, somente é possível a partir da consideração de uma relação articulada entre o que é herdado, o que se faz presente e se coloca como horizonte futuro, isto é, o projetado (Biase, 2013). O que realça o interesse em analisar-se o sentido fenomenológico com que os atuais conteúdos sociais são contextualmente e quotidianamente produzidos, procurando-se, assim, evitar a tentadora compreensão do bairro a partir de uma lógica de sentido único: que não é passado nem presente, muito embora seja futuro, porque projetado; ou ainda seja idealizado, porque construído num espaço virtual.


Uma outra nota é a descoberta da Mouraria pela universidade. Independentemente do trabalho produzido acrescentar valor ao conhecimento sobre o bairro e a cidade, o que gostava de sublinhar, é o interesse em analisar as representações que sobre o bairro são produzidas no quadro de uma crescente profusão de trabalhos universitários – e que vão desde os trabalhos académicos aos relatórios e pesquisas que sustentam determinadas posições técnicas e políticas.


Uma última nota, refere-se ao eventual interesse em pensar-se o bairro da Mouraria a partir de um reposicionamento da sua especificidade socio-espacial local numa série entrecruzada de especificidades. Aqui a Mouraria passaria a ser apenas um dos vários nós que definem o que é Lisboa como cidade/rede. O que, por fim, leva-me a questionar sobre o seguinte:será que de espaço diferente, porque singular, o bairro da Mouraria estará a transformar-se num espaço indiferenciado?

 

5. Bibliografia

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CANEVACCI, Massimo – A Cidade Polifônica: Ensaio Sobre a Antropologia da Comunicação Urbana. São Paulo: Studio Nobel, 1993. ISBN 9788585445089.

CORDEIRO, Graça I. – Um Lugar na Cidade: Quotidiano, Memória e Representação no Bairro da Bica. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997. ISBN 9789722014106

CORDEIRO, Graça I.; COSTA, A. Firmino da – Bairros: contexto e intersecção. In Antropologia Urbana: Cultura e Sociedade no Brasil e em Portugal, VELHO, Gilberto (org.). Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1989. ISBN 85-7110-525-1, p. 58-79

COSTA, A. Firmino da – Sociedade de Bairro. Oeiras: Celta Editora, 1999. ISBN 9727740251

FANTIN, Márcia – Cidade Dividida – Dilemas e Disputas Simbólicas em Florianópolis. Florianópolis: Editora Cidade Futura, 2000. ISBN 9788587757029

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GORELIK, Adrián– Imaginarios urbanos e imaginación urbana: Para un recorrido por los lugares comunes de los estudios culturales urbanos. EURE[Em linha]. 28: 83, 125-136, 2002. [Consult. 1 out. 2013]. Disponível em: http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0250-71612002008300008&lng=es&nrm=iso&tlng=esISSN 0250-7161

HADDOCK, Serena V. – La Città Contemporanea. Il Mulin: Bologna, 2004. ISBN 9788815095244

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MENEZES, Marluci – Mouraria, retalhos de um imaginário: significados urbanos de um bairro de Lisboa. Celta Editora: Oeiras, 2004. ISBN 972-774-207-6.

PORTAS, Nuno. À volta da cidade. Atas do 3.º ENCORE – Encontro sobre Conservação e Reabilitação de Edifícios. Vol.1. Lisboa: LNEC, 2003. ISBN 9789724919607, p.73-78.

RODMAN, Margaret C. – Empowering place: multilocality and multivocality. American Anthropologist, 94, 1992, p. 640-656.

VALLADARES, Licia do Prado – A invenção da favela: Do mito de origem a favela. com. Rio de de Janeiro: FGV Editora, 3ª ed., 2009. ISBN 85-225-0533-0.

 

Sites consultados

http://timeout.sapo.pt/

http://vousair.com/cartaz/novidades/espectaculos/item/8285-ha-vida-nos-largos-da-mouraria

http://www.aimouraria.cm-lisboa.pt/

https://www.facebook.com/pages/H%C3%A1-vida-na-Mouraria/250434398328678


[1]
Em ambos os casos o trabalho realizado enquadrou-se numa perspetiva de investigação-ação que apoiou processos de intervenção socio-urbanística que se viriam implementar sobre estes contextos, alterando significativamente a realidade dos mesmos (Menezes, 2002; Machado, Craveiro e Menezes, 1992).

[2]
Admitindo o interesse em aprofundar os sentidos e significados sociais desta expressão, por agora, observo que sempre que ouvi a expressão “Lisboa são seus bairros” e seguidamente perguntei – a interlocutores vários – sobre que bairros seriam esses, as respostas fornecidas remeteram para bairros específicos – tais como Bairro Alto, Alfama, Mouraria, Bica, Madragoa, etc. – e para a ideia de que são os bairros considerados como tradicionais, populares e/ou históricos da cidade.


[3]
    Confrontada com a realidade, aprendi que o conhecimento aprofundado de uma totalidade como é o bairro é, já em si, complexa e constitui-se como uma pequena, embora importante parte do conhecimento dos bairros tradicionais e populares e, em certo sentido, da própria cidade.

[4]
     As questões seguidamente apresentadas poderão ser aprofundadas em: Menezes 2004.


[5]
    “Há vida na Mouraria” tornou-se uma expressão representativa dos atuais eventos que sucedem no bairro. Exemplos desta situação podem ser consultados em site no facebook de nome equivalente (https://www.facebook.com/pages/H%C3%A1-vida-na-Mouraria/250434398328678), no site da Câmara de Lisboa relacionado com o Programa de Ação da Mouraria (http://www.aimouraria.cm-lisboa.pt/), no site Há Vida nos Largos da Mouraria (http://vousair.com/cartaz/novidades/espectaculos/item/8285-ha-vida-nos-largos-da-mouraria).


[6]
    O recurso a esta metáfora é inspirado na capa de revista “Time Out”, definida como uma revista que divulga “Tudo o que há para ver, comer, beber e fazer em Lisboa” (http://timeout.sapo.pt/). Neste sentido, é de salientar que o nº 251 (de 18 a 24 de julho de 2012) teve a seguinte matéria de capa: “Mouraria: Tudo sobre o bairro mais surpreendente de Lisboa”.

[7]
    O interessante trabalho de Licia P. Valadares (2009) intitulado “A invenção da favela: do mito de origem a favela.com”, aporta alguns aspectos particularmente interessantes para se pensar a invenção da Mouraria do século XXI. Não se trata aqui, de modo algum, de propor uma comparação entre os universos em causa – as favelas do Rio de Janeiro e o bairro da Mouraria –, já que são consideravelmente diferentes para poderem ser comparados. Trata-se antes de identificar lógicas com alguma similitude em termos da produção de imaginários urbanos na sociedade urbana contemporânea.